O retorno essa semana à prisão — e não à sua casa, como queriam os advogados e a turba bolsonarista — marcou não apenas mais um capítulo do calvário de Jair Bolsonaro, mas também o início de um raro momento de introspecção coletiva. E talvez o sinal mais eloquente desse novo tempo não seja a imagem da cela nem o ritual judicial de sempre, mas o silêncio que se seguiu: o gado, ao menos por enquanto, parou de mugir. É nesse intervalo estranho — entre o mito que se esfarela e o personagem que insiste em sobreviver — que a crônica política brasileira volta a oferecer seu melhor material, misturando farsa, devoção tardia e uma reflexão incômoda sobre como chegamos até aqui.
É preciso reconhecer: o messias brasileiro, o mito da fazendeirama — no linguajar da violeira pantaneira Helena Meireles — teve, ao menos, um lampejo tardio de humildade. Admitiu, já no fim da linha, que não tinha plenos poderes. Não era Deus, não era imperador, não era sequer um híbrido mitológico digno de nota. Era presidente dentro dos limites do cargo, da Constituição e, sobretudo, da própria incapacidade. A partir daí, ficou fácil: bastou jogar todas as trapalhadas do período da pandemia nas costas do destino, da ciência, do comunismo imaginário, do STF real e de qualquer um que estivesse disponível para levar a culpa. Crônica pronta. Brasil explicado.
Mas a essa altura o personagem já não lembrava mais Gilgamesh, Hércules ou qualquer outro híbrido respeitável da mitologia antiga. O messias-mito estava mais para um tipo bem mais brasileiro, mais rasteiro e infinitamente mais funcional: Sassá Mutema. Criado por Lauro César Muniz na novela O Salvador da Pátria, o personagem magistralmente interpretado por Lima Duarte, é um boia-fria analfabeto transformado em símbolo moral e político não por virtude, projeto ou grandeza pessoal, mas porque diferentes forças — a imprensa demagógica, as elites regionais e o desejo coletivo de absolvição — precisam desesperadamente acreditar em alguém. Inocentado de um crime que não cometeu, passa de bode expiatório a salvador simbólico e acaba carregado para o poder por uma fé que nunca foi exatamente sua, mas dos outros.
Sassá não engana por astúcia. Ele é engolido pelo papel que lhe impõem. A diferença é que, na vida real, o nosso messias tropical não foi empurrado para o mito — ele se ofereceu. Vestiu o personagem, acreditou no roteiro e passou a agir como se estivesse acima da política, da institucionalidade e, por fim, da própria realidade. A tentativa de romper a tornozeleira eletrônica foi o gesto final dessa ilusão: não um desafio heroico ao sistema, mas o ato desesperado de quem ainda acredita que o personagem pode salvar o ator.
A facada, lá atrás, foi o momento onde nasceu mito. Não apenas um episódio violento de campanha, mas um sacramento político. Dali em diante, o candidato virou mártir, o discurso virou religião portátil e a crítica passou a ser tratada como heresia. A pandemia, por sua vez, exigiu algo que nenhum mito sustenta por muito tempo: governo real, decisão concreta, responsabilidade histórica. E foi ali que o personagem começou a ruir, soterrado por improvisos, bravatas e uma contabilidade macabra que não admite retórica.
O retorno à prisão fecha o ciclo com a ironia cruel que só a realidade brasileira sabe produzir. Não houve catarse, não houve redenção, não houve aprendizado público. Houve apenas a cena quase cômica de um messias sem plenos poderes confrontado pelo que mais desprezou: o Estado de Direito. Não caiu como herói trágico, nem como vilão shakespeariano. Caiu como personagem de novela, desses que o público já sabe que não escapará no último capítulo, mas continua assistindo por hábito.
A crônica é hilária, sim. Mas o riso vem acompanhado do desconforto inevitável de quem percebe que participou do espetáculo. Porque Sassá Mutema só existe onde há plateia disposta a aplaudir. E messias sem plenos poderes só prospera em países que preferem mito a método, salvador a projeto e grito a governo.
No fim, resta a velha lição dos mitos antigos, agora adaptada aos trópicos: não há deus híbrido que sobreviva ao tempo quando o poder exige responsabilidade. E não há messias que resista quando o milagre acaba e sobra apenas a tornozeleira piscando no tornozelo da realidade.
