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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Barbosinha: “Dourados já passou da hora de liderar o Estado”

Vice-governador avalia cenário eleitoral, fala da parceria com Riedel, da interinidade no comando do Estado e dos desafios políticos e institucionais do Mato Grosso do Sul em um novo cenário regional e internacional

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Nesta entrevista ao contrapontoMS, o vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha, que assumiu interinamente o comando do Mato Grosso do Sul dia 29 de dezembro passado, fala com franqueza rara sobre o momento político em que o jogo começa a afunilar para as eleições deste ano. Sem ansiedade e sem discurso ensaiado, ele trata da possibilidade de continuidade da dobradinha com o governador Eduardo Riedel, relativiza a ideia de “bola da vez” e insiste num conceito que atravessa todas as suas respostas: política é construção coletiva, feita no tempo certo, com método, diálogo e entrega.

Ao longo da conversa, Barbosinha defende o modelo de governo transversal adotado por Riedel — não como slogan eleitoral, mas como método de gestão — e afirma, sem rodeios, que reeleição não se garante com conceito, e sim com resultado, coerência e confiança. Também chama atenção para aquilo que considera o principal legado do atual governo: menos pirotecnia, mais planejamento, responsabilidade fiscal e visão de futuro, mesmo que isso não renda manchetes barulhentas.

Dourados aparece como pano de fundo permanente da entrevista. O vice-governador reconhece que a maior cidade do interior já reúne quadros políticos e técnicos para liderar o Estado, mas pondera que projetos estaduais não se constroem por decreto nem por desejo isolado. Fala ainda de sua preocupação pessoal com o crescimento urbano desordenado e a perda de áreas verdes na cidade, citando equívocos recentes e defendendo um princípio simples: primeiro planejar, depois crescer.

Há espaço também para temas sensíveis e atuais. Barbosinha aborda a relação com lideranças políticas centrais do Estado, como Reinaldo Azambuja e o prefeito Marçal Filho, reafirma o caráter municipalista do governo e esclarece, de forma didática, onde termina a responsabilidade do Estado e começa a da Prefeitura — inclusive em questões que costumam gerar ruído, como recapeamentos e tapa-buracos. No plano internacional, avalia com cautela os impactos da crise envolvendo a Venezuela sobre um Estado de fronteira como Mato Grosso do Sul, equilibrando a dimensão humanitária com preocupações legítimas de segurança, economia e capacidade dos serviços públicos.

Por sua condição de “vice dos sonhos” de qualquer governador, como encara a possibilidade de mais quatro anos no gabinete da Vice-Governadoria: continuidade, missão cumprida ou novos desafios?

Olho para isso com muita serenidade. Não sou vice por vaidade nem por acaso; sou vice por missão. Se essa missão se estender por mais quatro anos, será continuidade com novos desafios. Se não, será missão cumprida, com gratidão. Política não é cargo, é propósito — e propósito não se aposenta, se renova. Hoje, somos mais do que um partido ou algumas pessoas. Somos um grupo, um time, que trabalha com um propósito muito claro, como costuma dizer o governador Eduardo Riedel: tornar Mato Grosso do Sul um Estado cada vez mais próspero, sustentável, digital e inclusivo — um Estado que cresce e se desenvolve sem deixar ninguém para trás.

Essa expressão “vice dos sonhos” eu ouvi de uma secretária do ex-governador André Puccinelli quando o “douradense” Murilo Zauith também era vice. Antes dele, George Takimoto (de Marcelo Miranda) e Egon Krachecke (de Zeca do PT), depois, novamente Murilo, já de Reinaldo Azambuja. Independente de continuar como vice de Riedel, não acha que está na hora de Dourados emplacar um cabeça de chapa?

Essa provocação é boa — e justa. Dourados já mostrou que sabe formar quadros. O que talvez tenha faltado em outros momentos não foi gente boa, foi ambiente político, alinhamento e timing. Eu concordo: Dourados já merece um cabeça de chapa. Mas isso não acontece por decreto nem por desejo isolado. A política é construção coletiva.
Acho que não faltaram nomes, faltaram circunstâncias. E política também é tempo certo. Não tenho dúvida de que a maior cidade do interior do Estado possui quadros técnicos e políticos plenamente aptos a ocupar essa posição.

Por isso mesmo já cansei de escrever que, para ser governador, não basta certidão de nascimento ou domicílio eleitoral. É preciso muito mais. O que é esse “muito mais” que faltou a Takimoto, Egon e Zauith?

Esse “muito mais” é simples de falar e difícil de fazer: projeto estadual, capacidade de diálogo, confiança política ampla e leitura correta do momento histórico. Governador não se constrói só com base eleitoral regional; se constrói com alianças sólidas, credibilidade e capacidade de liderar o Estado inteiro — do extremo sul ao norte, da fronteira ao Pantanal. Em síntese: é maturidade política, é leitura de cenário, é saber esperar e construir confiança. Governador não nasce pronto — se constrói ao longo do tempo, com erros, acertos, diálogo e humildade.

No tabuleiro que começa a se desenhar, será o Barbosinha a bola da vez ou ainda há muitas peças para se moverem?

Ainda tem muita água para correr debaixo da ponte. Política não gosta de ansiedade. Quem acha que o jogo já está decidido está olhando só o próprio reflexo no espelho. Política é movimento, e quem se antecipa demais costuma tropeçar. Eu sigo fazendo o que sempre fiz: trabalhando, ouvindo e respeitando o tempo das coisas. E, repito, temos um plano de governo que nos orienta na gestão. Neste momento, estamos concentrados em uma série de entregas concretas, capazes de mudar a vida das pessoas. São projetos estruturantes, como os Hospitais Regionais de Dourados e Três Lagoas, a PPP do Hospital Regional da Capital, as duas grandes rotas que já transformam a infraestrutura e ampliam as potencialidades do Estado — a da Celulose e a Bioceânica — e o municipalismo ativo, que, após ouvir os 79 prefeitos, prefeitas e vereadores, executa um pacote de obras que interfere de forma direta e positiva no cotidiano das pessoas, nos municípios onde elas vivem.

Agendei esta entrevista justamente neste período de interinidade só para, como douradense, com orgulho do Jaguapiru, ter o gostinho de poder chamá-lo de governador. Então, governador, agora vamos ao que interessa: papo reto, olho no olho. A tal da transversalidade governamental prometida por Riedel, por si só, garante a reeleição?

(risos) Confesso que esse gostinho douradense é recíproco. Mas vamos ao ponto: transversalidade, sozinha, não garante reeleição nenhuma. O que garante reeleição é resultado, coerência e confiança. A transversalidade é o método; o voto vem da entrega. O que decide é se as pessoas sentem que o governo cuida delas. Isso não se finge.
Como o governador Eduardo Riedel disse outro dia, com muita propriedade, esse debate eleitoral começou cedo demais. Em 2026, antes das eleições, ainda teremos Copa do Mundo — que venha o Hexa (risos). Até lá, seguiremos trabalhando, com o plano de governo sempre na mesa de cabeceira, orientando a gestão.

Aliás, por favor, de forma bem didática, para que o habitué da padaria do fuxico consiga entender: como funciona, na prática, essa tal de transversalidade?

Vamos lá, bem padaria do fuxico mesmo: transversalidade é quando a Secretaria de Saúde conversa com a de Infraestrutura, que conversa com a Educação, que conversa com o Meio Ambiente, todas olhando para o mesmo problema e buscando a mesma solução. É parar de trabalhar em caixinhas e começar a trabalhar em rede. Simples assim.

Contagem regressiva… 5… 4… 3… 2… 1! Que grande legado o governo Riedel terá deixado? Claro que não vale contar com o ovo dentro da galinha: a pergunta só vale até dezembro do ano que vem.

Poderia citar que Mato Grosso do Sul registrou uma das maiores reduções da pobreza e da extrema pobreza do país nos últimos anos, passando a figurar entre os estados com menor proporção de domicílios nessa condição. Poderia falar também do crescimento expressivo do PIB, muito acima da média nacional, da queda histórica da taxa de desemprego — hoje entre as menores do Brasil — e do aumento da renda média da população.

Houve ainda avanços consistentes na alfabetização e na educação básica, com ampliação do ensino em tempo integral e a reforma de grande parte da rede escolar. O Estado será o primeiro do país a universalizar o saneamento, consolidou políticas ambientais que o colocam na vanguarda da agenda de sustentabilidade e da neutralidade de carbono, além de entregar milhares de quilômetros de asfalto e fortalecer uma parceria efetiva com os 79 municípios, marca de um governo verdadeiramente municipalista — algo muito visível em Dourados.

Mas, se eu tivesse que resumir tudo isso, diria que o maior legado do governo Riedel será ter colocado Mato Grosso do Sul em um trilho seguro de planejamento, responsabilidade fiscal e visão de futuro. Não é um governo de pirotecnia. É um governo de base sólida, que tem como princípio cuidar das pessoas. Talvez não seja o legado mais barulhento, mas é o mais responsável — e responsabilidade também é uma forma de carinho com as próximas gerações.

Como vice-governador, no dia-a-dia, o Barbosinha tem tido um olhar especial para Dourados, a cidade concebida para ser modelo para o Brasil?

Dourados é parte de mim, e minha preocupação, por exemplo, com as áreas verdes nasce desse vínculo profundo com a cidade. Crescer é necessário, mas crescer cuidando é essencial. O que me inquieta é o crescimento desordenado e a perda gradual dos espaços verdes, que sempre foram parte da identidade urbana de Dourados. Durante muitos anos, a cidade avançou com planejamento, pensando em avenidas, parques, lagos e áreas de convivência. Mais recentemente, a sensação é de que o ritmo do crescimento tem se sobreposto ao cuidado com o verde e com a qualidade de vida. Dourados precisa retomar um princípio simples e responsável: primeiro pensa, planeja, depois cresce. Tem que ter critério. Crescer sem planejamento é empurrar problema para frente — e conta alta para o futuro.

Voltando ao macro, do Estado… então quer dizer que, com mais quatro anos, é só correr para o abraço e, nesse caso, Riedel chegaria a galope ao Senado e aí… tchan! tchan! tchan!… sem querer pôr os bois diante da carreta, já dá para sonhar com uma reeleição daqui cinco anos?

(Risos) Sonhar é humano. Mas política exige pés no chão. Primeiro é entregar bem até o último dia do mandato. O resto vem depois, se vier. Se a vida quiser nos levar a outros caminhos, vamos com humildade. Se não, seguimos servindo onde for possível.

Claro que, para tudo isso dar certo, é preciso contar com o eleitor — principalmente os de Azambuja. Falando nisso, é verdade que ele já encomendou o terno da posse no Senado e que, para subir a rampa com toda a pompa, até marcou agenda com o famoso especialista douradense em implantes, Baltazar Sanabria, que cobriu o cocuruto do braço direito dele, o Sérgio de Paula?

(risos) O Azambuja é um amigo e, sem dúvida, uma das maiores lideranças políticas do Estado — alguém que sabe respeitar o tempo das coisas. O eleitor dele também é assim: atento, exigente, nada automático. Política se constrói com trabalho, confiança e resultado. Se não fosse desse jeito, ele não teria sido prefeito, deputado estadual e deputado federal mais votado e governador por dois mandatos, além de ser o único a eleger o próprio sucessor. Tudo isso não aconteceu por acaso — foi construção.

Aproveitando a deixa da calva, muita gente viu o “passe” de Riedel, impondo as mãos sobre sua cabeça debaixo de um Sol a pino naquele dia da entrega da Coronel Ponciano, não apenas como um gesto de carinho, mas como uma sinalização clara de que vai prevalecer o ditado segundo o qual não se mexe em time que está ganhando…

Aquilo foi apenas um gesto espontâneo, de cuidado mesmo. Na política, muita gente gosta de enxergar sinais em tudo, mas ali não houve nada além de amizade. O que sustenta qualquer time, no fim das contas, é o trabalho diário. E eu me sinto verdadeiramente privilegiado por ser vice do Riedel e, sobretudo, pelo amigo que ganhei nessa caminhada.

Essa sua eventual permanência como vice passa pelo crivo do prefeito Marçal Filho?

Não passa por uma pessoa só. Passa por diálogo, respeito e entendimento coletivo. O prefeito Marçal é parte importantíssima desse processo, assim como outras lideranças e as forças políticas da cidade e do Estado. Política não se faz sozinho — se constrói com conversa, confiança e responsabilidade compartilhada.

Falando sério agora: o Barbosinha tem interesse em continuar no jogo, quer mesmo ficar, tem outros projetos ou já começa a flertar com a ideia de cuidar dos boizinhos na fazenda?

Tenho vontade, sim, de continuar. Enquanto eu sentir que posso contribuir, estarei disponível. A vida pública me ensinou muito — e ainda ensina.

Voltando ao Marçal Filho, como está hoje a sintonia entre a Prefeitura de Dourados e o Governo do Estado?

A relação é de respeito institucional e de intensa parceria. Quando Estado e Prefeitura caminham juntos, quem ganha é o cidadão.

A propósito, para deixar as coisas bem claras: onde ou quando termina o papel do Estado e começa o da Prefeitura? Por exemplo, na infindável questão dos recapeamentos e tapa-buracos?

Cada ente tem seu papel bem definido. A Prefeitura responde pelo dia a dia da cidade, pela manutenção urbana — limpeza, recapeamento e tapa-buracos. O Estado atua nas obras estruturantes e nas políticas de interesse regional. Agora, é importante dizer: este é um governo municipalista. O Estado tem ido além do seu papel tradicional e, em muitos casos, assumido demandas que seriam dos municípios — inclusive recapeando e levando asfalto para áreas urbanas. E isso não acontece de forma impositiva ou de cima para baixo. É construído ouvindo prefeitos, dialogando com vereadores e secretários, entendendo a realidade de cada cidade. Não se trata de substituir responsabilidades, mas de cooperar. Quando há diálogo e parceria, o resultado aparece e quem ganha é a população. Cada ente tem seu papel. Quando isso é respeitado, as coisas fluem. Quando não é, vira disputa — e disputa não asfalta, não cuida da educação, da saúde ou da assistência social, não gera empregos e, definitivamente, não tapa buraco.

Que hora para assumir o comando do Estado! justamente num momento de forte tensão internacional, com a crise envolvendo a Venezuela e seus desdobramentos regionais. O Mato Grosso do Sul é um dos estados que mais recebeu venezuelanos nos últimos anos, especialmente durante o endurecimento do regime Maduro. Como avalia os impactos desse novo cenário geopolítico para o Estado, tanto do ponto de vista humanitário quanto da segurança, da economia e da política de fronteiras?

O cenário internacional preocupa, sim. Mato Grosso do Sul é fronteira, é corredor humano, é porta de entrada. Temos uma responsabilidade humanitária que nos orgulha, mas também precisamos ter atenção com segurança, emprego e a capacidade dos serviços públicos. A presença de mão-de-obra estrangeira, especialmente dos venezuelanos, tem sido importante para a economia do Estado, ajudando a suprir demandas do mercado de trabalho e movimentar setores produtivos. Ao mesmo tempo, essa realidade exige investimentos adicionais em educação, saúde e assistência social. Por isso, a resposta precisa ser equilibrada, responsável e articulada com o governo federal e com os municípios, para que o acolhimento caminhe junto com planejamento e sustentabilidade.

Sua mensagem de “boas entradas”… como governador em exercício, como douradense e como homem público, nesse novo e incerto cenário político e internacional?

Minha mensagem é simples: em tempos incertos, o que sustenta um Estado não é o grito, é a responsabilidade. Não é o improviso, é o planejamento. Mato Grosso do Sul precisa seguir unido, sereno e confiante. O futuro não se espera — se constrói.

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