O velho Mato Grosso, antes de ser dividido em dois Estados, emplacou dois presidentes da República: Eurico Gaspar Dutra e Jânio Quadros. Não é pouco. Tampouco é detalhe irrelevante. É dado histórico fundamental para compreender por que, sempre que o poder central entra em crise de sucessão, o Centro-Oeste reaparece no radar político nacional. Sem que nos esqueçamos, a propósito, que o nascimento de Mato Grosso do Sul esteve longe de ser um parto natural. O processo divisionista durou quase cem anos e foi marcado por uma disputa figadal entre o Sul do antigo Mato Grosso e os “nortistas”, especialmente os cuiabanos, que resistiram até o limite à separação. Não houve conciliação. Houve imposição, no caso, de um general presidente, Ernesto Geisel.
Agora, já com o calendário eleitoral de 2026 encurtando, não há como fugir dos deuses. Sim, os do Olimpo — não os messias travestidos de mito que, vira e mexe, voltam a assombrar o debate político. E nada melhor do que a mitologia grega para explicar esse processo, num paralelo direto e sem sutileza: como Zeus, o deus dos deuses, o velho Mato Grosso tentou manter o poder engolindo seus próprios filhos. Na mitologia, Zeus devora suas mulheres, quando grávidas, para impedir que seus descendentes o destronem — e, quando não consegue evitar o destino, pare filhos rasgando as próprias coxas, em partos antinaturais, dolorosos e violentos. Assim nasceu Mato Grosso do Sul: não do ventre da concórdia, mas da coxa do poder, arrancado a fórceps de um corpo que não queria se dividir.
Esse parto traumático explica muito do que veio depois. Explica o ressentimento, explica a afirmação identitária e explica, sobretudo, por que o Estado recém-criado precisou produzir rapidamente elites políticas capazes de se impor nacionalmente. Não por vaidade, mas por sobrevivência. E é nesse ponto que as trajetórias de Tereza Cristina e Simone Tebet deixam de ser coincidência e passam a ser consequência histórica.
Tereza Cristina é herdeira direta da linhagem do velho Mato Grosso que sempre orbitou o centro do poder. Pelo lado paterno, carrega dois sobrenomes, Correia da Costa, que ajudaram a governar o Estado indiviso: Pedro Celestino, governador e senador, e Fernando Corrêa da Costa, da mesma forma governador e senador, sendo Fernandão ainda prefeito de Campo Grande. Respectivamente, bisavô e avô da senadora bolsonarista. Não se trata apenas de árvore genealógica, mas de continuidade política. Sua passagem pelo Ministério da Agricultura consolidou essa herança, ligando tradição, agronegócio e poder institucional em Brasília.
O lançamento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, feito mais por imposição paterna do que por consenso interno, escancarou um vazio na direita. O filho não unifica, não empolga e não se apresenta, até aqui, como ameaça real a Lula. A retirada de Tarcísio de Freitas abriu uma lacuna que o bolsonarismo não conseguiu preencher. Foi nesse espaço que o agronegócio passou a olhar para Tereza Cristina como alternativa viável — não por carisma, mas por densidade.
Os números das pesquisas ainda são modestos, mas pesquisas não medem rearranjos de poder em fase embrionária. Tereza sempre foi tratada como vice ideal. Transformá-la em cabeça de chapa exige mudança de enquadramento, discurso e aposta política dos setores que realmente mandam no jogo econômico. Se isso acontecer, não será exagero dizer que o Brasil pode voltar a ser governado por alguém cuja história política nasce no Centro-Oeste.
Simone Tebet faz o caminho inverso, mas com igual densidade histórica. Se Tereza simboliza a continuidade do velho Mato Grosso projetado para Brasília, Simone representa a afirmação do Mato Grosso do Sul já dividido, tentando deixar de ser filho parido à força para se tornar protagonista por mérito próprio.
Filha de Ramez Tebet, também governador, senador e presidente do Senado, Simone cresceu dentro da política institucional. Mas, diferentemente da tradição que herdou, escolheu romper cercas. Desafiou o próprio partido, enfrentou a polarização, chegou em terceiro lugar numa eleição presidencial marcada por extremos e, no segundo turno de 2022, fez a escolha que redefiniu seu lugar na história ao apoiar Lula.
Ao assumir o Ministério do Planejamento, deixou de ser promessa para se tornar ativo estratégico do governo. Hoje, é vista pelo centro-esquerda como nome capaz de ampliar votos onde o PT historicamente enfrenta dificuldades, especialmente em São Paulo. A possibilidade de Simone Tebet compor como vice numa chapa de reeleição de Lula não é delírio nem gesto simbólico. É cálculo político puro.
Se decidir trocar o domicílio eleitoral, não será traição às origens, mas confirmação de que seu projeto deixou de ser regional. Assim como o Estado que representa, Simone saiu da condição de filho engolido pelo poder para disputar, de igual para igual, o comando do Olimpo político brasileiro. Até porque, para ter domicílio eleitoral em São Paulo, basta sair de Três Lagoas — sua cidade natal, onde foi prefeita — atravessar a ponte sobre o “Paranazão” e bater à porta do primeiro cartório eleitoral de Andradina (SP). Mais perto do que Dourados de Rio Brilhante.
No fim das contas, qualquer que seja o desfecho, Mato Grosso do Sul já aparece em destaque no mapa eleitoral brasileiro. Ter, simultaneamente, uma possível candidata da direita e uma potencial vice da esquerda ao Planalto não é trivial. É sinal de maturidade política, produção de quadros e superação de um parto histórico traumático.
O velho Mato Grosso tentou engolir seu filho sulista. Ele sobreviveu. E assim como a história insiste em mostrar, quando o poder central entra em crise no cerrado, o caminho da sucessão pode ser por águas pantaneiras.
