Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.
Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.
Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.
Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.
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Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.
Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.
A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.
Atuação discreta
Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.
Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.
Bruno RosaO Globo — Rio de Janeiro
