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terça-feira, janeiro 27, 2026

As pedaladas do Marçal: “Isto é um absurdo!”

Entre pedaladas, transmissões ao vivo e bordões de microfone aberto, o prefeito de Dourados governa a cidade como um programa de rádio itinerante — direto da periferia para o centro do poder

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Antes que algum desses apressados profissionais do comentário raso — que leem apenas o título e já correm para berrar no amplificador da padaria do fuxico — associe as pedaladas de Marçal Filho àquelas que derrubaram Dilma Rousseff, convém avisar desde logo: não é disso que se trata. Aqui, pedalada não é crime fiscal. É método administrativo. É performance. É pirotecnia, mas equilibrada, sobre duas rodas.

O assunto de hoje é apenas mais um capítulo da administração-show do prefeito de Dourados. Na garupa da bike, claro, a tentativa de entender este personagem que, depois de Ari Artuzi, talvez seja o maior fenômeno eleitoral da terra de seu Marcelino, que agora ele deve rebatizar como a terra de todos os povos, de todas as tribos e, principalmente, de todas as transmissões ao vivo.

Desde que Marçal descobriu o caminho das pedras, observando atentamente o sucesso do padrinho radiofônico Jorge Antônio Salomão, no lendário programa A Bronca, Dourados passou a conviver com um enigma permanente. Afinal, a que veio Marçal? Alguns adversários, mais intrigados do que propriamente indignados, reagem com estranhamento ao modo como ele se impôs no cenário político local. E não são só adversários. Até alguns aliados de ocasião, desses que não suportam ficar ao relento sem o guarda-chuva do poder, fazem a mesma indagação — especialmente quando se veem diante do jeitão introspectivo do prefeito, longe do microfone, frequentemente confundido com arrogância, e de sua dificuldade quase artesanal de interlocução com a classe política tradicional.

Quem imaginou que, eleito prefeito, Marçal se encastelaria no gabinete, penduraria o microfone e delegaria a fala ao substituto imediato, Gilberto Pieretti, ao filho Vinícius ou à primeira-dama Patrícia, caiu do cavalo — e sem capacete. Todos os sábados e domingos lá está ele, firme, com seu inconfundível “alô você”. Sim, o prefeito de Dourados segue fazendo programa de rádio ao vivo, lendo comerciais, atendendo ouvintes e tratando as secretárias do lar como se ainda estivesse em campanha permanente. A diferença é que agora, aos sábados, ele transformou o estúdio em sala de reuniões do secretariado, tudo ao vivo, colocando seus auxiliares “cara a cara” com a população, como se a gestão pública fosse uma grande mesa-redonda radiofônica.

E, como se isso não bastasse, Marçal mantém outra rotina que nunca foi surpresa para quem o conhece desde os tempos de vereador ou deputado, especialmente os moradores do Parque Alvorada, onde reside, ou da Vila Matos, onde nasceu e passou a infância. A novidade é que o trajeto se expandiu. Agora ele percorre toda a periferia da cidade no “lombo” de uma bicicleta. Sem capacete político, mas com câmera e microfone ligados, sempre ao vivo. Vai distribuindo “alô você” por onde passa, parando quando se depara com um buraco, uma boca de lobo esguichando água ou uma calçada em frangalhos. Nem precisa pedir emprestado o bordão do aliado Eduardo Marcondes, dos tempos de Câmara Municipal: aponta o dedo e sentencia — “Isso é um absurdo!”. Em seguida, liga na hora para o secretário da área e cobra providências, tudo devidamente transmitido, para que ninguém diga depois que não viu, não ouviu ou não ficou sabendo.

Mas é aos domingos que essa rotina ganha contornos quase antropológicos. Invariavelmente, lá está o prefeito na cozinha da mãe, dona Aurora, beliscando nas panelas para filar bóia ao lado do pai, o bolicheiro e também ciclista Marçal Gonçalves. Depois do almoço, numa cadeira de fio na varanda, um dedinho de prosa, privilégio exclusivo da família, num cenário que contrasta deliberadamente com a estética das piscinas de borda infinita dos condomínios de luxo ou dos restaurantes premiados. No cardápio, depois da entrada (dois ovos cozidos) Marçal devora uma costela de panela, lambendo o osso até o fim, tudo acompanhado de arroz e feijão. Tudo muito real, muito simples, muito “transmitível” — ainda que nem sempre transmitido.

E é aí que está o ponto. Marçal é isso mesmo. Sem pôr nem tirar. Um político que nasceu do povo, viveu com o povo e governa falando diretamente ao povo, ainda que atropelando ritos, formalidades e, às vezes, a própria lógica administrativa. Se isso é virtude ou problema estrutural, a história dirá. Por ora, é método. É estilo. É espetáculo.

Se resolve? Nem sempre. Se aparece? Sempre. Se divide opiniões? Como poucos.

E assim, entre pedaladas, apontamentos e transmissões ao vivo, Dourados vai sendo governada como um grande programa de rádio itinerante. E, goste-se ou não, isso diz menos sobre Marçal do que sobre o tempo em que vivemos, quando governar passou a ser, antes de tudo, mostrar que se está governando. E, claro, sempre que algo der errado — o prefeito já avisou — será, inevitavelmente, um absurdo.

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