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terça-feira, janeiro 27, 2026

Enfim, a primeira senadora de Dourados

A imagem que ontem servia como certificado de intimidade com o poder hoje ajuda a explicar por que a prisão do ex-presidente pode ser o maior ativo eleitoral de sua candidata no Mato Grosso do Sul

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Eu cantei essa bola lá atrás, quando ainda parecia exagero, delírio oposicionista ou pura provocação de cronista insubordinado: o dia em que Jair Bolsonaro fosse parar na Papuda seria o mesmo dia em que Dourados começaria a flertar, pela primeira vez na história, com a ideia concreta de ter uma senadora. Não era profecia mística, era leitura política. Era só ligar os pontos. Hoje, com a transferência oficial do ex-presidente para o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, a realidade resolveu prestar homenagem tardia à crônica — esse gênero maltratado, mas que costuma envelhecer melhor do que muita análise sisuda.

Bolsonaro na Papuda não é apenas um fato jurídico. É um evento simbólico de proporções bíblicas, quase um salmo às avessas. O mito que passou quatro anos brandindo versículos, confundindo púlpito com palanque e a Constituição com o Antigo Testamento, agora experimenta a liturgia do cárcere, essa instituição republicana que ele sempre achou destinada aos outros. Conhecereis a verdade, repetia ele, e a verdade vos libertará. Ironia cruel: a verdade chegou antes da libertação — e veio escoltada.

E é aí que a política sul-mato-grossense, sempre atenta aos sinais do céu e às pesquisas de WhatsApp, entra em cena. Porque, convenhamos, Bolsonaro preso é ativo eleitoral. Preso, silenciado, distante do microfone, do cercadinho e das lives desastradas, o ex-presidente passa a render mais do que quando solto. Preso, ele vira mártir para uns, relíquia para outros e, sobretudo, cabo eleitoral involuntário. E Gianni Nogueira sabe disso. Ou deveria saber.

Já disse e repito: não há estratégia mais eficiente do que uma tenda montada em frente à Papuda. Um púlpito simples, leitura diária das Escrituras, orações pela libertação do mito, lágrimas estratégicas, silêncio disciplinado. Nada de corpo a corpo em feira, nada de estrada esburacada no interior, nada de debate. A campanha se faz ali, diante das grades, com transmissão ao vivo, filtro sépia e trilha gospel. O Brasil entende essa linguagem. Sempre entendeu.

A única cautela — e aqui entra a atualização do roteiro — é manter o marido, deputado Rodolfo Nogueira, o gordinho do Bolsonaro também autointitulado guardião de tornozeleira, a uma distância segura. Não por crueldade conjugal, mas por autopreservação eleitoral. O sujeito anda num surto permanente de indignações seletivas, como demonstrou ao jogar Havaianas no lixo em protesto contra uma propaganda. Demagogia infantil não soma, subtrai. O silêncio, neste caso, é mais patriótico.

Bolsonaro, antes de cair, ainda gravou vídeo. Disse que no Mato Grosso do Sul já tinha sua candidata ao Senado, que ela frequentava a intimidade da família, que até se parecia um pouco com Michelle. Em política, isso é declaração de paternidade. É pegar ou largar. E, goste-se ou não, não há concorrente que dispute esse capital simbólico. Nem Reinaldo, nem Capitão, nem ninguém. Contra um Bolsonaro preso, ninguém faz campanha melhor solto.

Portanto, não se trata de sarcasmo gratuito, embora ele exista e seja assumido. Trata-se de coerência. De memória. De jornalismo que não finge surpresa quando o óbvio acontece. Bolsonaro na Papuda não caiu do céu hoje. Foi anunciado, cantado, escrito. A crônica apenas chegou antes do camburão.

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