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terça-feira, janeiro 27, 2026

Deboche: PCC “engana” a Polícia Federal e o Gaeco

Falhas gritantes, gravatas a serviço do PCC e o silêncio institucional que transforma erros graves em método — um retrato incômodo do poder público diante do crime organizado em Mato Grosso do Sul

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Há algo profundamente errado quando duas matérias policiais, publicadas no mesmo dia, nos dois principais portais de Campo Grande, não se conversam — mas se acusam mutuamente pelo silêncio. Não é contradição: é cumplicidade institucionalizada pelo descuido, pelo corporativismo ou, no mínimo, pela soberba investigativa.

Comecemos pelo caso da chamada “Pablo Escobar de saia”. A alcunha é sensacionalista, mas o conteúdo é devastador. Uma mulher que viveu em Corumbá, circulou por Campo Grande, residiu até 2019 numa casa de alto padrão no Carandá Bosque, acumulou patrimônio estimado em mais de R$ 1 bilhão, espalhou dinheiro pelo Brasil e pelo exterior, fez parcerias eventuais com o PCC e, ainda assim, enganou a Polícia Federal cara a cara, passando-se pela própria mãe durante uma operação que tinha seu nome como alvo principal.

Repita-se, para que ninguém diga que foi distração: o principal alvo da operação Alba Vírus estava em casa, em bairro nobre, e não foi preso porque conseguiu ludibriar agentes federais. Isso não é detalhe. Isso não é rodapé. Isso não é “acontece nas melhores famílias”. Isso é uma barrigada perigosíssima, daquelas que custam não apenas uma prisão, mas anos de impunidade, bilhões ocultos e o fortalecimento do crime organizado.

E aí vem o ponto que incomoda: o Carandá Bosque não é uma viela anônima, não é rota de fuga improvisada, não é território invisível ao Estado. É símbolo. É endereço de poder, de influência, de vizinhança seletiva. Quando o crime organizado se instala ali, não é por acaso — é porque se sente seguro.

Agora avancemos para a segunda matéria, que não é menos indigesta. Um advogado, com OAB no bolso, atuando como “gravata” do PCC. Pombo-correio de salves criminosos, articulador jurídico da facção, transportador de cocaína escondida em tanque de combustível, condenado em flagrante com 22 quilos de pasta-base. Não estamos falando de desvio ético, mas de escárnio institucional.

Aqui, o deboche não é só do investigado. O deboche é do sistema. Porque enquanto a Polícia Federal tropeça no Carandá Bosque, o Ministério Público Estadual, via Gaeco, vai costurando uma denúncia robusta que revela algo ainda mais grave: o crime não quer mais apenas advogados — quer operadores jurídicos orgânicos, integrados, afinados na chamada “Sintonia dos Gravatas”.

E o que isso diz sobre nós? Diz que o crime organizado aprendeu a linguagem do Estado, domina seus ritos, explora suas vaidades e se aproveita de suas falhas. Diz que não basta viatura, fuzil e coletiva de imprensa. Diz que há zonas de conforto, áreas intocáveis, nomes que não podem errar — e quando erram, ninguém quer falar disso.

A mulher foragida que cuidava das finanças, os integrantes presos ou escondidos, o advogado condenado que ainda protagoniza nova denúncia… tudo isso aponta para uma verdade incômoda: o PCC, e seus satélites, não crescem apesar do Estado — crescem dialogando com ele, explorando brechas, vaidades e incompetências.

Não se trata aqui de demonizar instituições, mas de exigir autocrítica. Polícia Federal não é infalível. Ministério Público não é oráculo. OAB não é salvo-conduto moral. Quando o erro é varrido para debaixo do tapete, ele vira método. Quando o silêncio impera, a próxima operação já nasce manca.

Campo Grande não pode se dar ao luxo de fingir surpresa. Os fatos estão aí, escancarados, publicados, documentados. Falta apenas o mais difícil: assumir que houve falha, que há infiltração, e que o combate ao crime começa dentro de casa.

Porque, no fim das contas, o maior triunfo do crime organizado não é o bilhão escondido em salas ou o advogado de gravata bem posta. É a normalização do absurdo.

E isso, convenhamos, é muito mais perigoso que qualquer fuzil nas mãos de bicheiros e quadrilheiros.

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