No último sábado (10), um adolescente compareceu a uma festa de formatura de uma faculdade privada em Mossoró (RN) trajando um uniforme nazista. Em fotos do evento, o jovem aparece fazendo a clássica saudação nazista ao lado de adultos, que aparentemente não esboçam nenhuma reação. Nas redes sociais, por outro lado, a reação foi imediata.
Esse não é o primeiro caso —nos últimos anos, houve eventos semelhantes em Criciúma (SC), São Paulo e Recife, por exemplo—, mas acende um alerta que precisa ser levado em consideração. Para entender melhor a questão, é importante olhar para o quadro mais amplo, como acontecimentos recentes nos Estados Unidos.
Na última semana, o Departamento do Trabalho do governo Donald Trump publicou, em redes sociais como o X de Elon Musk, um vídeo com tropos do supremacismo branco e referências ao nacional-socialismo. Na postagem, ao fundo da figura de George Washington, aparecem imagens de homens brancos e altivos que lideram uma visão edificante da nação liderada pelo presidente.
A frase “Uma pátria. Um povo. Uma herança” é a principal mensagem do vídeo. A similaridade com o lema nazista “Um povo, um império, um líder” não é despropositada.
Outra postagem recente, na conta oficial da Casa Branca no X, ecoa as ameaças de anexação da Groenlândia pelos EUA e faz referência velada a lemas históricos de grupos neonazistas norte-americanos.

O episódio em Mossoró e as postagens do governo Trump não têm a mesma intensidade nem o mesmo impacto político, mas fazem parte de um mesmo fenômeno: demonstrações públicas comemorativas do fascismo, particularmente do nazismo.
Podemos adicionar a esse universo outros fatos recentes no Brasil, como a incorporação do lema integralista (“Deus, pátria e família”) ao campo da extrema direita do país e o episódio grotesco, em 2020, de encarnação do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, por Roberto Alvim, então secretário de Cultura do governo Bolsonaro.
Depois de 1945, a chamada era do fascismo chegou ao fim. O fascismo deixou de ser um fenômeno da política de massa ou um modelo ditatorial concreto. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, falar do fascismo e, especialmente, do nazismo passou a implicar o estabelecimento de um diálogo com o terreno problemático da memória desse período e, principalmente, com o Holocausto. Hoje, é impossível tratar do fascismo sem considerar os debates sobre genocídio, já que ambas as questões se tornaram ligadas umbilicalmente.
Por isso, a reivindicação do nazismo deixou de ser uma questão meramente de política de Estado, de nacionalidade ou de ideologia. Debates sobre questões éticas relacionadas ao nazismo e sua dimensão racista ganharam força.
Em outras palavras, o nazismo assumiu a condição de maldade, coerente com a sua própria história. Na conjuntura do pós-guerra, ser fascista ou nazista deixou de ser um fenômeno do terreno da política e da ideologia e passou a ser considerado a partir de um imperativo ético.
Isso é essencial para compreender por que, em determinados espaços, o nazismo aparece menos como um arcabouço ideológico definido e mais como epítome ou símbolo de um processo de radicalização, mais comum entre adolescentes e jovens. O nazismo expressa a maldade e simboliza a morte —é a partir desse aspecto que é incorporado em demonstrações como a ocorrida em Mossoró.

Essa percepção, aliás, é um subproduto da experiência traumática do nazismo. É uma derivação da dificuldade ou da negação de explicar o nazismo a partir das condições materiais e racionais da época, a despeito da interpretação de autores como Hannah Arendt e Theodor Adorno.
Ao projetar a experiência do nazismo para o campo do irracional e da maldade, ocorre uma certa patologização do fenômeno, em que o que importaria seriam os desvios de cada indivíduo, em contraposição às estruturas sociais que fomentaram as chaves imperialistas e genocidas que desaguaram no nazismo.
Ao ser mobilizada como símbolo da disrupção, do mal e da negação da vida em sociedade, a reivindicação atual do nazismo prescinde de uma coerência nítida com os pressupostos ideológicos que remontam às origens do nacional-socialismo. Por isso, nas demonstrações públicas dos últimos anos, o que importa é o uso do nazismo como síntese da maldade. O emprego de lemas e símbolos nazistas desconhece limites geracionais e étnico-raciais e pode ocorrer em diferentes espaços sociais e territoriais.
Muitas reações nas redes sociais ao evento de Mossoró mostraram um desconhecimento dos sentidos da reivindicação contemporânea do nazismo. Entre o espanto e a ironia, houve comentários como “supremacia parda”, “ariano do Rio Grande do Norte” e “os primeiros na fila do gás”, problemáticos em dois sentidos fundamentais.
Em primeiro lugar, como já citado, esse tipo de comemoração do nazismo não está necessariamente preocupado com uma coerência argumentativa e ideológica —esperar isso é ler a realidade a partir de uma lente distorcida—, mas é produto de um fenômeno mais profundo, que envolve a radicalização de jovens, a falta de regulação e de responsabilização das redes sociais e lacunas na educação em temas como fascismo e genocídio.
Dessa forma, o evento de Mossoró deve ser enquadrado na mesma esfera interpretativa dos ataques violentos a escolas, que também mobilizam símbolos da extrema direita na mesma dimensão psicologizante descrita anteriormente.

Em segundo lugar, é preciso lembrar que a própria ideia de coerência da ideologia nacional-socialista é uma falácia. Todas as bases do nazismo, como o darwinismo social, a eugenia e uma pretensa noção científica de raça, foram construídas a partir de distorções e falsificações ou refletiram leituras nitidamente racistas em voga nos séculos 19 e 20.
Não é possível existir qualquer coerência em ser “o ariano do Rio Grande do Norte” justamente porque não há coerência em ser ariano em qualquer lugar do mundo. Um ariano em Karlsruhe, na Alemanha, é tão falso quanto um ariano em Mossoró.
Comentários como esses, mesmo quando bem-intencionados, acabam por legitimar os argumentos nazistas ou mesmo negar as implicações do racismo na sociedade brasileira.
Voltando às publicações do governo Trump, estamos diante de um uso mais articulado, direcionado e pontual do arcabouço nazista. O sentido do nazismo como maldade está menos presente nesse caso: o que se pretende é o aceno a uma ordem autoritária, o elogio ao líder, a exaltação de uma nacionalidade e a perseguição a minorias e oponentes políticos.
É um tipo diferente de disseminação pública de lemas e símbolos nazistas, com objetivos também distintos, incorporando o endosso a grupos radicais como supremacistas brancos e organizações neonazistas dos EUA.
Não raramente, isso reflete estratégias de agitação, diversionismo e propaganda, já que a opinião pública tende a prestar atenção em mensagens nazistas difundidas por instituições governamentais. Quando crises políticas e demandas urgentes se impõem, traços fascistas tendem a ressurgir no estilo de comunicação de líderes como Trump, como ferramenta para mobilizar paixões e impulsionar a reatividade dos seus apoiadores em um período marcado pelo domínio das emoções na política e pela mediação do debate público pelas redes sociais.
No entanto, seria um equívoco reduzir a mobilização do arcabouço nazifascista por Trump e líderes similares a um mero elemento de manipulação da opinião pública.
As postagens do governo Trump manifestam um projeto político ambicioso, associado tanto aos preceitos ideológicos fundantes do nazismo quanto a aspectos históricos da extrema direita dos EUA. Nesse caso, por exemplo, os princípios racistas do supremacismo branco são empregados para delimitar quem deve ser incluído na nacionalidade norte-americana —e quem não tem o direito de participar dela, como imigrantes, muçulmanos e outras minorias étnico-raciais.
Sem dúvida, se trata de um quadro diversificado, mas é preciso considerar essa diversidade como parte de um mesmo universo. A presença de lemas fascistas e símbolos nazistas vem se naturalizando no nosso cotidiano —por meio da ação de grupos neonazistas, de jovens radicalizados em ambientes digitais e de instituições governamentais de grandes potências globais. Antes restritas à mais que hipotética “lata de lixo da história”, as demonstrações fascistas ocuparam nosso espaço público.
Para entender essa diversidade, é importante compreender que existem várias modalidades de comemoração do passado nazista no cenário político atual. Se reduzirmos o universo das demonstrações públicas fascistas à expressão da maldade, preponderante no caso de Mossoró, deixaremos de enxergar os fundamentos ideológicos e a estrutura de comunicação de um projeto político de escala global.
Se, por outro lado, considerarmos essa diversidade apenas produto da articulação de líderes de extrema direita em todo o mundo e das suas estratégias de mobilização das emoções da população, perderemos de vista, por exemplo, a dimensão da educação e da memória dos eventos traumáticos relacionados ao fascismo.
Dessa forma, a necessidade de uma interpretação aprofundada desse universo plural, que põe lado a lado grupos neonazistas, jovens radicalizados e líderes globais, não é um mero preciosismo. A compreensão da multiplicidade dos usos políticos atuais do passado fascista é fundamental para implicar a sociedade no debate sobre o tema e construir políticas públicas capazes de enfrentar a naturalização da circulação de lemas e símbolos nazistas no nosso cotidiano.
Odilon Caldeira Neto – Professor de história da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e pesquisador do CNPq. Autor de “Neo-Fascism and the Far Right in Brazil”
