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terça-feira, janeiro 27, 2026

Terra comprada, mas povo abandonado: a indiferença do Estado na Ñande Ru Marangatu

Após 25 anos de conflito e uma demarcação celebrada como histórica, comunidade indígena em Antônio João segue sem água, moradia, saúde e presença efetiva do poder público em Mato Grosso do Sul

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Enquanto o discurso oficial celebra demarcações, acordos históricos e páginas viradas, a realidade indígena em Mato Grosso do Sul insiste em lembrar que papel assinado não mata sede, não constrói casa e não entrega remédio. A visita do ex-governador e deputado estadual Zeca do PT à Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João, escancara mais uma vez esse abismo entre Brasília e o chão batido das aldeias.

A área, é verdade, carrega um simbolismo poderoso. Foram quase 25 anos de conflito, tensão permanente, insegurança jurídica e violência no campo, até que o governo do presidente Lula finalmente adquirisse a terra, encerrando formalmente uma das disputas fundiárias mais emblemáticas do Estado. No papel, vitória histórica. Na prática, porém, a comunidade segue abandonada à própria sorte.

Zeca não foi à Ñande Ru Marangatu para discurso protocolar nem foto de rede social. Foi chamado pelas lideranças. E o que encontrou ali está longe de qualquer narrativa triunfalista: falta água, falta moradia, falta atendimento de saúde, falta presença do Estado. Falta quase tudo. Sobram dificuldades.

A denúncia é direta e não poupa ninguém. Segundo o deputado, não há qualquer assistência efetiva do Ministério dos Povos Indígenas, da Funai ou da Sesai. Nenhuma política pública estruturada chegou à comunidade após a chamada “solução” do conflito. O território foi comprado, mas o Estado não entrou.

Mais grave ainda é o contraste apontado por Zeca: enquanto comunidades como a Ñande Ru Marangatu vivem sem o mínimo, dirigentes do MPI circulam pelo Estado em agendas políticas, fazendo promessas e discursos, mas sem pisar onde a urgência é real. A crítica ao secretário-executivo do ministério, residente em Mato Grosso do Sul, é dura e direta — e revela um incômodo que cresce entre lideranças indígenas: a sensação de que a pauta virou palco político, não prioridade social.

O cenário econômico da comunidade reforça o abandono. A única fonte de renda vem de uma lavoura de soja, explorada por meio de arrendamento. O retorno financeiro é pequeno, insuficiente para garantir autonomia, investir em melhorias ou sequer assegurar dignidade mínima às famílias. É sobrevivência, não desenvolvimento.

O caso da Ñande Ru Marangatu não é isolado. Ele se soma a uma lista crescente de tensões fundiárias, invasões, retomadas, conflitos e omissões que atravessam Mato Grosso do Sul de ponta a ponta. O Estado segue sendo um dos epicentros da questão indígena no Brasil — não por acaso, mas por um histórico de decisões tardias, políticas fragmentadas e responsabilidades empurradas de um ente para outro.

A fala de Zeca, ao anunciar que levou registros e denúncias diretamente à Casa Civil e ao Ministério do Desenvolvimento Social, recoloca a discussão no lugar certo: demarcar terra é apenas o começo. Sem água, saúde, habitação e assistência contínua, a demarcação vira um gesto vazio — simbólico, mas insuficiente.

A verdade incômoda é que o poder público brasileiro ainda trata os povos originários como problema a ser administrado, e não como cidadãos a serem atendidos com políticas permanentes. Resolve-se o conflito fundiário para aliviar a pressão política, mas posterga-se indefinidamente a presença do Estado.

A Ñande Ru Marangatu hoje é o retrato cruel dessa contradição: terra conquistada, dignidade adiada.

E enquanto Brasília se ocupa de discursos e agendas, Mato Grosso do Sul segue convivendo com o risco permanente de novos conflitos, novas invasões e novas tragédias anunciadas. Porque, quando o Estado chega tarde — ou chega só no papel —, a história costuma cobrar com juros altos.

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