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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Da Papuda ao Muro das Lamentações: o paradoxo de Brasília e o ocaso do bolsonarismo

Entre a fé cenográfica e o colapso político, o bolsonarismo reza fora do país enquanto enfrenta, em Brasília, as consequências do 8 de Janeiro — e o fantasma do L-4.

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O senador Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai, Jair, para um cada vez mais improvável retorno ao comando do país, escolheu Israel para “iniciar” a campanha presidencial do bolsonarismo. Diante do Muro das Lamentações, tentou transformar fé em símbolo político e inaugurar, fora do país, um projeto que em Brasília já entrou em colapso. Enquanto o filho encena a largada num cenário sagrado, Jair Bolsonaro vive seu próprio calvário atrás das grades da Papuda, a poucos quilômetros dos palácios que um dia acreditou continuar controlando por meio de um golpe de estado.

Esse contraste não é casual, nem apenas irônico. Ele é histórico. E começa na própria concepção arquitetônica de Brasília, com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa projetando a utopia da transparência: palácios de vidro, eixos abertos, gramados livres, a promessa de um poder visível e acessível. Comunista convicto, Niemeyer acreditava que a forma arquitetônica ajudaria a moldar uma democracia mais próxima do povo. O que não previu — talvez ninguém previsse — foi que essa mesma monumentalidade produziria o efeito inverso: o isolamento do poder, protegido não por muros, mas por distância, escala e indiferença.

Durante décadas, Brasília funcionou assim: afastando o conflito, amortecendo o descontentamento, blindando seus ocupantes do país real. Até que, em 8 de janeiro de 2023, o projeto entrou em curto-circuito. O fosso simbólico foi atravessado. O vidro — metáfora máxima da transparência sonhada por Niemeyer — virou estilhaço. Não foi apenas vandalismo: foi a explosão de uma relação mal resolvida entre povo e poder, alimentada por anos de retórica incendiária, negação da política e desprezo pelas instituições.

O bolsonarismo foi consequência direta desse colapso. Apostou no confronto permanente, flertou com a ruptura e acreditou que o isolamento monumental de Brasília funcionaria também como blindagem jurídica e esquecimento histórico. Não funcionou. O 8 de Janeiro converteu o vidro quebrado em prova material, o discurso em processo formal e o delírio em inquérito. E a cadeia — ironia máxima — passou a figurar no mapa das altas patentes militares, punição tardia e pedagógica para generais que decidiram inverter a hierarquia, batendo continência política para um capitão insubordinado.

É dessa ruptura — e não de Jerusalém — que nasce o cenário atual. A Papuda não é um acidente no caminho; é consequência direta. O mármore dos palácios, enfim, encontrou a cela. E o projeto político que prometia “acabar com tudo isso aí” terminou enquadrado exatamente por aquilo que tentou desacreditar: a democracia institucional.

E é aqui que o medo deixa de ser jurídico e passa a ser existencial para o bolsonarismo. Porque, mais do que a prisão do “mito”, mais do que sua humilhação, mais até do que a inelegibilidade, há um cenário que a extrema direita sequer ousa pronunciar em voz alta: o L-4.

O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva não representa apenas a volta de um adversário. Representa o triunfo histórico completo daquele que foi chamado de “presidiário” em rede nacional, em debates televisivos, como se a palavra fosse condenação eterna. O mundo girou. Lula voltou pelo voto, governa novamente — e, do alto do Planalto, assiste ao adversário definhar politicamente enquanto tenta manter o próprio rebanho convencido de que a Terra é plana.

Para o bolsonarismo, cadeia ainda permite discurso. Inelegibilidade ainda alimenta vitimização. Mas o L-4, para o rebanho, é o pior dos mundos: é ver o país seguir em frente sem Bolsonaro, sob a liderança renovada de quem ele tentou destruir moral, política e simbolicamente. É assistir, à margem da história — ou da cela —, a consolidação definitiva da própria derrota.

Esse é o verdadeiro pavor. Não a Papuda. Mas o tempo. E um quarto mandato que empurra o bolsonarismo para fora da história, reduzido a bilhete aflito nas frestas do Muro das Lamentações, sem resposta divina nem retorno político.

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