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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Trump transforma pauta de Davos em crise EUA x Europa e amplia a ofensiva pela Groenlândia

Escalada de ameaças, tarifas e mensagens provocativas transforma encontro econômico em palco diplomático de emergência e expõe tensão entre EUA e aliados

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega nesta quarta-feira ao Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, num momento de tensão aguda com a Europa, após uma escalada de declarações, ameaças comerciais e gestos políticos que colocaram a Groenlândia no centro de uma crise diplomática entre Washington e seus aliados. A ofensiva americana acabou por redefinir o tom do encontro anual da elite política e econômica global, que passou a ser dominado por discussões sobre segurança, soberania e o futuro da relação transatlântica.

Antes mesmo de chegar aos Alpes suíços, Trump já havia monopolizado o debate internacional. Nas redes sociais, o presidente americano atacou aliados europeus, criticou decisões do Reino Unido e compartilhou mensagens privadas de líderes como o presidente francês, Emmanuel Macron, e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Em uma das postagens, Trump divulgou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece hasteando a bandeira americana na Groenlândia, acompanhada da legenda “Território dos EUA. Fundado em 2026”.

Os confrontos transformaram Trump no tema incontornável de um encontro que se apresenta como “Comprometido em melhorar o estado do mundo”. Cerca de 3 mil participantes de 130 países desembarcaram na cidade suíça, incluindo 65 chefes de Estado e 850 executivos de grandes empresas, segundo os organizadores do fórum. Diante da ofensiva, autoridades europeias passaram a tratar Davos como um espaço de contenção de danos. Líderes da União Europeia (UE) e de países da Otan começaram a usar discursos e encontros paralelos para responder às ameaças, reafirmar apoio à Dinamarca e discutir possíveis contramedidas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a antiga forma de relacionamento transatlântico chegou ao fim e que a Europa precisará se adaptar a um cenário mais instável. Já Macron disse que o continente não aceitará intimidações e que a resposta europeia deve se basear no Estado de Direito. O premier do Canadá, Mark Carney, alertou para uma “ruptura” na ordem mundial e para o fim de uma “ficção agradável” segundo a qual as grandes potências seriam contidas por regras. Nenhum deles citou Trump diretamente.

— A nostalgia não vai trazer de volta a antiga ordem — disse Von der Leyen, argumentando contra “ganhar tempo e esperar que as coisas sejam revertidas em breve”. — Se essa mudança for permanente, então a Europa também precisa mudar permanentemente.

O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, afirmou em Davos que a Europa não pode ser uma “escrava miserável” de Trump, enquanto outros líderes incentivaram o enfrentamento. À margem do Fórum Mundial, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, classificou a resposta europeia às ameaças tarifárias de Trump como “patética” e “constrangedora” e pediu que os líderes do continente se unam para enfrentar os Estados Unidos. O democrata, apontado como principal opositor do líder republicano, disse ser hora de “manter-se erguido e firme”.

Discurso de Trump

Em sua primeira participação no Fórum Econômico, há oito anos, Trump foi recebido com cautela por um público formado por bilionários, executivos e chefes de Estado, que aguardavam sinais de como um líder autodeclarado nacionalista se posicionaria diante de um dos principais palcos da globalização. Na ocasião, Trump afirmou que o lema “America First” não significava “America alone”, destacou cortes de impostos e a agenda de desregulamentação e acabou conquistando parte da plateia, que passou a vê-lo como um disruptor pró-negócios.

Agora, ao se preparar para discursar em Davos pela terceira vez, o presidente volta a despertar apreensão. Seu governo divulgou a delegação americana “como a maior e mais graduada da história dos Estados Unidos” em Davos, com cinco integrantes de gabinete, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário de Comércio, Howard Lutnick, além do genro do presidente, Jared Kushner, e de seu enviado para o Oriente Médio, Steve Witkoff. Em discurso na terça-feira, Trump sugeriu que poderia haver um acordo com aliados:

— Acho que vamos acertar alguma coisa em que a Otan ficará muito feliz e nós também ficaremos muito felizes — disse, sem dar detalhes.

Segundo funcionários da Casa Branca, o presidente deverá enfatizar, em Davos, que os Estados Unidos e a Europa precisam deixar para trás a “estagnação econômica” e as políticas que a causaram, e que a acessibilidade da moradia continuará sendo um foco central — mensagem voltada ao público doméstico pressionado pelo custo de vida. Mas Trump ainda deve se vangloriar de projetar o poder dos EUA no exterior, incluindo a recente captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e seus esforços para pôr fim a guerras estrangeiras.

Também é esperado que ele amplie o escopo de seu Conselho da Paz, nova organização apresentada como responsável por supervisionar a reconstrução de Gaza. A cerimônia de assinatura da carta está marcada para quinta-feira, em Davos, e colocará líderes convidados diante de uma escolha que se tornou emblemática durante a semana do fórum: alinhar-se a Trump ou correr o risco de ser alvo dele. A França já disse que não participará do conselho, e outros governos europeus temem que a iniciativa enfraqueça o sistema da ONU.

— Vou impor uma tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes [da França], e ele (Macron) vai aderir — disse Trump, acrescentando que as opiniões do líder francês são “irrelevantes”, já que ele estaria “fora do cargo em poucos meses”. — Mas não precisa aderir.

Retórica sobre Groenlândia

Na terça, o americano elevou o tom e afirmou que dirigentes do continente europeu “não oferecerão muita resistência” à sua intenção de incorporar o território semiautônomo ligado à Dinamarca. Segundo ele, o tema deverá ser tratado com “diversas partes” à margem do Fórum Econômico. Trump também repetiu que a Groenlândia é “estratégica” para a segurança nacional e global dos EUA.

As declarações, por sua vez, ocorrem após o anúncio de tarifas de 10% sobre exportações da Dinamarca e outros sete países europeus (Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia) que se alinharam contra a iniciativa americana — medida que provocou queda nos mercados e reacendeu temores de uma guerra comercial transatlântica. A União Europeia (UE) avalia impor tarifas de retaliação sobre produtos americanos e mesmo recorrer a suas sanções econômicas mais sérias em resposta às recentes medidas de Trump.

Em reunião nesta semana sobre a crise, os principais diplomatas do bloco europeu discutiram reviver um plano para tarifas no valor de € 93 bilhões (R$ 580,5 bilhões) sobre produtos americanos, que havia sido suspenso até 6 de fevereiro após Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, alcançar um acordo comercial com Trump em agosto do ano passado. Os maiores partidos do Parlamento Europeu anunciaram que adiariam a votação planejada sobre medidas para reduzir as tarifas da UE sobre produtos americanos.

— Eles precisam muito desse acordo conosco. Lutaram muito para conseguir. Então duvido [que tomarão uma decisão contrária]. Mas vamos ver o que acontece. Temos muitas reuniões agendadas sobre a Groenlândia. Estou saindo hoje à noite para Davos, como vocês sabem, e temos muitas reuniões marcadas. Acho que as coisas vão se resolver muito bem. Estou ansioso — disse o presidente americano.

Em Davos na terça-feira, Von der Leyen afirmou que a resposta da União Europeia às ameaças do republicano será “firme, unida e proporcional”, ao mesmo tempo em que sinalizou disposição para ampliar investimentos europeus na Groenlândia e cooperar com os EUA em temas de segurança no Ártico. Já o presidente francês foi além e afirmou que a escolha atual é entre “aceitar passivamente a lei do mais forte”, levando a uma “nova abordagem colonial”, ou defender um “multilateralismo eficaz” que sirva aos interesses comuns.

Macron disse ainda que a soberania nacional e a independência são elementos centrais dessa opção e afirmou que o recente envio de militares franceses à Groenlândia fez parte desse esforço de defesa — não para “ameaçar ninguém, mas para apoiar um aliado e outro país europeu”. Segundo ele, no âmbito de sua presidência do G7, a França também pretende revitalizar o grupo como um fórum de “diálogo franco”, com o objetivo de evitar guerras comerciais, escaladas protecionistas e outras tentativas de desestabilizar a ordem global.

— Nosso objetivo no G7 é demonstrar que as principais potências do mundo ainda são capazes de chegar a um diagnóstico comum da economia global — disse.

O Globo, com New York Times e Agências Internacionais

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