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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Marcha para Brasília: o evangelho do monjaro, a Papuda como altar e a senadora que não precisa amassar barro

Entre peregrinações políticas, emagrecimento milagroso e fé transmitida ao vivo, o bolsonarismo ensaia sua nova liturgia eleitoral — com olhos no Senado e orações voltadas para a Papuda

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A política brasileira encontrou uma nova forma de peregrinação. Não é romaria, não é procissão — é marcha. A do deputado mineiro Nikolas Ferreira para Brasília, com seus seguidores em deslocamento contínuo, transforma o asfalto em promessa e a caminhada em sacramento. Quem chega, chega ungido. Quem não vai, acompanha pela live, mas pode ter que dar explicações lá na frente, como ele mesmo ameaça.

No meio do caminho, surge uma dúvida prática e quase teológica: se o deputado douradense Rodolfo Nogueira aderir à marcha e engrossar o pelotão no ponto certo, talvez possa até abrir mão do monjaro. Afinal, caminhada longa emagrece mais do que qualquer caneta de endocrinologista. O “Gordinho do Bolsonaro”, “baixinho”, para o deputado Zé Teixeira, pode também ficar “magrinho” senão pelo milagre farmacológico “denunciado” pelo prefeito Marçal Filho, pelos treinamentos para mais esse esforço físico. É o cardio ideológico em ação.

Os bolsonaristas ainda não montaram o púlpito sugerido pelo contrapontoMS em frente à Papuda, mas a liturgia já está ensaiada e não é difícil adivinhar o roteiro: leitura diária do versículo preferido de Jair Bolsonaro — “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará — oração forte, câmera ligada e Bíblia em punho. Não apontada para o céu, mas para indicar o cubículo onde o mito está enjaulado. A fé vira ponte simbólica entre a cela e o plenário.

Nesse ambiente de fé performática e política por transmissão, surge a profecia — taxativa, do deputado Rodolfo Nogueira numa deferência ao insubordinado do jornalismo mato-grossulense, naquela já lendária cerimônia da Sanesul que segue rendendo textos: ela será senadora.

Ela quem? Gianni Nogueira — a esposa, a vice-prefeita de Marçal Filho, a ungida de Bolsonaro.

Aqui a campanha inova de vez. Nada de amassar barro nas periferias, nada de corpo a corpo suado, nada de santinho na feira. Basta explorar o Velho Testamento, com suas leis draconianas, em frente a Papuda. O resto é algoritmo, oração e enquadramento. A fé substitui o panfleto; o versículo, o jingle; a live, a caminhada. É a campanha por procuração espiritual.

A inspiração é clara. À semelhança de Michelle Bolsonaro, Gianni assume o papel “da cozinha” — definição carinhosa (e estratégica) do próprio Bolsonaro para designar o núcleo duro da confiança. E todo mundo sabe: na política, cozinha é onde se decide o cardápio. Do fogão ao plenário, um pulo.

Eleita, a missão de Gianni não é discursar — é comandar. No Senado, a meta é liderar o bloco da anistia ampla, geral e irrestrita. Não se trata de pauta legislativa, mas de absolvição em massa. Não é projeto de país; é projeto de resgate. A marcha e o púlpito cumprem uma função: pressionam, ocupam, performam. Cada passo vale um voto; cada oração vira requerimento simbólico.

Enquanto isso, Brasília observa. A Bíblia vira instrumento de orientação política, o monjaro perde espaço para o tênis de caminhada, e a Papuda se consolida como referência geográfica da fé militante — ainda que o púlpito, por ora, exista apenas no ensaio.

No fim, a marcha ensina a nova regra do jogo: não basta chegar a Brasília — é preciso chegar ungido. Quem caminha emagrece. Quem reza cresce. Quem aponta a Bíblia pode voltar a governar. E quem manda na cozinha escolhe o prato do Senado.

A dúvida, que ninguém ousa formular nos microfones, mas que ronda cada passo dessa marcha: vão quebrar tudo de novo? Vão achar que dá para pôr abaixo a Praça dos Três Poderes outra vez — ou aprenderam que há limites que não se testam? Porque a história recente deixou claro que brincar de fé política, marcha messiânica e desafio institucional tem consequência. Com Xandão, não se brinca. O resto, o país já viu. Tá ok?

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