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terça-feira, janeiro 27, 2026

O sonho em que Marçal dá uma dura em quem acha que calçada é estacionamento

Entre gestos pedagógicos, megafones e calçadas ocupadas, um sonho urbano revela que o improviso não é acidente, mas herança de um Estado que nunca aprendeu a andar em linha reta

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Sonhei que o prefeito Marçal Filho havia rompido com a rotina diária. Nada de bicicleta, nada de sambinha em boca de dragão entupida, nada de muro pintado, roçadeira em punho ou muda de ipê nos canteiros centrais. Era verão, chovia como chove por aqui, e talvez para evitar a buraqueira que sempre ressurge nessa época do ano, ele caminhava — a pé — pela chamada área nobre da cidade.

Percorria o divisor de águas entre a sua Vila Matos/BNH 1, plano e previsível, e a região dos hospitais, clínicas, boutiques de luxo e das torres que não param de subir na golden city. Um território onde o asfalto é mais gentil, mas a cidade insiste em tropeçar nos próprios privilégios.

Trazia um megafone na mão. E dele saía o bordão indefectível: “Alô, você.” O chamado vinha em tom de alerta. O alvo eram os proprietários de veículos de passeio e utilitários — especialmente aquelas caminhonetonas cujo nome, reduzido a três letras, lembra um crustáceo bastante apreciado na culinária exótica. “Isso aqui é um absurdo”, repetia, ecoando um velho bordão que a política local conhece bem.

Ele tentava caminhar pelas calçadas, mas não conseguia. Estavam sempre ocupadas. Então explicava, didático, quase pedagógico: calçadas são para pedestres. Não para carros. Apontava o piso tátil, insistia que aquilo não era enfeite urbano, mas direito básico. O megafone amplificava a fala; a cidade, não.

Ao passar em frente ao colégio onde cursou o ensino básico, o Reis Veloso, parou. Olhou. Custou a acreditar. Pior que as caminhonetes: um estacionamento improvisado de reboques de uma pequena empresa. Indignado, chamou a Agetran, acionou os Serviços Urbanos, reclamou que não respeitavam nem a própria escola onde aprendera a ler e escrever. Desrespeito maior, olhando para a história: rua em cuja calçada está o “entulho” leva o nome do primeiro prefeito da cidade, João Vicente Ferreira.

Pouco antes, Marçal já havia registrado e também se indignado com cena semelhante na Avenida Indaiá. Não apenas a calçada tomada, mas metade da via ocupada por uma empresa de reforma de carretas e máquinas agrícolas de grande porte. A cidade funcionava como se o espaço público fosse extensão privada — e o direito coletivo, detalhe decorativo.

Sonhos que nesses casos se tornam pesadelos e alteram ainda mais minha pressão arterial, já perigosamente alta. O poder alertava. A cidade desviava. As torres cresciam. Os carros se multiplicavam. As calçadas desapareciam. Tudo seguia como se estivesse no lugar certo, mesmo claramente fora dele.

Foi então que o sonho começou a ficar mais confuso. Porque ficou evidente que não se tratava de um prefeito, nem de um megafone, nem de caminhonetes sobre calçadas. Tratava-se de algo anterior, mais profundo, mais estrutural. Um Estado que nasceu prometendo ordem e entregou improviso. Que se dividiu acreditando na modernidade e herdou velhos vícios. Que trocou planejamento por gesto simbólico, que não aguentou a pressão do processo imobiliário e chama isso de desenvolvimento.

Relembrei ali os mesmos sonhos e pesadelos que, anos atrás, deram nome a um livro que é testemunho vivo da história da criação do Mato Grosso do Sul. A paisagem muda, os personagens se alternam, mas o enredo persiste. O erro não foi episódico. Foi fundador.

Acordei com a certeza incômoda de que o sonho não era pessoal. Era institucional. Não falava de um governo, mas de um modelo, de um método. Não denunciava personagens, cidadãos que não fazem jus a essa condição. A cidade apenas reproduz, em escala diária, a herança de um Estado que nunca aprendeu a caminhar em linha reta. Não é porque o estado nasceu torto que a cidade não aprende a desviar.

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