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terça-feira, janeiro 27, 2026

Resgatada do Vazio por um Anjo

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Rua estreita, sinuosa, com uma camada de terra batida que se estende por toda a sua extensão. Chão irregular, com buracos e pedras soltas que fazem os carros — poucos carros —, carroças e bicicletas ziguezaguearem para evitar os obstáculos. As casas que margeiam a rua são simples, com fachadas caiadas de cores desbotadas pelo sol e telhados de telhas de barro que parecem se inclinar para o lado.
À medida que se chega perto do fim da rua, o chão começa a se abrir em um grande buracão, como se a terra tivesse sido engolida por uma boca gigante. Um buraco profundo e largo acompanha a rua como se fosse um fosso. Mas, em vez de ser um obstáculo intransponível, em cada esquina há uma escadinha de terra que desce para o fundo do buraco e outra que sobe para o outro lado. É uma passagem estreita e escorregadia, mas é a única maneira de atravessar.
A escadinha é esculpida, feita de degraus de terra compactada, com raízes de árvores e pedras que servem de apoio. É preciso ter cuidado para não escorregar e cair no fundo do buraco, que parece ser ainda mais profundo do que a altura de uma pessoa. Mas, com cuidado, é possível atravessar e continuar a jornada pela rua, que parece se estender para além do buracão, como se nada tivesse acontecido.

Naquele dia, fiquei ali mirando o buraco, como que encantada por sua imensidão! Nem me dei conta do solavanco que me fez voar…
Caí, e o mundo pareceu desaparecer. O chão sumiu sob meus pés e me senti voando no ar, sem controle. O buraco parecia me engolir infinitamente; eu estava caindo, caindo, caindo… voando, voando, mergulhando na imensidão!
O ar rugia em meus ouvidos, e eu sentia o estômago subir à garganta. Tentei gritar, mas a voz ficou presa. A escuridão era total; não conseguia ver nada.
Meu corpo girava no ar, e eu não sabia mais onde estava, se em cima ou embaixo. Sentia o vento bater em meu rosto e meus cabelos ao vento.
De repente, um clarão de luz apareceu ao longe, e eu vi o fundo do buraco se aproximando. Meu coração pulou; preparei-me para o impacto…
E então, tudo ficou preto.

Abri os olhos, e a primeira coisa que vi foi um círculo de luz lá em cima. O sol brilhava intensamente, e pude ver as partículas de poeira dançando no ar. Estava deitada no fundo de um buraco fundo, e o sol parecia estar a uma distância infinita.
Tentei me sentar, mas um grito de dor escapou de meus lábios. Meu corpo inteiro parecia ter sido esmagado, e não conseguia me mover. Estava coberta de poeira e sujeira; meu rosto estava quente, e uma dor indescritível tomava conta do meu braço esquerdo!
Olhei para cima; o sol parecia estar me chamando. Queria alcançá-lo, mas era impossível. O buraco era muito fundo, e eu estava presa.
Comecei a me lembrar da queda. Havia caído no buraco, e não sabia como havia sobrevivido, mas sabia que precisava encontrar uma maneira de sair.
Tentei gritar, mas a voz estava rouca e fraca. Não sabia se alguém poderia me ouvir. Estava sozinha, e o silêncio era opressivo.
Fechei os olhos, e o som do meu coração batendo era o único som que conseguia ouvir. Estava presa e não sabia se alguém viria me resgatar.

Deitada no fundo do buraco, sentindo a dor e a desesperança, ouvi, de repente, um grito:
“MARIA! MARIA, VOCÊ ESTÁ AÍ?”
Era a voz da minha avó. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Tentei gritar, mas a voz estava presa na garganta.
“VÓ! EU ESTOU AQUI! EU ESTOU AQUI EMBAIXO!”, consegui gritar, finalmente.
Ouvi os passos da minha avó se aproximando da beira do buraco. Ela se inclinou para baixo, e seu rosto enrugado apareceu no círculo de luz.
“MEU DEUS, MARIA! O QUE VOCÊ FEZ? COMO VOCÊ CAIU AÍ?”
Tentei explicar, mas as palavras não saíam. Minha avó começou a chorar; pude ver as lágrimas escorrendo por seu rosto.
“Não se preocupe, minha neta. Eu vou tirar você daí. Espere um pouco.”
Ouvi o som de terra e pedras se movendo, e logo em seguida minha avó começou a descer as escadas de terra que ali haviam. Ela desceu lentamente, segurando-se nas paredes do buraco.
Quando chegou ao fundo, abraçou-me forte.
“Você está bem, minha neta? Você está ferida?”
Sacudi a cabeça, e ela me ajudou a subir as escadas. Eu estava fraca e dolorida; o braço, que parecia quebrado, doía imensamente, mas estava viva. E, com a ajuda da minha avó, consegui sair do buraco.
Quando finalmente cheguei à superfície, sentei-me no chão, respirando fundo. Minha avó abraçou-me novamente, e pude sentir seu calor e seu amor; pude ver, pelo esgar de seu rosto, seus olhos se enchendo de lágrimas que, novamente, escorriam…
“Eu nunca mais vou te deixar sozinha”, disse ela, com a voz trêmula de emoção.

E até hoje, anos após minha avó virar estrela, sinto sua presença constante iluminando meus caminhos, como um anjo protetor que me faz sorrir e me sentir segura e amada. E juntas nós caminhamos pela vida, como naquele dia em que ela me resgatou do vazio, de volta para casa, deixando o buraco para trás.

Gicelma Chacarosqui – Pós-doutorado (em andamento pela Universidade de Salamanca/ES); Pós-doutorado pelo ECCO/UFMT; Doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP; Mestrado em Estudos Literários e Graduação em Letras Português/Literatura Brasileira pela UFMS. É professora Titular da UFGD. Membro da Academia Douradense de Letras e da UBE-MS. Autora de diversos livros e periódicos.

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