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quinta-feira, janeiro 29, 2026

Janeiro vai ficando para trás, e a política se aproxima da hora em que a porca torce o rabo

Entre o barulho do brejo e o voo da observação, 2026 chega ao ponto em que governar deixa de ser herança e vira afirmação

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“Declara-se, para os devidos fins simbólicos e literários, que a curicaca passa a exercer a função de ave oficial de inspiração e observação política madura, substituindo a saracura nas análises de ciclo, método e poder.”

A saracura continua lá, no seu brejo original, fazendo o escarcéu de sempre, como se o mundo ainda coubesse numa madrugada à beira do Laranja Doce. Mas eu já não moro mais naquele cafofo de sonhos e pesadelos. Troquei o escuro das margens do córrego que insiste em desafiar o tempo, onde tomava banho quando guri, pelo claro demais da iluminação de LED do Marçal, já no centro, espremido entre torres que brotam do chão numa competição silenciosa para ver qual delas se parece primeiro com uma Torre de Babel — muito concreto, pouca escuta e quase nada de humildade.

Com janeiro já no retrovisor, não é só a cidade que muda de ritmo. O governador Eduardo Riedel entra, efetivamente, no ano em que governar deixa de ser continuidade azambujista para tentar imprimir, finalmente, um governo com identidade própria — no compasso incerto desses novos tempos de transversalidade.

Aqui, a natureza não grita. Ela avisa. E quem avisa, agora, é a curicaca. Ela não faz escarcéu como a saracura. Prefere um sobrevoo baixo, quase protocolar, como quem diz: acorda, toma o primeiro café e presta atenção. É o sinal de largada. Porque a cavalgada de 2026 já começou. E em ano de Copa do Mundo, todo mundo sabe, o tempo corre mais rápido que ponta em contra-ataque.

Quando nos dermos conta, o calendário terá feito o serviço sujo. Estaremos oficialmente no L-4 eleitoral, aquele momento em que as narrativas endurecem, os discursos se repetem e os arrependimentos chegam tarde. Nesse cenário, é razoável supor que Jair Bolsonaro já esteja com o rabinho entre as pernas, cumprindo uma prisão domiciliar meio constrangido, meio resignado. Não por clemência divina, mas porque Alexandre de Moraes, convenhamos, não é desumano; apenas cumpre a lei com uma paciência que o bolsonarismo jamais teve com a democracia.

Enquanto isso, no plano estadual, Eduardo Riedel deve finalmente estar com as rédeas bem ajustadas nas mãos, para, enfim, exercitar a plenitude de um governo só dele, depois de quitada a conta política com Reinaldo Azambuja, esteja o coronel maracajuense onde estiver, no mapa da política ou apenas contando bois e pés de soja em suas fazendas. Política também é contabilidade: ninguém sobe ao poder sem deixar recibos, e poucos governam sem antes pagar promissórias.

Resta, como sempre, a grande incógnita: o povo. Esse danado imprevisível que, vez ou outra, resolve contrariar pesquisas, marqueteiros e caciques. Há quem alimente a esperança — modesta, quase envergonhada — de que novas caras apareçam no plenário do Guaicurus, a cobiçada Assembleia Legislativa; e que o eleitor, num raro surto de lucidez coletiva, se encarregue de diminuir a bancada do famigerado Centrão, no Congresso Nacional. Não acabar — sejamos realistas — mas ao menos emagrecer essa engrenagem que vive de se alimentar do Estado enquanto promete governabilidade.

É nesse ponto que a curicaca faz sentido. Ela não se empolga. Não promete redenção. Não se deixa seduzir por torcida organizada nem por manchete berrada. Ela passa, observa e segue, após um pouso rápido no domo do prédio da esquina, como quem sabe que o espetáculo é barulhento, mas o movimento real acontece nos bastidores, nos detalhes, nos métodos.

Talvez seja isso que o tempo e a idade ensinem. A saracura ainda grita, e continuará gritando. Mas é o piado discreto da curicaca que marca a hora de começar o texto, a análise e, sobretudo, a desconfiança saudável diante de toda cavalgada que se anuncia redentora demais.

Porque eleição não se vence no grito, com ameaças. Nem se entende no aplauso fácil. E quem escreve para leitores inteligentes sabe: quando o barulho aumenta, é hora de observar o voo.

A curicaca passou hoje sem alarde, o café esfriou e o calendário não pediu licença: empurrou tudo para o L-4. A partir dali, o barulho aumenta, o Centrão aperta e o tempo deixa de ser aliado. Para Eduardo Riedel, é o momento em que governar deixa de ser continuidade e passa a ser afirmação, quando já não basta administrar e é preciso mostrar, sem intermediários, a que veio. É quando a política para de conversar bonito e chega, sem aviso, na sempre tão temida hora em que a porca torce o rabo.

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