Na porta da casa de meu pai há uma cadeira. Cadeira, não. Há um trono. É onde ele se senta e divaga, como um filósofo em improvável descanso.
Enxerga a rua vazia, enquanto o pensamento povoado de lembranças corre solto. Aos 88, ele espera cartas que já não vem mais. Ainda assim, mantém o hábito diário de conferir a caixa postal, colada à grade que separa a casa da rua.
Invariavelmente vazia, a caixa se ressente da ausência dos carteiros e agora se ocupa de uns poucos panfletos com ofertas, quase sempre desnecessárias.
É manhã cedo quando ele se acomoda em frente à casa. Sozinho, mas não solitário. Conversa com pássaros como se entendesse a linguagem deles. Em algazarra, quebram a barreira daquele limite que transforma noite em dia. Amanhescência, diz o poeta.
Meu pai guarda ainda um caderno de endereços, lembrando de um tempo não tão distante, quando escrevia perto de quatrocentas cartas para correspondentes fiéis, que não deixavam nenhuma sem resposta. E na ausência sentida pelas cartas que já não lhe chegam ele encontra meio de driblar o vazio com habilidades de florista.
A arquitetura vegetal dos arranjos florais que ele produz carrega, ao mesmo tempo, simplicidade e beleza. Ele diz que faz para alegrar as manhãs de minha mãe. Mais do que uma dívida amorosa, uma confissão de parceria. É como se a oferta dos arranjos florais guardasse uma licença indispensável para operar a construção colorida a partir das flores do jardim que ela cultiva e cuida como quem tece um bordado.
Depois de prontos, ganham outro tipo de vida. Breve, como breve é a beleza fugaz dos buquês. Definitiva, porque quem os enxerga não os esquece, jamais.
A fumaça da xícara de café quente se dissipa, deixando no rastro de sua passagem um perfume atemporal espalhado pela varanda. A cadeira-trono, os pássaros, a rua vazia, as cartas que não vem mais, as manhãs eternizadas de sol, as flores de meu pai.
Inorbel Maranhão Viégas – Maranhão Viegas nasceu na ilha de São Luís, Maranhão. Ganhou o mundo antes de completar a primeira infância, no rastro da família e do trabalho do seu pai, que lhe impunha mudanças geográficas de tempos em tempos. Percorreu o Brasil e o mundo. Passou mais de duas décadas em MS exercendo o jornalismo e a poesia. Aportou em Brasília. E é de lá que segue içando o mastro de seu barco imaginário no rumo de todo mar. Tem dois livros publicados, “Cápsulas de Oxigênio” e “A Beleza das Cicatrizes”, este último, já traduzido para o espanhol.
