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quarta-feira, fevereiro 11, 2026

URAGANO, o retorno! Marçal pode ser a próxima vítima

Entre asfalto novo e velhas engrenagens de poder, a história da Uragano reaparece como alerta sobre os ciclos da política sul-mato-grossense

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Valfrido Silva

Ari Valdeci Artuzi e Marçal Filho. Dois personagens, dois tempos, dois estilos. Um, analfabeto, caminhoneiro, depois vereador, deputado assistencialista e prefeito “fazedor” de obras. O outro, radialista, vereador, deputado estadual e federal, advogado, empresário bem-sucedido, agora prefeito em seu primeiro mandato — ainda uma incógnita no quesito “fazeção”. Diferentes na forma, semelhantes na força eleitoral. Fenômenos. E fenômenos, na política, não passam despercebidos. São respeitados, temidos — e invariavelmente vigiados.

Isso incomoda. E incomoda muito o establishment.

Não é novidade. Tal qual ocorreu com Artuzi — inclusive no timing — começam a surgir movimentos de bastidores, arapongas à espreita, tentativas de produzir provas, construir flagrantes, gerar fatos que possam comprometer uma administração que se apresenta como ruptura. Quebrar paradigmas, em política, costuma ter custo.

Assim como Artuzi, Marçal também parece fazer sua parte no terreno movediço da arapongagem. Prestigia personagens — alguns até caricatos — como Artuzi fez com Passaia. Senão ordenando, ao menos permitindo, por omissão ou excesso de confiança, que certas práticas sobrevivam nas sombras do poder. E foi justamente assim que começou a Operação Uragano.

Artuzi teve a “genial” ideia de mandar seu secretário de governo gravar clandestinamente vereadores. Sentia-se acuado pelos famigerados mensalinhos. Ao final, de certa forma, comprovou-se que a pressão existia. O erro não foi a desconfiança. Foi o método. Porque Passaia também acabou flagrado pela Polícia Federal, mudou de lado e passou a gravar o próprio chefe. O vídeo da entrega de dinheiro — que, segundo a versão apresentada à época, seria resultado da venda de um terreno — transformou-se no símbolo máximo da operação. O resto da história o leitor conhece. E o Estado também.

O retorno — ops! — dessa história chamada Uragano não é aleatório. O contrapontoMS, à época ainda apenas o blog de Valfrido Silva, com a colaboração do ex-deputado George Takimoto, foi quem entregou ao delegado Bráulio Galoni as provas dos desvios nas também famigeradas operações tapa-buracos. Isso, depois do primeiro post, daquele que acendeu o pavio de um escândalo que ganharia repercussão nacional e levaria Artuzi & Cia. à prisão — menos, claro, Eleandro Passaia, beneficiado pela delação premiada.

Mas o que mais inquieta não está apenas no passado.

Se eu não estivesse martelando novamente esse assunto, a foto que hoje ilustra este texto talvez já estivesse circulando nos bastidores como ponto de partida para selar o destino político do prefeito Marçal Filho. Porque foi exatamente assim que começou lá atrás. Num domingo ensolarado do verão de 2009. Chinelos Havaianas pisando o asfalto quente da Marcelino Pires, a principal avenida de Dourados. O cheiro do piche novo. A cidade olhando. E a frase de Ari Artuzi que ecoou como desafio: “Vou recapear e asfaltar Dourados inteira. Acabou esse negócio de tapa-buracos”.

Não era apenas asfalto. Era ruptura de fluxo. Era mexer em ralos históricos por onde sempre escorreu dinheiro público. Na sequência, veio a pressão do “animal do pelo curto”, como Artuzi era chamado pelos poderosos, sobre o então governador André Puccinelli para viabilizar a sonhada Perimetral Norte. Para muitos, ali estava assinada a sentença política do prefeito que, mesmo cassado ao final do segundo ano de mandato foi o que mais trouxe habitação popular para Dourados.

Obras estruturantes alteram interesses. E interesses contrariados não dormem.

Hoje, tal qual Artuzi naquele tempo, Marçal, em parceria com Eduardo Riedel, investe pesado em asfalto e recapeamento — o chamado “asfalto de gente branca”, expressão infeliz e preconceituosa usada pelo próprio Artuzi à época e que lhe rendeu processo criminal. Some-se a isso um estilo de governar que incomoda setores tradicionais e uma atuação concentrada nos pontos nevrálgicos da administração. O discurso é claro: Dourados é a cidade que tem — não a cidade que já teve — aeroporto, teatro, asfalto de qualidade, creches e equipamentos públicos funcionando.

Em Mato Grosso do Sul, a política raramente é linear. Ela se move em ciclos. Ascensão, tensão, ruptura. Fenômenos eleitorais crescem, desafiam arranjos, mexem em estruturas consolidadas. E, quando isso acontece, o sistema reage — às vezes com votos, às vezes com narrativas, às vezes com investigações.

A pergunta que fica, inevitável, não é se há tensão. Tensão sempre há. A pergunta é outra: a história está apenas sendo lembrada ou está começando a se repetir?

No próximo texto, começo a dar nomes aos bois. E a mostrar, didaticamente, como — na minha leitura — essa engrenagem começa a girar quando o asfalto deixa de ser apenas obra e passa a ser ameaça.

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