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quinta-feira, fevereiro 12, 2026

URAGANO, o retorno! Isa Marcondes e o novo pomo da discórdia

A história ensina que furacões políticos nunca sopram ao acaso — sempre deixam herdeiros no lugar dos destroços

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Valfrido Silva

No penúltimo texto dedicado a revisitar os fantasmas da Operação Uragano e suas possíveis reverberações no presente, talvez seja necessário recorrer a algo ainda mais antigo do que a própria política douradense para explicar o que está acontecendo. Só mesmo o didatismo da mitologia grega e a história do famoso pomo da discórdia lançado por Éris à mesa de um casamento para ajudar a compreender como um gesto aparentemente isolado pode desencadear uma guerra inteira.

Na Grécia antiga, a maçã dourada lançada por Éris caiu justamente sobre a mesa na celebração do casamento de Peleu e Tétis, dali surgindo a Guerra de Troia. Não foi o exército que começou o conflito. Foi o símbolo. O gesto calculado. A provocação colocada no centro da festa. Em Dourados, o novo pomo também não surgiu em campo neutro. Foi lançado no ambiente de uma aliança vitoriosa e seus efeitos começam a se desenhar no horizonte político.

O nome do pomo: Isa Marcondes.

Autointitulada “Cavala”, eleita com o slogan que misturava marketing agressivo e ironia popular — “Já que Dourados está uma zona, quero me eleger para resolver esses problemas, porque de zona eu entendo” — Isa deixou de ser personagem folclórica para se tornar peça central de tensão. Eleita na mesma aliança que sustentou a vitória de Marçal Filho, reafirma pertencimento à base enquanto intensifica críticas, sobretudo na saúde. Bate no peito reafirmando lealdade, enquanto amplia as críticas, como se o prefeito ainda fosse o pobre do Alan Guedes, que virou saco de pancadas. Não é. E essa troca de alvo não é detalhe. Política não é feita apenas de palavras; é feita de direção.

O que inquieta não é o discurso. É a engrenagem. Se Ari Artuzi virou fenômeno político despejando doentes na porta de hospitais com uma Belina caindo aos pedaços, Isa profissionalizou a performance. Sua Van Executiva foi adaptada para servir como gabinete itinerante, palco de lives, ponto de encontro com parlamentares, centro móvel de articulação estacionado estrategicamente diante de hospitais e unidades de saúde. E política, como se sabe, não é feita apenas de palavras; é feita de estrutura. E estrutura custa caro.

Aí entra a pergunta que não quer calar: quem banca toda essa algaravia?

Mandatos não se aparelham sozinhos. Crises não se inflamam espontaneamente. Tensionamentos contínuos raramente são obra de impulso isolado. Quando se observa o tabuleiro mais amplo — e o potencial de voos maiores no horizonte estadual — é legítimo perguntar se estamos diante apenas de inconformismo político ou de algo estrategicamente alimentado. A história de Dourados ensina a não subestimar sinais.

A Operação Uragano, em 2010, não surgiu no vazio. Ari Artuzi tinha um guru eleitoral assumido, o então deputado Ari Rigo, além de apoio significativo de setores empresariais inconformados com o status quo da época. Também tinha adversários poderosos. O governador André Puccinelli não escondia a antipatia, chegando a apelidá-lo de “animal de pelo curto”, e o vice-governador Murilo Zauith acabaria sendo o grande beneficiado político da implosão institucional que se seguiu. Isto, mesmo sabendo da gravidade do que estaria por vir, não titubeando em sacrificar seus pupilos, tidos como seus herdeiros políticos, entre os mais ilustres o então presidente da Câmara Sidlei Alves (hoje braço direito da senadora Tereza Cristina); Marcelo Barros, José Carlos Cimatti e Aurélio Bonato, atualmente assessor do deputado Neno Razuk, todos potenciais candidatos a deputado estadual, entre outros.

A política se reorganizou. E é aqui que a memória deixa de ser nostalgia. Operações, escândalos, implosões institucionais raramente são eventos neutros. Sempre produzem vencedores. Sempre rearranjam forças. Sempre eliminam obstáculos. A pergunta que importa nunca é apenas “quem errou?”, mas “quem ganha?” com um eventual um novo furacão? Quem herda o espólio político se uma liderança for enfraquecida? Quem ocupa o espaço se um projeto for interrompido? Quem se beneficia do desgaste acumulado até que a corda arrebente?

Esse é o ponto central. Não se trata de moralismo, mas de poder. Não se trata apenas de corrupção episódica, mas de banditismo estrutural — aquele em que a máquina pública vira campo de disputa, onde crises são ferramentas e não acidentes.

Se há gravações clandestinas, se há estímulo calculado à radicalização do discurso, se há conivência estratégica com o ambiente inflamado, o tempo dirá. Mas ninguém que conhece a política sul-mato-grossense acredita mais em tempestades espontâneas.

A Uragano deixou um DNA. Não apenas de escândalo, mas de reorganização. Quando o pomo é lançado à mesa, não é a maçã que importa. É quem está esperando a guerra começar. E se há um novo furacão em formação, ele ainda sopra como vento quente. Mas já altera a pressão atmosférica. E em Dourados, quando o vento muda, não é apenas o telhado que corre risco. Quem viver verá.

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