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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Judith, entre fronteiras e lutas

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O sol generoso atravessa a fachada de vidro e penetra no interior do mercado de produtos brasileiros e portugueses, trazendo um ar de verão a este final de inverno ainda com temperaturas baixas, mas que já se despede de dias chuvosos e cinzentos. Essa esperança de primavera e verão alegra Judith. A loja, localizada na periferia sul da capital, na Grande Paris, é vizinha de casas típicas do início do século XX, que se misturam com prédios novos — residenciais e comerciais.

No caixa, ela registra três peças de picanha, quatro de maminha e quatro outras de linguiça. O cliente é conhecido: as carnes serão para o churrasco de domingo na igreja, depois do culto da manhã. Ela oferece um café ao pastor, que não tem tempo de degustá-lo.

O sol lhe traz à memória o tempo em que trabalhava no sítio dos pais, no interior do Paraná, no município de Campina da Lagoa. Gostava da chuva que caía nos dias de verão, regando a terra, a lavoura e a esperança de uma boa colheita. A mãe ajudava o pai na labuta com o cultivo de milho, feijão… e na horta.

Todos trabalhavam. No que podiam. Cada um tinha uma responsabilidade, seu papel na família. Brincávamos de trabalhar — o que hoje assusta muitas pessoas.

Os pais voltavam do trabalho cansados. Eram cinco filhos, com pouca diferença de idade entre um e outro. Ela, a mais velha, tem como primeira lembrança o dia em que sua mãe, precisando ajudar o pai em alguma tarefa, lhe colocou o bebê — seu irmão — no colo, pedindo que não se mexesse. Voltaria logo, apenas o tempo de realizar o serviço.

Quantos anos tinha? Talvez três. Sentada com o bebê no chão vermelho em frente à casa, sentiu o tempo se alongar… e a mãe não voltava. Em um dado momento, começou a chorar. Quis se levantar, mas não pôde — o peso do irmão a impedia.

O casal franco-português chegou à procura do bacalhau. Também frequentadores da loja, tiveram tempo: ela, para tomar um café; ele, para uma cerveja portuguesa. Pensando nas próximas férias de agosto, na ensolarada região da Côte d’Azur, ela mostrou a Judith, no seu telefone, o lugar onde têm o hábito de passar três semanas de descanso e onde fariam o mesmo no próximo verão. Trabalham duro o ano todo, mas férias são férias!

Na roça, não havia férias. O trabalho era constante: roçando, limpando o terreno, colhendo… Quem regulava o ritmo era a claridade do dia, as chuvas, as necessidades das colheitas.

Quando chegou o tempo da escola, ela teve que esperar até o ano seguinte, para que o irmão alcançasse a idade escolar. O pai não queria deixar a menina atravessar sozinha os cinco quilômetros até a escola rural, montada no lombo do cavalo. Mas ela queria ler e escrever o quanto antes:

Pai, quero tanto ir para a escola, aprender a ler e a escrever.

O pai prometeu ensiná-la. E o fez.

Já estava acostumada a migrar quando chegou a Londres, há mais de vinte anos, para “fazer a vida”. Depois dos anos de labuta no sítio, foi para o vilarejo cursar o ginásio — como se chamava, na época, o Ensino Fundamental II.

Após o AVC da mãe, que a deixou imobilizada numa cadeira de rodas por dois anos, o pai teve que cuidar de tudo. Ele nos servia o café da manhã, ia para a roça e voltava para preparar o almoço. Dava-nos o almoço e, à minha mãe, servia as colheres na boca. Depois, voltava ao trabalho na roça. O médico a mãe não viu – por causa da distância e da falta de recursos para pagar.

No vilarejo, onde foi estudar as novas séries, junto com o irmão, passavam a semana toda lá e, na sexta-feira à noite, voltavam para o sítio de bicicleta, retornando no domingo à noite. Estudava à noite e trabalhava durante o dia. Primeiro, vendia roupas com uma comissão de 10%. Depois, passou a vender por conta própria. O pai não quis que ela fosse babá — tinha medo da responsabilidade que era colocar uma criança aos cuidados de outra.

O desejo de estudar e fazer faculdade a levou para a capital, Curitiba. Alojada por uma tia “adotiva”, viu seu sonho de cursar a universidade ir por água abaixo: não conseguiu pagar os custos. Foi trabalhar numa padaria, depois de seis meses de desemprego. Tinha dois furúnculos nos braços, que escondia com blusa de mangas, num verão tão quente que fez a patroa suspeitar que estivesse grávida.

Mais tarde, criou uma empresa para prestar serviços à companhia de telecomunicações do estado. Um dia, a empresa foi vendida — sem qualquer aviso aos prestadores de serviço. Voltou para seu vilarejo com o rapaz que se tornara seu marido.

A loja de produtos brasileiros e portugueses foi instalada há dois anos, fruto de uma parceria com um amigo de origem portuguesa que vive em Londres — cidade para onde ela foi sozinha há mais de 20 anos. Foi uma das mudanças mais difíceis que enfrentou. Viajou a noite inteira, sentada na poltrona do avião que atravessou o Atlântico. Sozinha. O marido ficou. Era uma estratégia: caso não desse certo ou fosse necessário enviar dinheiro. Na época, era mais fácil entrar no país. Hoje, como em toda a Europa, a situação para imigrar está mais difícil.

Quando eu cheguei em Londres, foi a realização de um sonho. Tudo era novo e lindo. Os problemas vieram depois. O amigo foi buscá-la no aeroporto. Veio então o grande desafio: aprender o inglês.  Apesar disso, minha disposição e vontade de aprender foram mais fortes, e mesmo nas dificuldades, eu me sentia preparada para buscar conhecimento e novas oportunidades.

Sair do país, depois de ter acumulado muitos prejuízos com a empresa para a qual prestava serviços na área de telecomunicações, foi a possibilidade de refazer o caixa e realizar o sonho de “fazer a vida”, como tantos outros candidatos à imigração. Havia também o desejo de ver de perto tantos lugares da Europa — sobretudo os Alpes, que tantas vezes admirara e sonhara ao ler livros de história.

Aproveitou a oportunidade com a volta do filho da amiga que vivia em Londres e voou.

Fora a dificuldade de aprender a língua, o choque grande foi o de achar que todo brasileiro imigrante em Londres poderia ser amigo e solidário. Foi roubada, teve que aprender a ver a realidade em frente. Quando estava encaminhada, o marido chegou e o trabalho continuou.

O Sol continua banhando a loja. Se não víssemos os passantes na calçada bem agasalhados para se proteger do frio, seria possível dizer que o verão chegou. Judith me propõe um café que aceito com prazer.

– Os clientes são na maioria brasileiros?

– Há muitos brasileiros e portugueses, mas também muitos trabalhadores das redondezas, que passam para comprar uma bebida, um biscoito… Até mesmo turistas. Lembro-me de um grupo de jovens – moças – falando russo que entrou na loja. Elas ficaram interessadas nos corotes de cachaça com sabores diferentes. Cada uma escolheu um sabor e começaram a beber como quem toma refrigerante, trocando os corotes entre si para experimentar os diferentes sabores. “Não é muito forte!”, diziam.

Na França há dois anos, ela toca o comércio sozinha, já que o sócio lhe deu carta branca — e os negócios vão de vento em popa. A loja foi indicada pela prefeitura de Cachan para um concurso de estabelecimentos de todo o departamento — uma quantidade expressiva — e conquistou o sexto lugar na categoria de comércio de qualidade.

Em Londres, acumulou experiências: foi chefe de cozinha, após realizar algumas formações. Trabalhava bastante, mas sempre teve tempos de folga. Agora, conta com a ajuda de amigos que colaboram com ela e permitem que a loja funcione todos os dias da semana, durante o ano inteiro. O que lhe possibilita tirar dias de férias. Gosta de conhecer novos lugares na Europa, mas não abre mão das visitas ao Brasil, sobretudo em agosto, para rever a família e comemorar seu aniversário com o pai — que nasceu no mesmo dia. Os pais, agora com idade avançada e enfrentando problemas de saúde, mudaram-se para a cidade.

Sua ligação com o Brasil é forte. Voltou à sua terra para dar à luz a filha – há mais de 15 anos – e pensa em construir um patrimônio no lugar que a viu nascer, para os dias de velhice. Por enquanto, a vida e o trabalho seguem na França, com a intenção de realizar muitos outros belos projetos.

  • Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
    Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
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