Se tivesse alguém no pódio de quem transformou fevereiro em mês de trabalho duro, certamente não era turista da folia. Enquanto milhares embalavam samba e espuma nas ladeiras corumbaenses, alguns douradenses, inclusive, o prefeito Marçal Filho, resolveram fazer diferente: ele foi à Campo Grande bater à porta do consultório do senador e urologista Nelsinho Trad como se fosse candidato a recepcionista particular, tudo para arrancar recursos para Dourados. A fala está estava numa gravação no Instagram, que muitos viram antes de evaporar, com Marçal Filho dizendo em seu já conhecido tom irônico que “enquanto muita gente está pulando Carnaval”, ele está em campo para “arrancar o máximo que pudesse” do senador. A resposta de Nelsinho, em tom igualmente de brincadeira, foi certeira: “O Marçal quase raspou o tacho das minhas emendas.”
Só que o enredo ganhou alegoria própria quando veio a confirmação que muda qualquer narrativa: só em um único dia, o Pix foi de R$ 17 milhões para Dourados. Não é metáfora carnavalesca. É transferência direta. É crédito compensado. É cifra que sai do campo da retórica e entra no extrato bancário.
E por falar em tacho, vamos lembrar de números, porque aqui ninguém fica na teoria quando já tem registro oficial na praça pública.
Segundo o próprio senador e registros de liberações feitas nos últimos anos, Dourados recebeu pelo menos R$ 20,8 milhões da União em investimentos federais, sendo cerca de R$ 9,3 milhões provenientes de emendas individuais de Nelsinho Trad, além de recursos destravados que estavam represados no Orçamento e valores articulados em conjunto com a bancada federal.
No cenário nacional, o senador aparece entre os que mais movimentaram emendas Pix, acumulando R$ 75,6 milhões em transferências diretas entre 2020 e 2024, justamente no período em que essa modalidade explodiu no país, saltando de R$ 621 milhões para quase R$ 7,7 bilhões em execução anual. Em outro momento recente, em menos de 48 horas, Mato Grosso do Sul recebeu R$ 28,3 milhões em emendas liberadas com articulação direta do senador. E ainda há o pacote de 72 emendas apresentadas ao Orçamento 2025, com foco estratégico em saúde, educação, infraestrutura e proteção ambiental — áreas que dialogam diretamente com as demandas de municípios como Dourados.
Ou seja: quando a conversa no consultório parecia só uma cena bem-humorada numa terça-feira de Carnaval, o pano de fundo era um histórico consistente de execução orçamentária. Não se trata de episódio isolado, mas de uma sequência de aportes que colocam Nelsinho entre os parlamentares que mais têm destinado recursos à segunda maior cidade do Estado.
Agora, misture isso com a política local. Marçal Filho assumiu um município pressionado por demandas acumuladas, infraestrutura exigindo manutenção, saúde sempre no limite e população cobrando resultado. O calendário não dá trégua. A máquina pública não entra em recesso. E gestor que quer entregar precisa correr atrás de quem tem caneta e articulação em Brasília.
O fato de a agenda ter ocorrido em pleno Carnaval virou combustível para crítica nas redes. Mas a resposta veio no ritmo de bateria afinada: dezessete milhões em um dia. Dinheiro que pode significar pavimentação, custeio hospitalar, equipamentos, obras estruturantes. Emenda Pix tem essa característica pragmática, cai rápido e permite execução mais célere. Pode-se discutir o modelo, pode-se questionar o sistema de emendas parlamentares, mas quando o recurso entra, ele entra com impacto real.
No fim, a discussão deixa de ser sobre fantasia e vira sobre financiamento. Quantos municípios recusariam R$ 17 milhões porque era terça-feira de Carnaval? Quantos prefeitos prefeririam o trio elétrico ao reforço milionário no caixa?
O que fica não é apenas a piada do “raspar o tacho”. É o dado concreto. É o histórico de milhões já destinados. É o Pix confirmado. É o contraste entre o confete e o cofre.
Se isso é bloco carnavalesco, é daqueles patrocinados e com camarote cheio. Se é carro alegórico, vem iluminado com cheque gigante na frente. Se é bateria, é daquelas que fazem o chão tremer na avenida. Porque o samba acaba nesta quarta-feira de cinzas.
Mas o dinheiro compensado continua na conta. E, gostem ou não, no fim das contas o extrato sempre fala mais alto que a marchinha.
