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domingo, fevereiro 22, 2026

Hereditariedade eleitoral

Da multa simbólica à dinastia eleitoral, a permanência no poder revela como a República brasileira ainda flerta com suas velhas capitanias hereditárias

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Valfrido Silva

Sexta-feira falávamos do mal exemplo de Londres. Não da capital inglesa, pela prisão, naquele dia, do irmão do Rei Charles III, mas do nosso Londres — longevo, estratégico, símbolo de permanência na política sul-mato-grossense. A multa ambiental era o pretexto, mas o tema real era outro: o tempo demais no poder e a sensação de que certas figuras deixam de ser representantes para se tornarem parte da estrutura. A discussão não termina em Mato Grosso do Sul. Ela começa aqui e se espalha pelo mapa do Brasil.

A República brasileira tem uma peculiaridade fascinante: aboliu os títulos de nobreza, mas preservou as dinastias. Trocaram-se as coroas por urnas eletrônicas, mas os sobrenomes continuam atravessando gerações como se carregassem brasões invisíveis. Não se trata de retórica exagerada. Trata-se de fatos históricos.

O Brasil convive hoje com dois ex-presidentes da República presos: Fernando Collor de Mello e Jair Bolsonaro. O mesmo país que é governado por Luiz Inácio Lula da Silva, que passou cerca de 500 dias preso entre um mandato e outro. Sua sucessora imediata, Dilma Rousseff, sofreu impeachment. No topo da pirâmide, a instabilidade é dramática, pública, televisionada, mas curiosamente essa intensidade raramente se reproduz na mesma medida nos andares intermediários do poder.

Enquanto presidentes enfrentam o peso máximo da engrenagem institucional, a política regional segue outra lógica: mais silenciosa, mais estável, mais duradoura. É nesse ambiente que prospera o fenômeno da hereditariedade eleitoral, tudo dentro da lei, tudo legitimado pelo voto, mas cada vez mais parecido com uma capitania hereditária.

O exemplo mais ruidoso dos últimos anos atende pelo nome de Bolsonaro. Jair saiu da Câmara para a Presidência e viu os filhos ocuparem espaços estratégicos: vereador, deputado federal, senador. E o projeto familiar nunca escondeu a intenção de ampliar o núcleo no tabuleiro — esposa, filho mais novo, sempre cogitados. A política, nesse modelo, deixa de ser apenas projeto público e passa a ter contornos domésticos. Bolsonaro não inaugurou o método. Apenas o tornou explícito.

Antes dele, o Maranhão foi território clássico do clã Sarney. José Sarney governou o estado, presidiu o Senado, depois o Brasil, influenciou Brasília por décadas. Filha governadora, filho governador, deputado, ministro, aliados históricos, estrutura consolidada. Mesmo longe do centro formal do poder, sua influência jamais foi exatamente aposentada. É o tipo de presença que atravessa o tempo como se o tempo lhe devesse reverência, com seus tentáculos em estados como a Bahia, onde imperou por muito tempo seu aliado e ministro Antônio Carlos Magalhães.

Em Mato Grosso do Sul também houve tentativa de continuidade doméstica. Londres, como todo político experiente, certamente já sonhou com a aposentadoria tranquila, vendo o sobrenome dar conta do recado enquanto ele observava de camarote. Mas a dinastia não deslanchou como nas velhas capitanias hereditárias. O filho, Guto, foi até que tentou, mas não passou de um único mandato de vereador na Câmara Municipal de Campo Grande. A filha, Graziella, cumpriu missão estratégica e temporária, segurando a cadeira do pai nos quatro anos em que ele se permitiu sair da Assembleia para tentar ser vice-governador. Já Ilda Salgado marcou época na política da paróquia de Fátima do Sul, num tempo em que campanha era artesanal, feita no corpo a corpo, quando o dinheiro para pagar cabos eleitorais saia de onde menos se esperava, isso antes da era do pix e das transferências instantâneas. No fim das contas, coube ao velho Londres segurar a peteca esse tempo todo. A cadeira continuou sendo dele, não por uma dinastia consolidada, mas por persistência histórica.

Nisso tudo a defesa clássica é simples e irrefutável do ponto de vista formal: “foi eleito pelo voto popular”. E é verdade. A urna legitima. O eleitor confirma. Só que estruturas consolidadas, décadas de presença institucional, redes de influência e capital político acumulado criam vantagens que nenhum estreante possui.

É aí que o debate deixa de ser jurídico e passa a ser cultural. Democracia pressupõe alternância. Pressupõe circulação. Quando a circulação diminui, cresce a acomodação. E acomodação é terreno fértil para a desgraceira total, não necessariamente a do crime comprovado, mas a da naturalização do poder como patrimônio.

O Brasil, aliás, vive uma ironia peculiar: no país onde ex-presidentes são presos, sobrenomes continuam governando como se o tempo não passasse. A instabilidade parece atingir o topo com violência, enquanto a base se mantém surpreendentemente estável. E talvez seja exatamente essa estabilidade excessiva que explique a sensação difusa de que certas figuras se tornam quase inimputáveis. Não por blindagem formal. Mas por permanência prolongada.

Este assunto veio à tona por conta de uma multa e de um símbolo. Hoje falamos de cultura política. Porque o problema nunca foi apenas Londres. É o modelo que permite que muitos “Londres” atravessem décadas como se a cadeira tivesse dono simbólico. Ex-governadores, de Pedro Pedrossian a Reinaldo Azambuja, passando por André Puccinelli, também flertaram com a ideia de continuidade familiar, tentando projetar filhos como herdeiros naturais do capital político acumulado. Nem sempre deu certo. E quando a sucessão doméstica não prospera, a alternativa costuma ser buscar alguém de extrema confiança — alguém do círculo mais próximo, capaz de dar previsibilidade ao projeto. Foi assim que Eduardo Riedel emergiu no cenário estadual, vindo do agronegócio e da vizinhança política de Maracaju, terra de “Rei”naldo Azambuja. Mas, a julgar pelos movimentos do atual governo, Riedel parece disposto a provar que não nasceu para ser extensão de ninguém. Se foi escolhido pela confiança, governa como quem pretende exercer o mandato por conta própria.


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