Cada vez mais cobiçada pelo governo Donald Trump, a Groenlândia tem uma história geológica longa e diversificada, que vai das origens da crosta terrestre à Era dos Dinossauros, incluindo diversos momentos em que a região tinha clima tropical. A diversidade de formações rochosas ali já rendeu fósseis importantes e tem potencial considerável para a mineração, apesar de alguns desafios logísticos.
“Do ponto de vista geológico, a beleza da Groenlândia é que todas as rochas estão muito bem expostas, por causa da vegetação escassa. Para um geólogo, é como ir para o céu”, resume Per Kalvig, pesquisador do Serviço Geológico da Dinamarca e da Groenlândia. “Conseguimos enxergar em 3D o que aconteceu ali, em escalas pequenas e grandes. Não é pouca coisa.”
Essa riqueza começa já a partir do Arqueano, fase da história geológica do planeta que vai de 4 bilhões de anos a 2,5 bilhões de anos atrás. Antes do Arqueano (e mesmo no começo dele), a Terra ainda era altamente instável, com uma superfície sólida destruída diversas vezes por impactos com corpos celestes.
Na Groenlândia, as rochas mais antigas, de 3,8 bilhões de anos, remontam ao início do Arqueano e correspondem ao que os especialistas chamam de cráton (algo como “coisa forte” em grego). Grosso modo, são os trechos mais estáveis dos continentes, que conseguiram sobreviver a diversos ciclos de mudança de posição e de formato das massas continentais.
“A pesquisa com essas rochas mais antigas trouxe informações importantes para compreender a formação dos oceanos e a fase inicial do Arqueano”, conta Kalvig.
Além disso, pistas geoquímicas e estruturas conhecidas como estromatólitos, encontradas na região groenlandesa de Isua, estão entre as mais antigas evidências de vida no planeta, destaca Ricardo Ivan Ferreira da Trindade, geólogo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.
“Embora existam outros crátons antigos, como o Cráton Amazônico e o Cráton do São Francisco, no Brasil, a Groenlândia se destaca pela qualidade das suas exposições geológicas e pelo acesso direto a rochas muito antigas, que em outros locais sofreram bem mais alterações”, explica Trindade.
Em épocas relativamente mais recentes –mas, do ponto de vista moderno, ainda muito remotas, é claro–, os terrenos da ilha trouxeram outras pistas importantes sobre a evolução da vida no planeta. É o caso dos fósseis do Acanthostega e do Ichthyostega, animais que viveram no Devoniano tardio (entre 360 milhões e 380 milhões de anos antes do presente). A anatomia dos bichos, que lembra vagamente a das salamandras modernas, ajuda a documentar a fase em que surgiram os primeiros vertebrados com quatro membros, “intermediários” entre os peixes e os futuros anfíbios.
Mais tarde, no final do período Triássico (o primeiro da chamada Era dos Dinossauros), há 210 milhões de anos, a região abrigou espécies como o fitossauro Mystriosuchus alleroq, vagamente parecido com um crocodilo de focinho muito longo e comprido, e o dinossauro Issi saaneq –o nome significa “osso frio”, e o animal era um herbívoro de cinco metros de comprimento. O espécime, aliás, tem parentesco relativamente próximo com espécies gaúchas do Triássico.
Ambas as descobertas contaram com a participação do paleontólogo português Octávio Mateus, que já esteve na ilha polar em quatro temporadas de trabalho de campo. Ele contou que a logística necessária para as pesquisas envolvia a ida da equipe para uma antiga base militar americana, hoje aberta para fins civis, e depois a viagem de helicóptero de meia hora para as áreas de prospecção.
“Éramos os primeiros seres humanos ali em 17 anos”, recorda ele. “É preciso levar todo o equipamento para acampar, a comida e armas para segurança, por causa dos ursos-polares.” O único recurso disponível no local é a água.
O pesquisador luso recorda ainda outro fator crucial: a janela de tempo estreita para trabalhar, de cerca de um mês, durante o verão do hemisfério Norte. “Até junho, a neve cobre as jazidas; se formos mais tarde, a luz solar fica mais rasante e temos menos água disponível.”

E o verão groenlandês, embora curtíssimo, pode ser surpreendentemente quente, até pelo fato de o sol praticamente não se pôr durante o período. “Você não vai acreditar na temperatura máxima do solo que cheguei a medir”, diz Mateus. Arrisco: 20 graus Celsius? 25 graus? Não, 50, revela ele –a temperatura do ar, é claro, não estava tão alta assim. “Os bois-almiscarados [espécie peluda típica da região] chegavam a se espojar na neve para se refrescar, e eu fiquei de tronco nu.”
Por outro lado, Per Kalvig diz que as dificuldades climáticas e de infraestrutura não são exatamente do outro mundo, em especial se a ideia é a exploração econômica dos recursos minerais groenlandeses.
“A mineração comercial no Ártico é uma realidade em muitos lugares, na Rússia, no Canadá, no Alasca. E as condições em diversas regiões da Groenlândia não são diferentes das da região central da Noruega, por exemplo”, afirma ele.
No papel, uma das áreas mais promissoras para a mineração na ilha é a província de Gardar, no extremo sul groenlandês. Com rochas de cerca de 1,2 bilhão de anos, produzidas durante um antigo processo de “rifting” (no qual a crosta terrestre pode ser puxada de lados opostos, até rasgar), a área também depósitos consideráveis das chamadas terras raras.
Esses elementos químicos, que, em geral, correspondem a metais pesados maleáveis e branco-prateados, como o neodímio e o praseodímio, são muito procurados atualmente pela indústria de eletrônicos e de geração de energia elétrica, porque são a matéria-prima ideal para, entre outras coisas, a fabricação de motores e geradores miniaturizados e muito potentes. É por isso que são vistos como estratégicos na transição energética global, permitindo a popularização de turbinas eólicas e carros elétricos, por exemplo.
“O problema é que a abundância de terras raras nas formações geológicas nem sempre corresponde à viabilidade econômica da extração”, explica Kalvig. Até agora, esse tem sido o caso da província de Gardar.
Ali, há dois tipos principais de minérios com proporções significativas de terras raras, um dos quais inclui ainda altas concentrações de urânio e tório (que são radioativos). Tanto a preocupação com a radioatividade, num dos casos, quanto a dificuldade de processar os minérios sem que permaneçam impurezas indesejadas e outros rejeitos, fazem com que a exploração comercial desses recursos na região ainda não tenha se concretizado.
De fato, há apenas duas minas oficialmente ativas na Groenlândia hoje, uma de ouro, no extremo sul, e outra de feldspato, no oeste da ilha –ambas com produtividade muito baixa. Para Kalvig, no entanto, isso está longe de significar que a atividade não tem futuro em solo groenlandês.
“Na minha visão, a Groenlândia, em grande medida, é inexplorada do ponto de vista da mineração. Os grupos que têm se interessado por trabalhar lá nas últimas décadas quase sempre vão atrás de depósitos que já são velhos conhecidos. Mas, com investimento e trabalho sério, o cenário pode mudar bastante”, diz ele.
Reinaldo José Lopes e Gustavo Queirolo/Folha de S.Paulo
