Valfrido Silva
Tudo começa com um punhado de garranchos. Rabiscos tortos, escritos às pressas por alguém que carrega um sobrenome que dispensa apresentação e excesso de explicação. Ali, entre estados “chaves” e cálculos eleitorais, surge Mato Grosso do Sul — esse território que para certos jornalistas de Wi-Fi instável ainda é uma espécie de Mato Grosso com erro de impressão. Bastou isso. Bastou a menção. Bastou um “Mulher Repolho (pediu 5 mi)” para que o festival da superficialidade começasse, com direito a especialistas em nada transformando anotação política em feira livre de meme.
É curioso. Muito curioso. Estamos falando de um estado “inexpressivo” que, na última eleição presidencial, colocou duas mulheres na disputa nacional: Simone Tebet, que ultrapassou Ciro Gomes — o eterno candidato do quase — e Soraya Thronicke, eleita sob uma bandeira da qual depois rompeu, gesto que exige mais coragem política do que a maioria dos comentaristas de podcast jamais precisou exercer no conforto do microfone patrocinado. Estamos falando de um estado que já teve Ramez Tebet presidindo o Congresso Nacional; o aquidauanense José Fragelli, igualmente no comando do Parlamento; e o campo-grandense Jânio da Silva Quadros, vereador, deputado, prefeito e governador de São Paulo antes de chegar à Presidência da República. Um estado que hoje “empresta” a própria Simone para resolver equações partidárias também em São Paulo, porque, quando falta densidade política em certos centros autoproclamados iluminados, é no interior que se vai buscar consistência.
Mas para os novos cartógrafos digitais, Mato Grosso do Sul é figurante. É detalhe. É pano de fundo. São os mesmos que, se perguntados, talvez ainda confundam Campo Grande com Cuiabá, e tratem uma divisão federativa de 49 anos como se fosse atualização pendente do aplicativo.
E então surge a expressão que virou chacota: “mulher repolho”. E aqui a ironia se impõe. Cinco milhões. Cinco milhões para disputar o Senado da República. Uma ninharia no universo onde campanhas consomem cifras que fariam qualquer planilha corar de vergonha. Cinco milhões, no Brasil eleitoral, não compram nem metade da indignação seletiva de certos moralistas de ocasião. Mas a internet, essa entidade que transforma tudo em flatulência coletiva, preferiu fingir escândalo. Fingir espanto. Fingir pureza contábil.
Engraçado mesmo seria pedir cinco milhões para não ser candidato. Aí sim estaríamos diante de uma tragédia shakespeariana: ser ou não ser — mediante TED bancário. Porque política, meus caros, nunca foi catecismo dominical. É cálculo, é articulação, é construção de espaço. Uns pedem para entrar no jogo. Outros pedem para sair dele com dignidade financeira. E ambos os movimentos são tão antigos quanto o próprio Senado.
Mas não. O foco virou o repolho. O vegetal. O meme. A piada pronta. A gargalhada rasa. Transformaram uma possível candidata — Gianni Nogueira, vice-prefeita de Dourados (mulher do famoso “gordinho” do Bolsonaro, o deputado Rodolfo (sem ph) Nogueira), candidata pré-articulada no bolsonarismo raiz para puxar o pelotão da anistia na próxima legislatura — numa hortaliça. Porque é mais fácil rir do que compreender. É mais confortável debochar do que contextualizar. É mais simples viralizar do que estudar.
O repolho, sabemos, tem um efeito colateral muito específico: produz gases. Mas o problema nunca foi o vegetal. O problema é a fermentação mental de quem consome informação sem digestão crítica. O que se espalhou nas redes não foi escândalo; foi flatulência intelectual. Um odor momentâneo que faz barulho, mas raramente produz substância.
E há ainda o detalhe estratégico, esse que os “analistas” ignoram enquanto gravam cortes para reels: ao transformar alguém em caricatura, corre-se o risco de fortalecê-lo. O deboche pode virar identidade. O meme pode virar bandeira. A vítima da piada pode converter a troça em combustível eleitoral. A história recente do Brasil é pródiga em exemplos de como o riso mal calibrado termina em posse no Planalto ou no Senado.
No fundo, talvez os maiores interessados na viralização não sejam os citados nos garranchos, mas os adversários locais, sempre atentos a qualquer distração que desvie o foco do essencial. Porque enquanto se fala de repolho, não se fala de articulação. Enquanto se ri do “5 mi”, não se pergunta quanto custam, de fato, as engrenagens invisíveis do poder.
Mato Grosso do Sul não é inexpressivo. Inexpressiva é a análise preguiçosa. Inexpressiva é a crítica que desconhece história, geografia e matemática eleitoral. Inexpressivo é o comentário que acha que política se resume a trocadilho de feira.
No fim das contas, o único efeito colateral comprovado do repolho é a flatulência. Já o efeito colateral da ignorância amplificada é mais grave: ela empobrece o debate, infantiliza o eleitor e transforma estratégia em piada de quinta série.
Se era para marcar época, que se registre: o problema nunca foi a “mulher repolho”. O problema é a horta inteira de superficialidades cultivadas por quem prefere o cheiro do meme ao peso da análise.
E contra isso, meu caro, não há antiácido que resolva.
