Valfrido Silva
Quem passa pela Rua Ciro Melo, esquina com Cornélia Cerzósimo de Souza, no Jardim Tropical, talvez não perceba de imediato que ali resiste um fragmento da história de Dourados. É preciso diminuir a velocidade — do carro, da moto, da bicicleta e até do olhar. Muito próximo das torres que se erguem como símbolos da nova arquitetura urbana e fachadas envidraçadas que refletem o céu, uma velha casa de madeira insiste em permanecer de pé.
A madeira veio da antiga Serraria Sertão, reaproveitada quando a região ainda era marcada mais pelo cheiro de resina e serragem do que pelo de concreto armado. Naquele tempo, caminhões carregados de toras cruzavam estradas de chão e despejavam nas esplanadas das serrarias a riqueza que tombava do que, já ali, havia sobrado da mata atlântica. As chaminés trabalhavam sem descanso e o céu da cidade vivia encoberto por uma névoa de fumaça e pó fino, como se o progresso tivesse aprendido a respirar pela madeira queimada.
Antes da soja chegar, trazida pelos gaúchos que transformariam a economia regional na década de 1970, o que havia era campo aberto, capim barba-de-bode ondulando ao vento e manchas de guavirais generosos. Onde hoje condomínios de alto padrão prometem exclusividade, existiam aroeirinhas baixas e horizontes largos. Não havia grandes invernadas; pequenos rebanhos bastavam para o sustento. Quando um animal era abatido, a carne não seguia para câmaras frias — era dividida entre vizinhos. Parte virava troca, parte garantia sobrevivência. O que circulava ali não era capital acumulado, era necessidade compartilhada.

A energia vinha de postes de aroeira ligados a um gerador que levava o nome de Fernandão, como era conhecido o governador Fernando Corrêa da Costa, nos tempos do velho Mato Grosso. E a luz acabava impreterivelmente às nove da noite. Depois disso, a Lua, o breu e as estrelas. As rodas de chimarrão surgiam nas calçadas iluminadas por lamparinas, enquanto os programas sertanejos das rádios paulistas atravessavam o ar e preenchiam o silêncio. Televisão ainda não existia no imaginário da maioria.
Foi nesse cenário que, em 1962, seu Elpídio Lima e dona Maria da Conceição de Lima fincaram vida naquela esquina. Tiveram 12 filhos. Plantavam mandioca, às vezes amendoim. Criavam galinhas, patos, gansos. Na esquina funcionou a Oficina Mecânica Lima, ponto de referência quando a cidade ainda era menor e as relações, mais próximas.
Houve tempos de fome — “nosso alimento era abacate, sem açúcar”, recorda um dos filhos. Houve frio. Houve humilhações. Mas houve permanência. Dona Maria sempre manteve o fogão a lenha aceso. A casa de madeira nunca deixou de cumprir sua função essencial: abrigar.
Ao fundo do terreno, por uma pequena trilha de terra batida, chegava-se, até pouco tempo, a uma construção simples, quase primitiva. Ali não havia porcelana branca nem descarga que apaguasse vestígios. O corpo obedecia à gravidade e à terra. O que era deixado ali não desaparecia por encanamento invisível; retornava ao chão, encontrava insetos diligentes que cumpriam silenciosa coreografia, transformando o que era resto em outra forma de vida. Era um sistema rudimentar? Talvez. Mas esta é a memória física de uma cidade que nasceu sem rede de esgoto, apenas a terra vermelha.
Agora, a poucos metros dali, torres residenciais de alto padrão redesenham o perfil da região. Elevadores panorâmicos sobem silenciosos. O metro quadrado ganhou cifras. O terreno onde a família vive desde 1962 passou a ser visto como área estratégica.
A dor também atravessou aquela varanda. Em 2023, a filha mais nova do casal, que morava com eles, faleceu aos 26 anos. A perda aprofundou o silêncio de dona Maria da Conceição. Seu Elpídio, já idoso, nem sempre mantém a coerência nas falas. Segundo a família, sempre acreditou que a política costuma favorecer os mais poderosos. Hoje, entre processos e decisões judiciais que discutem posse e propriedade, a expectativa do casal está depositada nas medidas ainda em curso.
A última casa antes do espelho de vidro não é apenas uma construção antiga cercada por prédios modernos. É um fragmento de uma Dourados que já viveu à luz de lamparina, que já dividiu carne entre vizinhos, que já encerrou suas noites às nove e que ainda reconhece, no chão, a origem de tudo.
Certamente que a cidade precisa crescer. Mas talvez precise, também, lembrar de onde veio. E antes que qualquer decisão definitiva transforme aquela esquina apenas em registro cartorial ou número de matrícula, talvez seja preciso reconhecer que ali já existe algo que ultrapassa o direito de propriedade. Há memória, há permanência, há história viva. E patrimônio, às vezes, não é o que se tomba por decreto — é o que a cidade decide não esquecer.
