Valfrido Silva
Se no tabuleiro majoritário o troca-troca partidário já vinha dando sinais de reorganização precoce, na disputa pelas cadeiras da Câmara Federal o movimento se intensifica com ainda mais nitidez e menos disfarce. É sonhando com os gabinetes do anexo IV do Congresso Nacional que muitos dos movimentos mais calculados da política estadual começam a se revelar com clareza, não exatamente pelo que se anuncia, mas pelo que se desenha antes mesmo do anúncio.
Assistindo a esse rearranjo, um dado chama atenção de saída: três mulheres surgem como francas favoritas a já buscarem acomodação nesses gabinetes, ampliando significativamente uma bancada feminina que hoje conta apenas com a petista Camila Jara. Isa Cavala Marcondes, Mara Caseiro e Rose Modesto não figuram apenas como nomes competitivos, aparecem como movimento estruturado dentro de um cenário em transformação.
Mara Caseiro, herdeira direta do espólio azambujista no PSDB, desponta como uma das mais votadas, especialmente pela sua capilaridade na região de fronteira, onde a política ainda preserva métodos mais tradicionais, embora nem tanto convencionais, baseados na famosa “estrutura”. Não é apenas força eleitoral é enraizamento.
Rose Modesto, por sua vez, carrega consigo não só o recall recente da disputa pela prefeitura de Campo Grande, mas algo talvez mais determinante: o desgaste da atual administração municipal, que, paradoxalmente, acaba funcionando como ativo político a seu favor. Em política, às vezes, o adversário trabalha melhor como cabo eleitoral do que o aliado.
Já Isa Cavala Marcondes surge como elemento disruptivo nesse cenário. Fenômeno eleitoral em Dourados, com alcance que extrapola o segundo maior colégio eleitoral do Estado, ela foi, ao que tudo indica, empurrada para a disputa federal dentro de uma lógica que não necessariamente a tinha como protagonista, mas como peça de composição. A política, no entanto, tem dessas ironias: peças pensadas como escada, às vezes, descobrem que podem subir sozinhas. E, no caso de Isa, o desempenho nas redes sociais e a capilaridade de votos pelo Estado podem transformá-la na surpresa mais incômoda do processo.
No mais, como diria o velho bordão, tudo tende a seguir como dantes no quartel de Abrantes — ao menos na aparência. Porque, por baixo da superfície, o jogo é outro.
Para a Câmara Federal, o troca-troca prenuncia mudanças profundas,
revelando quem já está com mudança marcada para o DF
Entre os atuais deputados federais, a movimentação ainda guarda algumas incertezas. O tucano Beto Pereira permanece como um dos poucos que ainda podem ceder à tentação do troca-troca partidário, especialmente diante do esvaziamento progressivo do PSDB — processo liderado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja, que deixou a legenda rumo ao PL, ainda tentando se viabilizar como candidato ao Senado.
Tentando, eu disse, porque o ambiente bolsonarista segue longe de qualquer acomodação automática. A indicação do deputado federal Marcos Pollon como candidato de Bolsonaro ao Senado é um recado claro de que o controle desse campo político não se dá por transferência, mas por disputa. E, nesse contexto, a própria Gianni Nogueira — antes tratada como nome natural — entra no jogo sob outra lógica: menos como herdeira de espaço, mais como peça de uma engrenagem em movimento. E se Pollon consolida candidatura ao Senado, abre-se mais uma vaga competitiva à Câmara. E, como sempre, vaga aberta em Brasília não fica sem dono por muito tempo.
E tem mais. A eventual entrada do vereador Marquinhos Trad nessa disputa adiciona outra camada ao cenário. Tentando reconstruir sua trajetória após o desgaste das últimas eleições ao governo, ele chega com uma combinação rara: capital político ainda existente, memória recente de exposição negativa e, principalmente, uma estrutura familiar que funciona como rede de sustentação. De um lado, Nelsinho Trad, forte candidato à reeleição ao Senado; de outro, Fábio Trad tentando se reposicionar como candidato à sucessão de Eduardo Riedel. Se sobrenome já pesa, imagina quando distribuído em múltiplos palanques.
Na política, ninguém volta sozinho.
Volta com história — ou com estrutura.
Nesse ambiente, cresce também a expectativa sobre nomes que orbitam o retorno. Geraldo Resende e Dagoberto Nogueira aparecem nesse radar, ainda que com sinais distintos. Geraldo, mais fluido, flerta com outras possibilidades partidárias, enquanto Dagoberto mantém uma trajetória mais previsível, que até aqui tem dado certo.
Do lado bolsonarista, Luiz Ovando e Rodolfo Nogueira seguem operando dentro de uma lógica de fidelidade que, mais do que posicionamento ideológico, funciona como ativo eleitoral. O caso de Rodolfo, o “gordinho do Bolsonaro”, ilustra bem esse fenômeno: sua sustentação política não depende apenas da própria atuação, mas de uma conexão direta com a base do ex-presidente, conexão que pode se fortalecer ainda mais caso Gianni Nogueira consolide candidatura ao Senado com esse mesmo respaldo. É o tipo de engrenagem que se retroalimenta.
No meio desse rearranjo, o PT de Dourados volta a sonhar a cadeira que já foi de João Grandão na Câmara Federal. A possibilidade desse retorno reaparece com o nome do vereador Elias Ishy, que tenta se colocar como herdeiro de uma tradição política que já teve representação forte no município. Não é apenas uma candidatura: é uma tentativa de reconectar uma linha histórica interrompida. Resta saber se haverá tração suficiente. E, nesse ponto, entra uma variável que pode definir mais do que parece: a capacidade de Camila Jara de atuar como puxadora de votos. Porque, em eleições proporcionais, não basta ter candidato competitivo, é preciso ter quem empurre a chapa.
Por fim, o que se desenha para a disputa da Câmara Federal em Mato Grosso do Sul não é exatamente uma renovação, é uma reacomodação. Os nomes mudam de posição. Os partidos mudam de lugar. Os discursos se ajustam. Mas a lógica permanece. E, no ritmo do troca-troca partidário, quem entende isso antes costuma chegar primeiro ao anexo IV.
