Há luas que a gente não esquece, e não é apenas do nosso satélite natural.
Entre Neil Armstrong e Reid Wiseman cabem 57 anos — é quase uma vida inteira —, mas também cabem dentro de uma mesma noite: aquela em que o mundo inteiro olhou para cima e eu, lá das trilhas de Cruzaltina, ainda Dourados (hoje é Douradina), olhava com um olho no céu e outro… na mão dela. Era 29 de julho de 1969 e eu, com meus 15 anos, já estava, literalmente, no “mundo da lua” de meu primeiro dos muitos amores platônicos.
Enquanto o planeta prendia a respiração diante de televisores em preto e branco (isto nos grandes centros) daqueles que mais pareciam prever chuva dentro da sala, eu acompanhava tudo pelo rádio, pela velha e heroica Rádio Tupi de São Paulo, que ousou interromper Erasmo Carlos, “sentado à beira do caminho”, para anunciar o maior passo já dado fora da Terra. Às 23h56, no horário de Brasília, Armstrong desceu a escada do Eagle e disse a frase que até hoje causa inveja em qualquer cronista: “um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade”.
E lá estava eu, sob uma lua cheia escandalosamente luminosa, tentando entender o que aquilo significava enquanto, com a mesma ousadia dos astronautas, tentava um contato de terceiro grau: encostar, ainda que de raspão, na mão da moça que me apresentara à sua família. Confesso: a gravidade não era o problema, era a claridade. A Lua, naquele dia, não ajudava em nada.
Ingênuo, cheguei a acreditar que poderia ver Armstrong e Aldrin saltitando lá em cima, brigando com a ausência de peso, como quem pula cerca em terreno desconhecido, enquanto aqui embaixo eu enfrentava minhas próprias leis físicas, o coração acelerado, a mão hesitante, o medo de um universo inteiro caber num gesto mal calculado. Eles coletaram 21 quilos de rochas lunares, quase como um produtor rural examinando o solo depois da safra; eu, por minha vez, colhi apenas silêncio e uma memória que nunca mais me deixou.
E havia ainda o terceiro homem na antológica Apolo 11, Michael Collins, orbitando sozinho, garantindo que todos voltassem para casa, o editor invisível da história, aquele que não pisa na manchete, mas sem o qual não há jornal no dia seguinte.
Décadas depois, a Lua continua lá, mas nós mudamos — ou talvez nem tanto.
Hoje, enquanto a NASA se prepara para mais uma viagem ao redor da Lua com a Artemis II, há quem pareça ainda vivendo “no mundo da lua”, não no sentido poético de Cruzaltina, mas naquele outro, mais perigoso, em que decisões são tomadas olhando para o espaço enquanto a Terra arde. Donald Trump, por exemplo, talvez veja na Lua mais uma fronteira simbólica a conquistar, mas fica a pergunta, meio atravessada como aquelas primeiras tentativas de carinho sob o luar: o que exatamente ainda se quer descobrir por lá quando aqui embaixo o mundo coleciona conflitos como quem empilha foguetes?
Num cenário em que pairam dúvidas sobre arsenais nucleares, tensões a cada minuto maiores com o Irã, o estopim de guerras que insistem em não terminar, há quem ache que os bilhões investidos em novas missões espaciais poderiam, na pior das hipóteses — e nunca essa expressão foi tão literal —, ser redirecionados para aquilo que define o jogo de poder: dissuasão, armamento, medo. Não é uma defesa, é uma triste e preocupante realidade.
Porque, como observou muito bem direto de Roma a minha desafeta (dos tempos de TV Morena) Ilze Scamparine, ontem no Jornal Nacional, certos conflitos já começam a ganhar ares de um novo Vietnã, longos, custosos, sem fim à vista.
E, nesse contexto, a Lua segue em seus giros incansáveis ao redor da Terra, refletindo placidamente sobre nós, alheia, ou talvez divertida, diante do que os terráqueos ainda insistem em procurar por lá.
Antes, fomos até ela para provar que podíamos. Agora, voltamos talvez para lembrar quem somos ou quem estamos deixando de ser. Reid Wiseman e sua tripulação representam algo novo, mais diverso, mais humano, mas, cá entre nós, do alto daquela mesma Lua que iluminou minha adolescência em Cruzaltina, talvez a pergunta continue ecoando: o problema é chegar lá ou entender o que fazer por aqui?
Porque, naquela noite de 1969, enquanto Armstrong dava seu pequeno passo, eu também tentava o meu, tímido, quase invisível, mas cheio de significado. E hoje sei que há muitas formas de estar no mundo da lua. Algumas poéticas, outras… distração perigosa.
