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terça-feira, março 31, 2026

31 de Março. Ah… que saudades da “marvada” UDN!

Entre a memória de 1964 e o troca-troca partidário de hoje, a política brasileira revela mais continuidades do que mudanças — e acende alertas que não podem ser ignorados

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Valfrido Silva

Lá se vão 62 anos, mas a memória é implacável. No 31 de março de 1964, aos dez anos, eu já acordava cedo para fazer café para meus pais. Hoje, coincidência ou não, pulei da cama às quatro da matina. Antes mesmo de me dar conta da data, abri a janela e, ao longe, vi que a cozinha do meu caçula, o advogado Felipe Torquato, já estava acesa. O café dele já estava sendo coado e se bem o conheço, ele já mirava a pilha de processos para decidir por onde começar. Rotinas que atravessam gerações, mas que, em dias como este, ganham um peso diferente.

A imagem daquele 31 de março continua cristalina: um caminhão cuja boleia era verde-oliva. Não era do comboio do general Mourão, que um dia antes havia saído de Minas Gerais para derrubar o governo João Goulart, o “comunista” da vez, acusado mais por conveniência política do que por convicção ideológica. Era apenas o primeiro caminhão que chegava a Dourados da série 1111 (bulldog, para tomar o lugar dos infalíveis caras-chata), da Mercedes-Benz, comprado pela Serraria Brasil, onde meu pai trabalhava. Mas a cor ficou. Verde-oliva que, conforme o conhecimento ia chegando, foi se transformando em trauma. Como ficaram tantas outras coisas daquele tempo.

E aí me ocorre, com a dose certa de ironia que a história exige: 31 de março… ah, que saudades da “marvada” UDN. Saudade irônica, registre-se, antes que os apressados confundam memória com nostalgia. Porque, goste-se ou não, até os que deram sustentação ao movimento de 1964 apresentavam, ao menos no discurso, uma arquitetura política. Falava-se em combater o comunismo, em restaurar a ordem, em reorganizar o país sob um modelo mais previsível. Para isso, criou-se um sistema bipartidário: de um lado a ARENA, de outro o MDB, uma tentativa de disciplinar a política dentro de limites estreitos, mas reconhecíveis.

Não durou muito. Não resistiu ao traço mais persistente da nossa cultura política: o pragmatismo. A ARENA virou PDS, o MDB virou PMDB, e o que se seguiu foi uma multiplicação de siglas, alianças voláteis e identidades ideológicas cada vez mais diluídas. O que era para ser sistema virou mosaico. O que era para ser projeto virou conveniência. E assim chegamos à atual colcha de retalhos partidária, onde trocar de legenda passou a ser tão trivial quanto trocar de camisa, às vezes sem sequer mudar o discurso, outras vezes mudando tudo, conforme o vento.

É nesse contexto que a movimentação recente da política sul-mato-grossense, como mostrou ontem, em furo de reportagem, o jornalista Bosco Martins, deixa de ser apenas um episódio local para se tornar sintoma nacional. A saída do deputado federal Dagoberto Nogueira do PSDB para tentar a reeleição pelo PP da senadora Tereza Cristina, uma espécie de filial do PL de Jair Bolsonaro, é mais do que uma simples troca partidária. É um retrato acabado desse pragmatismo que dissolve identidades e reescreve trajetórias conforme a conveniência do momento.

E o nó na cabeça vem justamente daí. Dagoberto, que já foi “comunista” pelos padrões de outro tempo ao se eleger pelo PDT — herdeiro do brizolismo —, passou pela social-democracia do PSDB e agora desembarca, sem maiores constrangimentos, num campo político alinhado à extrema direita. Não se trata aqui de julgar o personagem. Trata-se de reconhecer o fenômeno.

Porque, quando trajetórias políticas deixam de ter coerência e passam a obedecer apenas à lógica da sobrevivência eleitoral, o problema deixa de ser individual. Passa a ser estrutural.

E é aqui que a data de hoje pesa ainda mais. Porque 31 de março não é apenas memória. É advertência. O Brasil já viveu as consequências de um rompimento institucional travestido de solução. Já experimentou o silêncio imposto, a suspensão de direitos, a compressão da política sob a justificativa de salvar a própria política. E sabe — ou deveria saber — o custo disso.

Por isso, quando discursos que relativizam aquele período voltam a circular, quando se flerta com soluções autoritárias ou se naturaliza a desordem institucional em nome de uma suposta “correção de rumo”, o sinal de alerta precisa ser acionado. Não por apego ao passado, mas por responsabilidade com o presente.

O bolsonarismo, com sua retórica de confronto permanente, sua desconfiança das instituições e sua tentação recorrente de tensionar os limites democráticos, não surge no vazio. Ele se alimenta justamente desse terreno onde partidos perderam identidade, onde o pragmatismo virou regra e onde a política deixou de ser espaço de mediação para se tornar arena de disputa sem freios.

Entre a memória daquele caminhão verde-oliva e os movimentos de hoje, há mais do que coincidência de cor. Há um fio histórico que insiste em nos lembrar que a democracia não se perde de uma vez, ela vai sendo corroída aos poucos, nas concessões, nas conveniências, nas trocas aparentemente inofensivas.

Sessenta e dois anos depois, a pergunta que fica não é sobre o passado. É sobre o presente. E, sobretudo, sobre o que estamos dispostos a preservar para o futuro. Porque, ao contrário da Lua — aqui reverenciada em texto anterior, por conta do retorno da corrida espacial — que segue indiferente em seus giros silenciosos, nós, aqui embaixo, não temos o direito de girar sem rumo.

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