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segunda-feira, abril 6, 2026

Azambuja e Riedel na hora da verdade: o batismo de fogo no bolsonarismo

A entrada de Azambuja e aliados no PL expõe fissuras, disputa interna e os limites da convivência entre pragmatismo político e bolsonarismo raiz em Mato Grosso do Sul

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O editorial da Folha de S.Paulo deste domingo de Páscoa faz mais do que revisitar um tema já exaustivamente comprovado — a lisura do sistema eleitoral brasileiro —; ele expõe, com alguma crueza, a persistência de uma estratégia política baseada na fabricação de dúvida onde não há controvérsia. Ao trazer de volta o discurso de desconfiança alimentado pelo bolsonarismo, agora vocalizado por Flávio Bolsonaro em ambiente internacional, o jornal aponta para algo mais profundo: não se trata de desconhecimento ou ingenuidade, mas de metodologia. A política do ruído, da suspeição permanente, da mobilização pelo medo.

Esse pano de fundo nacional, no entanto, ganha contornos particularmente interessantes — e até irônicos — quando observado a partir de Mato Grosso do Sul, onde o bolsonarismo vive uma fase de transição que mistura expectativa, cálculo e, sobretudo, desconfiança interna.

A filiação do ex-governador Reinaldo Azambuja ao PL foi, inicialmente, vendida como um movimento de força. Não era pouca coisa: um ex-governador, com densidade eleitoral, experiência administrativa e capacidade de articulação, deixando o esvaziado PSDB e ingressando no partido que hoje concentra a principal base da direita no país. Mais do que isso, Azambuja não foi sozinho. Levou consigo um contingente significativo de parlamentares, redes políticas e influência regional. Em tese, um reforço de peso para o projeto bolsonarista no estado.

Mas política raramente se move apenas por tese. Desde o primeiro momento, a chegada de Azambuja ao PL foi recebida com um certo desconforto — silencioso em alguns setores, mais explícito em outros. Isso porque sua trajetória não dialoga organicamente com o bolsonarismo raiz. Azambuja é produto de uma direita institucional, moldada no PSDB, acostumada à negociação, à composição e ao pragmatismo. Já o bolsonarismo, como bem sugere o editorial da Folha, opera numa lógica distinta: menos afeita a mediações e mais orientada por fidelidade ideológica e alinhamento direto com a liderança nacional.

Essa diferença, que poderia ser apenas uma nuance, rapidamente se transformou em problema concreto. O apoio de Jair Bolsonaro à candidatura do deputado federal Marcos Pollon ao Senado foi o primeiro choque de realidade. Pollon não é apenas um nome competitivo — foi o mais votado nas eleições passadas —, mas representa aquilo que Azambuja não é: um bolsonarista de origem, identificado com as pautas mais duras e com trânsito direto junto à base ideológica. Ao lançar Pollon, Bolsonaro sinaliza, de forma inequívoca, que o controle do projeto político no estado não será terceirizado, nem mesmo para um ex-governador com capital político consolidado.

Azambuja, que ingressou no PL apostando em apoio irrestrito, viu-se obrigado a recalcular rota logo na largada. E o cenário complica. São duas vagas ao Senado, é verdade. Mas a matemática política está longe de ser simples. Nelsinho Trad, candidato à reeleição, mantém presença competitiva e capacidade de mobilização. Do outro lado, o campo lulista, ainda que em definição, tende a ocupar espaço relevante — seja com Vander Loubet ou qualquer outro nome que venha a ser ungido com o selo do Palácio do Planalto. E além de Pollon, no meio desse tabuleiro já congestionado, há, ainda, o capitão Contar, também com o carimbo direto de Bolsonaro e muito bem avaliado para a disputa ao Senado. Com ou sem o apoio direto do ex-presidente.

O que parecia uma equação administrável, pois, começa a ganhar contornos de disputa aberta, inclusive dentro do próprio campo da direita. O que, aliás, reflete no projeto de reeleição do governador Eduardo Riedel, que vive um dilema que sintetiza bem essa encruzilhada. Herdeiro político de Azambuja, Riedel precisa manter diálogo com o bolsonarismo, que tem peso eleitoral inegável em Mato Grosso do Sul, mas não pode prescindir de uma relação funcional com o governo Lula. Governar, afinal, exige acesso a recursos, programas e articulações federais. E isso não se faz apenas com alinhamento ideológico.

A situação beira o paradoxo: para se manter viável politicamente, Riedel precisa acenar para uma base que, no plano nacional, constrói seu discurso justamente na contestação das instituições com as quais ele, como governador, precisa operar cotidianamente.

É nesse ponto que o editorial da Folha encontra eco no cenário sul-mato-grossense. Quando o jornal afirma que “bolsonarismo moderado” é uma contradição em termos, está, ainda que indiretamente, descrevendo o desafio enfrentado por figuras como Azambuja e Riedel. Ambos tentam ocupar um espaço intermediário — uma espécie de direita pragmática dentro de um movimento que não necessariamente reconhece ou valoriza essa moderação.

O resultado é um ambiente de tensão latente. A grande expectativa após o troca-troca partidário era a de que o PL se consolidaria como uma força hegemônica no estado, capaz de organizar um projeto coeso e competitivo. O que se desenha, no entanto, é algo mais fragmentado: uma disputa entre diferentes visões de direita, entre estratégias nacionais e interesses regionais, entre liderança carismática e capital político tradicional.

No fundo, Mato Grosso do Sul se transforma em um laboratório interessante para observar os limites do bolsonarismo enquanto força organizadora. É uma coisa mobilizar eleitores a partir de narrativas de confronto e desconfiança institucional; outra, bem diferente, é transformar isso em arranjo político estável, capaz de acomodar lideranças diversas, interesses conflitantes e necessidades concretas de governabilidade.

Azambuja apostou que conseguiria fazer essa ponte. Ainda não está claro se o bolsonarismo permitirá. E talvez aí esteja o ponto central: o mesmo movimento que cresce alimentando-se da negação das regras do jogo pode encontrar dificuldades justamente quando precisa jogar dentro delas. Mato Grosso do Sul, ao que tudo indica, será um dos primeiros lugares onde essa contradição deixará de ser teórica para se tornar prática — e visível.

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