Valfrido Silva
No dia de sua estreia como pré-candidato à Presidência da República no coração do agronegócio sul-mato-grossense — a Expogrande, em Campo Grande —, Flávio Bolsonaro talvez não tenha se dado conta, mas encontrou ali, logo de saída, o mote de sua própria campanha. Um mote ruidoso, inflamado, repetido em coro por uma claque bem treinada e comandada pela ala mais radical do bolsonarismo local, sob a batuta do deputado Rodolfo Nogueira, o folclórico “Gordinho do Bolsonaro”. “O capitão voltou”, gritavam, com a convicção de quem acredita estar anunciando um retorno triunfal. O problema é que, ao fazer isso, acabaram dizendo mais do que pretendiam, e talvez mais do que o próprio candidato gostaria de ouvir.
Porque, convenhamos, Flávio Bolsonaro não é capitão. Nunca foi. E, se o capitão voltou, como insiste o slogan, então o que estava ali no palco era outra coisa, algo entre representante, herdeiro e, quem sabe, substituto provisório. Não por acaso, chamava atenção o visível desconforto do próprio Flávio naquele ambiente carregado de simbolismo, expectativa e radicalização. Entre coronéis da política estadual e os chamados agroboys, sua fala mais “impactante” acabou sendo… biográfica. Revelou ter sido concebido em Mato Grosso do Sul, nos tempos em que o pai, Jair Bolsonaro, ainda aspirante a oficial, servia no 9º Grupo de Artilharia de Campanha, em Nioaque, antes de vir ao mundo no Rio de Janeiro. Foi pouco. Muito pouco para quem chega com a missão de sustentar um projeto político dessa envergadura.
Enquanto isso, o tom do evento subia, e subia mal. Gritos de guerra, literalmente, pedindo o “extermínio” de Lula e do PT davam o tom de uma retórica que, em tempos já suficientemente tensos no cenário internacional, soa menos como estratégia política e mais como sintoma de um radicalismo que perdeu a medida. Ainda mais numa semana em que o mundo assistia, à beira do abismo, à possibilidade concreta de um conflito de proporções históricas envolvendo uma das civilizações mais longevas do planeta. A conexão entre bolsonarismo e trumpismo, nesse contexto, não é coincidência, é um perigosíssimo discurso compartilhado, ainda mais quando o número 2 dos Bolsonaros, Eduardo, anda lá pelos Estados Unidos conspirando contra a pátria amada.
No meio desse cenário, chamava atenção também o desconforto silencioso do cacique-mór da política estadual, Reinaldo Azambuja, tradicionalmente mais comedido, mas igualmente dependente de um discurso que aposta no medo como ativo eleitoral. Ao falar do chamado “L-4”, numa tentativa de barrar um eventual quarto mandato de Lula, acaba, ainda que em tom mais polido, orbitando a mesma lógica que os mais exaltados vocalizam sem filtro: impedir, a qualquer custo, a continuidade do projeto petista.
E é aí que o slogan inicial volta como um bumerangue político, desses que saem com força e retornam ainda mais perigosos. “O capitão voltou.”
Se levado a sério, o enunciado abre duas possibilidades igualmente desconfortáveis. A primeira, mais simples: trata-se de um evidente equívoco ou, sendo mais direto, um estelionato narrativo, já que o candidato é Flávio, não Jair. A segunda, mais complexa e politicamente sensível: se o capitão realmente “voltou”, então Flávio não passa de um instrumento, um meio, uma ponte para a reentrada de alguém que, oficialmente, não está no jogo. E o que é pior, um fantoche.
E aí o discurso da anistia — esse sim, o verdadeiro eixo estruturante da pretensa campanha — ganha outro peso. Porque deixa de ser apenas uma promessa política e passa a ser peça-chave de um arranjo maior, no qual a eleição não seria um fim, mas um caminho. Ou, para dizer sem rodeios: na hipótese de vitória, não seria Flávio o presidente. Seria Jair.
E talvez seja exatamente essa percepção, ainda difusa, que explique o contraste entre o entusiasmo da plateia e o desconforto do candidato. Porque, entre o grito que ecoa lá embaixo e a realidade que se impõe no palco, há uma diferença que slogan nenhum consegue sustentar por muito tempo.
Até porque, na pressa da largada — ainda mais na balbúrdia de uma feira como a Expogrande, onde a disputa por voto se mistura à exposição de animais de raça —, o risco é confundir um quarto de milha com um cavalo paraguaio. E, como se sabe por estas bandas, esse animal até larga bem… mas raramente chega entre os primeiros. Quando chega! Nesse caso, a queda pode ser fatal, e não costuma poupar nem mesmo tradicionais criadores e expositores.
