O Mato Grosso do Sul nasceu de um decreto, mas foi moldado pelo pragmatismo. Desde 1978, quando Mendes Canale e Pedro Pedrossian (depois seu suplente José Fragelli) ocuparam as primeiras cadeiras no Senado sob o guarda-chuva da ARENA, o estado construiu, quase sem perceber, uma lógica política própria: a de alinhar sua representação em Brasília ao vento predominante no Planalto. Não por ideologia, mas por necessidade. Aqui, sempre se soube que, para colher no campo, era preciso plantar no Congresso e, sobretudo, regar essa plantação com acesso ao poder central.
A história confirma a regra. Figueiredo, Sarney, Collor, FHC — todos tiveram, em maior ou menor medida, um Mato Grosso do Sul afinado com sua órbita. Até mesmo no ciclo petista, com Lula e Dilma, o estado encontrou formas de manter esse cordão umbilical, ainda que por vias mais sinuosas. O caso mais emblemático foi Delcídio do Amaral, o camaleão político que transitou do tucanato à condição de operador central do lulismo no Senado, até protagonizar uma das quedas mais dramáticas da história recente da República. Sua trajetória serviu de alerta: a proximidade com o poder pode pavimentar o caminho, mas também abre atalhos perigosos.
Esse modelo começou a dar sinais de esgotamento em 2006, mas foi em 2022 que a ruptura se consolidou. Enquanto o país reconduzia Lula à Presidência, Mato Grosso do Sul elegia Tereza Cristina como símbolo de resistência ideológica. Pela primeira vez de forma explícita, o estado deixava de buscar alinhamento pragmático para afirmar uma identidade política própria, ainda que em rota de colisão com o Planalto. A exceção virou regra.
É nesse contexto que se insere a candidatura de Reinaldo Azambuja ao Senado em 2026 — e, com ela, um conjunto de riscos que vão muito além da disputa eleitoral em si.
O primeiro deles é estratégico. Ao trocar o PSDB pelo PL, Azambuja apostou na força do bolsonarismo como âncora eleitoral. Uma leitura que, no papel, poderia parecer lógica, mas que, na prática, revela-se cada vez mais instável. O apoio de Jair Bolsonaro, longe de ser um ativo exclusivo, tornou-se moeda fragmentada — distribuída, disputada e, muitas vezes, contraditória, como demonstrado pelo apoio ao deputado Marcos Pollon. O resultado é um cenário em que o ex-governador deixa de ser protagonista para se tornar mais um entre vários pretendentes ao mesmo capital político.
O segundo risco é comportamental, mais silencioso, porém igualmente decisivo. Azambuja parece ter trocado o corpo a corpo político pelo isolamento estratégico. Encastelado em sua fazenda em Maracaju, distante do cotidiano das bases, surge mais como uma figura que convoca do que como alguém que constrói. Quando aparece, não é para pedir voto, mas para ordenar alinhamento. Um estilo que pode ter funcionado no exercício do poder, mas que cobra outro preço em campanha: o da desconexão. E é exatamente aí que a porca torce o rabo.
Azambuja, que até pouco tempo era tratado como senador eleito antes mesmo da largada, começa a se posicionar na raia dando toda a pinta do famoso cavalo paraguaio. Aquele que larga bem, empolga na arrancada, mas perde fôlego ao longo do percurso. Não por falta de estrutura, mas por erro de leitura do terreno e, às vezes, por excesso de confiança na própria força. A mesma soberba que já derrubou gente mais famosa e mais poderosa que ele, como Rachid Saldanha Dérzi e Pedro Pedrossian do mesmo cavalo paraguaio. Na mesma pista que leva ao Senado da República.
Há ainda um terceiro elemento, mais profundo, que dialoga diretamente com a história do estado. Mato Grosso do Sul sempre soube jogar o jogo do alinhamento com Brasília. Mas o cenário atual é outro. O estado que antes se moldava ao poder central agora flerta com a ideia de isolamento identitário. E isso cobra preço. Eleger um senador desalinhado ou fragilizado no jogo nacional pode significar, no médio prazo, perda de capacidade de articulação e de influência, exatamente o oposto da lógica que construiu o estado. No fundo, a candidatura de Azambuja expõe uma encruzilhada. Menos, claro, para os cegos pelo fanatismo, que acreditam na candidatura do insosso Flávio Bolsonaro.
De um lado, a tradição pragmática, que sempre garantiu ao estado presença e voz nos corredores do poder. De outro, a aposta em um modelo mais ideológico, mais fragmentado e menos previsível. Entre os dois, um candidato que precisa decidir se será ponte ou apenas mais um corredor na disputa. E, como toda estratégia mal calibrada, pode transformar uma largada promissora em uma chegada… lá atrás.
