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quinta-feira, junho 18, 2026

O buraco do Ademar (de Barros) e os buracos do Murilo (Zauith)

Entre o lendário Buraco do Ademar e os enigmas de Murilo Zauith, a política volta a provar que certas crateras não se medem em metros, mas em perguntas sem resposta

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Valfrido Silva

Em minha última passagem pela governadoria, depois de uma longa conversa em seu gabinete com o chefe da Casa Civil do governador Eduardo Riedel, o douradense Waltinho Carneiro, na qual analisamos o panorama político das eleições que se aproximam, ele já me acompanhava até a porta quando fez uma última observação, quase como quem deixa uma reflexão no ar: “E tem esse buraco aí do Murilo”.

Na hora, entendi a frase como uma promessa de descascar um abacaxi que teria sobrado da campanha do prefeito Marçal Filho. Menos pela condição de Waltinho como chefe da Casa Civil e mais pelo vínculo pessoal que sempre manteve com o ex-vice-governador Murilo Zauith, de quem durante anos foi considerado uma espécie de filho adotivo político.

Que fique claro: o abacaxi não tem relação direta com Marçal Filho, que provavelmente sequer sabe o que ocorreu nos bastidores de sua própria campanha. Muito menos, aparentemente, com os desdobramentos eleitorais que se aproximam. Mas o episódio, por si só, já é suficiente para me obrigar a revisar a introdução do livro “Como se vira Jornalista”, título que acabou se revelando premonitório, pois retrata com precisão uma das situações mais constrangedoras, humilhantes e desconfortáveis que vivi em cinquenta e seis anos de jornalismo e, nas horas vagas, de atuação profissional no marketing eleitoral.

O tal abacaxi, segundo a explicação mais recorrente entre os que procuram justificar sua demora em ser descascado, teria ficado esquecido em razão das severas consequências da Covid enfrentadas por Murilo Zauith. Afinal, depois de passar longos nove meses internado, à beira da morte, numa UTI do Hospital Albert Einstein, o ex-prefeito retornou à vida pública carregando sequelas que ele próprio jamais escondeu. Tão logo recuperou condições mínimas de atuação, promoveu uma verdadeira devassa na estrutura administrativa da própria Unigran, afastando dirigentes e assessores que durante anos integraram seu círculo mais íntimo de confiança.

Mas talvez a explicação seja simples demais para um enredo tão complexo. A menos que o tal “buraco do Murilo” seja muito mais profundo do que se imagina. Ou que tenha relação com episódios bem anteriores, como a tentativa de golpe político que teria articulado contra Reinaldo Azambuja nos tempos em que ocupava a vice-governadoria. É justamente aí que surge a inevitável lembrança do lendário “Buraco do Ademar”, expressão que atravessou décadas da política brasileira como símbolo de mistérios administrativos, explicações insuficientes e perguntas que jamais encontraram respostas plenamente convincentes.

Se a questão for apenas física — não em referência ao estado de saúde de Murilo, ainda marcado pelas sequelas da Covid, mas aos buracos administrativos deixados por sua gestão — talvez não haja maiores consequências. Afinal, poucos políticos sul-mato-grossenses construíram ao longo da vida uma rede de relações tão sólida e respeitada junto ao Judiciário quanto a dele. E, convenhamos, Waltinho Carneiro, mesmo em seus tempos de secretário de Fazenda de Murilo, jamais teve tarefa fácil para tentar tapar todas as crateras encontradas pelo caminho.

Mas se os verdadeiros buracos estiverem menos nas contas e mais na memória; menos nos cofres e mais nas decisões; menos na administração e mais naquele velho escorpião que tantos juram que Murilo carrega no bolso, então a questão talvez pertença a outra esfera. Nesse caso, nem mesmo o orgulho com que Zauith costuma citar os ensinamentos recebidos da mãe, com as lições espíritas aprendidas nas leituras de Allan Kardec, talvez sejam suficientes para livrá-lo completamente dos carmas que insiste em atribuir a encarnações passadas.

Porque alguns buracos são tapados com dinheiro. Outros com tempo. Mas há aqueles que permanecem abertos justamente porque continuam esperando explicação.

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