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quinta-feira, junho 18, 2026

‘Aí é que surge o pobrema’

Entre cocaína, mandados judiciais e memórias de uma antiga fazenda douradense, a Operação Bonanza mostra que certos nomes carregam histórias muito maiores do que seus autores imaginam

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Valfrido Silva

Sempre que uma nova operação da Polícia Federal amanhece estampada nas manchetes de Dourados, lembro imediatamente do velho Mané Torquato, eletricista dos bons e filósofo das horas vagas. Diante das situações mais complicadas, especialmente aquelas que pareciam simples demais para serem confiáveis, ele costumava encerrar qualquer discussão com um diagnóstico definitivo: “Aí é que surge o pobrema”.

Pois foi exatamente essa frase que me veio à cabeça ao ler, na folha de dourados sobre a Operação Bonanza, deflagrada pela Polícia Federal para investigar uma organização criminosa suspeita de atuar no tráfico interestadual de drogas entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Não pelos mandados, pela cocaína, pelas prisões, mas pelo nome.

Porque quem vive há tempo suficiente em Dourados desenvolve uma espécie de memória afetiva das operações policiais. Uragano. Owari. Brothers. Algumas deixaram cicatrizes políticas. Outras produziram constrangimentos institucionais. Quase todas levaram gente conhecida para o xilindró. Por isso, quando surge mais uma operação de nome sonoro, a reação automática do cronista é simples: “Ops! De novo?”

O curioso é que a Polícia Federal não explicou oficialmente o significado de Bonanza. E aí, como ensinava Mané Torquato, surge justamente o problema.

Porque Bonanza, para os mais novos, talvez seja apenas uma palavra bonita. Para outros, remete ao velho seriado americano que embalou gerações. Para alguns, significa prosperidade inesperada. Mas para quem conhece um pouco da história de Dourados, o nome desperta outras lembranças.

A Fazenda Bonanza, de onde saiu a área doada pela família Parizotto para a construção do Hospital Regional, evidentemente, não tem nada a ver com os fatos investigados pela Polícia Federal. Nada a ver com os beneméritos responsáveis pela doação. Mas a coincidência geográfica não deixa de ser curiosa, obviamente, pelo tanto que deu o que falar a construção do hospital e, claro, que por tudo o que vem pela frente.

Ainda mais para quem carrega uma ligação pessoal com aquele pedaço de terra. Meu avô, Aparício Machado, antes dos Parizotto e de Cícero Irajá Kurtz, foi um dos primeiros proprietários da fazenda. E meu pai, Waldemar, nasceu ali. O que transforma a palavra Bonanza numa lembrança familiar muito antes de se tornar nome de operação policial.

Talvez por isso certas palavras produzam ecos diferentes em cada pessoa. Para a Polícia Federal, Bonanza é apenas um código operacional. Para os investigados, provavelmente um pesadelo. Para a história de Dourados, uma referência geográfica. E para mim, uma inesperada viagem entre a memória familiar, as páginas policiais e a velha sabedoria de Mané Torquato.

Porque, no fim das contas, as operações passam. Os inquéritos terminam. Os processos seguem seu caminho. Mas os nomes permanecem. E alguns deles carregam muito mais história do que imaginam aqueles que os escolhem.

Como diria Mané Torquato:

“Aí é que surge o pobrema.”

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