O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a família Bolsonaro age com entreguismo e que pretende “submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”. O presidente foi às redes sociais se manifestar contra o documento entregue senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao governo dos Estados Unidos nesta quarta-feira em que afirma que a sobretaxa proposta sobre produtos brasileiros daria a Lula “exatamente a vitória política que ele vem buscando”.
A avaliação consta em um documento de 86 páginas apresentado junto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), órgão responsável pela investigação comercial contra o Brasil. No texto, o Flávio Bolsonaro pede a suspensão da medida e sustenta que a adoção das tarifas produziria efeito contrário ao pretendido por Washington.
“Separadamente, e como uma questão de momento, e não de quem se beneficia: o Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior”, afirma Flavio Bolsonaro aos EUA.
Ao rebater o documento do senador, Lula argumenta que não há qualquer motivo para que seja implementadas tarifas sobre produtos brasileiros: “Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois.”
Veja a íntegra da fala de Lula no X:
“É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, como fica claro no documento enviado hoje por um de seus integrantes ao governo norte-americano. Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois. O mais absurdo é saber que a origem disso tudo foi motivada pela própria família Bolsonaro que defendeu publicamente o aumento de tarifas contra os produtos brasileiros. Defender o fim do Mercosul, o bloco econômico mais importante da América Latina e que acaba de firmar um acordo histórico com a União Europeia, é outro ataque ao interesse do povo brasileiro. Como se não bastasse, querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele. Nossa Pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros.”
No documento que o senador enviou aos EUA, Flavio Bolsonaro argumenta que o governo Lula transformou o embate com os Estados Unidos em um ativo político doméstico e que novas sobretaxas apenas reforçariam essa estratégia. Para embasar a tese, cita pesquisas eleitorais e afirma que a rodada anterior de tarifas imposta pelo governo Donald Trump fortaleceu eleitoralmente o presidente brasileiro, em vez de pressionar sua gestão.
“A provocação é explicada por uma estrutura de incentivos. Pesquisas de opinião no Brasil mostram que a posição eleitoral do governo se fortaleceu justamente nos períodos em que a pressão tarifária dos Estados Unidos foi mais intensa”, argumentou.
Outro argumento apresentado é que, se Washington entender que houve violações por parte de autoridades brasileiras, deveria recorrer a medidas direcionadas, como restrições de visto e sanções individuais, em vez de sobretaxas sobre produtos brasileiros. Segundo Flávio, esse tipo de instrumento atingiria diretamente os responsáveis pelas condutas questionadas, sem impor custos à economia americana nem aos brasileiros favoráveis à aproximação entre Brasília e Washington.
Jeniffer Gularte/O Globo — Brasília
