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sexta-feira, julho 3, 2026

A velha senhora e os filhos adultos

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O coração da senhora de idade dispara. Mais uma vez, os dois “meninos” — na verdade, um filho e uma filha — brigam por algum motivo. Ela ouve o barulho das vozes vindo lá de cima do sobrado. Estava cortando os legumes para o almoço. Nem pensa em enxugar as mãos; deixa tudo como está e corre para “salvar” as crianças.

Com o coração disparado, tem dificuldades para subir as escadas.

— O que é isso? Ficaram doidos?

Faz tempo que vive o inferno de ver os dois filhos em constante desentendimento. Filhos maduros que nunca se casaram e, por isso, vivem com ela. Não ajudam. Fazem-na sofrer.

O filho, por trás da irmã sentada, tem um braço em volta da garganta dela. As pernas da mãe tremem ainda mais. A filha, sentada diante da escrivaninha, não consegue se desvencilhar. Com a mão livre, pega a tesoura pontuda entre as canetas e os lápis do porta-lápis e tenta atingir o braço do irmão, o que não está em seu pescoço.

O corpo inteiro da mãe treme diante da cena. Ela tenta separar os dois.

— Tomem juízo! Onde já se viu!

Tenta afastar o braço do filho do pescoço da filha. Com as forças cada vez menores, não consegue fazer muita coisa.

A neta, que costuma passar para pedir a bênção à avó, abre a porta da casa. As vozes, que já ouvia do portão, agora soam ainda mais fortes. Ela distingue o desespero na voz da avó.

A velha tem a impressão de que vai desmaiar. Não pode. Precisa separar os dois.

A neta sobe as escadas o mais rápido que pode e, ao ver a situação da avó, não hesita: chama a polícia. Estava cansada de ouvir as brigas entre os dois sem poder fazer nada, já que eles, “os mais velhos”, não lhe reconheciam autoridade.

Os dois “meninos”, já na faixa dos 60 anos, nunca se casaram. Continuam, portanto, vivendo sob o teto da mãe. Cada um acha que pode fazer tudo à sua maneira na casa dela. Não participam das compras, não dividem as contas de água e luz…

Não cresceram.

Ela nunca fez um pé de meia para comprar a própria casa, estabelecer-se e viver do seu jeito. Ele, cerca de três anos mais novo, possui alguns bens, mas ninguém sabe exatamente quais são. Mantém segredo sobre seus negócios, até mesmo da própria mãe.

A mãe acredita que deve fazer tudo pelos filhos: oferecer casa, comida e roupa lavada. Certa vez, ouviu de outra filha, que já tem sua própria vida, que deveria dar um prazo para que os dois deixassem a casa.

— Por que a senhora não os coloca para fora de casa?

— Onde já se viu? — foi sua resposta.

Não os expulsa porque, para ela, mãe não faz isso com os filhos.

Polícia. Pronto-socorro.

À noite, estavam de volta.

E o medo da velha senhora só aumentou.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.

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