Valfrido Silva
Duas fotografias separadas por quase quatro décadas, uma rampa do Palácio do Planalto e alguns calibres de distância. Na primeira, estampada na capa da revista Veja em março de 1988, Fernando Collor de Mello aparecia de pé, diante da rampa, puxando para fora o forro dos bolsos vazios da calça sob uma frase certeira: “O caçador de marajás.” Na segunda, descoberta agora nas redes sociais, João Henrique Catan aparece sorridente num estande de tiro, com uma metralhadora ponto 30 nas mãos, mira telescópica sobre o rifle e um alvo perfurado ao fundo. Collor era o azarão que, no ano seguinte, chegaria à Presidência da República embalado pela imagem de paladino da moralidade construída com generosa ajuda da imprensa. Catan é o azarão desta eleição para o Governo de Mato Grosso do Sul e não ganhou sequer 30 segundos no horário eleitoral para apresentar suas propostas. Mas, guardadas todas as proporções — e até certa semelhança física entre os dois —, talvez tenha acabado de encontrar a fotografia, o personagem e a munição que lhe faltavam. Se Collor começou a caçada exibindo os bolsos vazios, Catan entra na campanha com as mãos ocupadas e um jatinho ligado à família dona da JBS aproximando-se perigosamente de sua linha de tiro.
A mira, aliás, encontrou o alvo justamente neste 7 de Setembro, enquanto Eduardo Riedel subia ao palanque montado na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande. Num vídeo publicado nas redes sociais, o candidato do Novo mostrou Rodrigo Perez Ramos, secretário de Governo e Gestão Estratégica e homem da absoluta confiança do governador, desembarcando no Aeroporto Internacional Ueze Elias Zahran de uma aeronave ligada à família Batista. Perez aparece retirando malas do avião ao lado de outro homem identificado por Catan como segurança da Governadoria.
A matrícula permitiu seguir o rastro do jatinho. Trata-se de um Embraer Phenom 300, pertencente ao Bradesco Leasing e operado pela VLBM Participações, holding que tem entre seus sócios integrantes da família Batista e o presidente da J&F, controladora da JBS. Os dados do voo indicam que a aeronave partiu de uma pista rural privada na região de Iaciara, em Goiás. No caminho para Campo Grande, pode até ter cruzado o Bolsão sul-mato-grossense, agora pomposamente rebatizado de Vale da Celulose. Politicamente, porém, sua aproximação mais perigosa aconteceu ao tocar o solo da capital, a poucos quilômetros — e a uma eternidade de explicações — do Parque dos Poderes.
Voar em avião particular não é crime nem comprova, por si só, qualquer irregularidade. Mala também é apenas mala até que se demonstre o contrário. Pode carregar roupa, documento, presente, lembrança, cueca limpa ou somente o peso inevitável das más interpretações. O problema é que, na política de Mato Grosso do Sul, um jatinho ligado à família Batista não pousa sozinho. Traz uma bagagem histórica que o grupo governista preferiria manter trancada num hangar bem distante desta campanha eleitoral.
Reinaldo Azambuja, candidato ao Senado e principal comandante político da aliança de Riedel, foi alvo da delação dos irmãos Batista e de uma longa investigação sobre suposto pagamento de propinas em troca de benefícios fiscais. Sempre negou as acusações, não foi condenado e a investigação contra ele acabou formalmente arquivada, numa estranha coincidência, nesses tempos de abalos sismos nos tribunais, na undécima hora do início do período eleitoral. Nada disso impede que a imagem de malas sendo retiradas de uma aeronave ligada à família dona da JBS faça decolar velhas lembranças. A Justiça pode arquivar processos. A memória do eleitor, principalmente em campanha, não obedece necessariamente ao mesmo despacho.
A coincidência entregou a Catan uma peça que nenhum marqueteiro conseguiria fabricar com tamanha precisão. De um lado, Riedel subindo ao palanque do 7 de Setembro, cercado por Azambuja, Tereza Cristina e candidatos da direita. Do outro, seu braço direito descendo do jatinho e retirando malas. Entre a subida de um e a descida do outro, o azarão sem televisão encontrou sua primeira bala eleitoral de grosso calibre. Não a ponto 50 que esta crônica, apressadamente, imaginou antes de conhecer a fotografia. Uma ponto 30, como a que ele exibe nas mãos, já parece suficiente para testar a resistência do palanque azambujista.
Naturalmente, ainda faltam as respostas. Qual foi a finalidade da viagem? Era compromisso público ou particular? Quem pagou o voo? Por que um segurança da Governadoria estaria acompanhando o secretário numa aeronave privada em pleno feriado? Houve agenda institucional com representantes do grupo empresarial? E Catan cumprirá a promessa de encaminhar o caso ao Ministério Público ou usará o jatinho apenas para produzir turbulência eleitoral nas redes sociais?
Essas respostas interessam mais que o preço da aeronave ou qualquer especulação sobre o conteúdo das malas. Se houver uma explicação simples e documentada, o governo deve apresentá-la antes que a oposição escreva sua própria versão. Se não houver, Catan terá encontrado aquilo que lhe faltava: um episódio capaz de tirá-lo da condição de candidato invisível na televisão e colocá-lo no centro da campanha. Uma fotografia não derruba sozinha o palanque do azambujismo, mas pode fazer o primeiro buraco no alvo.
Collor teve a capa da Veja, os bolsos vazios e o título de caçador de marajás. Catan tem as redes sociais, uma ponto 30 nas mãos, um jatinho na luneta e malas carregadas de perguntas.
Para quem não ganhou nem 30 segundos na televisão, é munição para uma campanha inteira.
