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quarta-feira, setembro 9, 2026

Davi e Golias

Catan em Mato Grosso do Sul e Augusto Cury no Brasil mostram que candidaturas pequenas não precisam vencer para obrigar estruturas gigantescas a sair da zona de conforto e prestar contas ao eleitor

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Valfrido Silva

A história de Davi e Golias atravessou os séculos não apenas porque o jovem pastor derrotou um guerreiro muito maior, protegido por armadura e treinado para o combate. Ela sobreviveu porque traduz uma esperança indispensável à vida coletiva: a de que nenhuma força é tão grande que possa considerar a vitória um direito adquirido. Na política, essa lição deveria ser ainda mais elementar. Democracia não existe para confirmar antecipadamente a superioridade dos gigantes. Existe para permitir que alguém aparentemente pequeno entre no campo, recolha uma pedra e obrigue Golias, pelo menos uma vez, a olhar para baixo.

João Henrique Catan desempenha hoje esse papel na eleição para o Governo de Mato Grosso do Sul. As pesquisas o colocam muito atrás de Eduardo Riedel, candidato à reeleição sustentado pela maior coligação, pela máquina estadual e pelo grupo político mais poderoso do Estado. Catan não dispõe sequer de tempo no horário eleitoral gratuito, enquanto Riedel ocupa seis minutos de cada programa para apresentar realizações e promessas. A desigualdade não é ilegal; resulta das regras de distribuição estabelecidas pela legislação e da representação dos partidos no Congresso. Mas mostra como o campo de batalha democrático pode colocar, de um lado, um exército inteiro e, do outro, apenas uma funda.

Ainda assim, o pequeno pode obrigar o gigante a se mexer. O episódio do jatinho ligado à família Batista, no qual um integrante do alto escalão do Governo desembarca em Campo Grande retirando malas, talvez não altere sozinho o resultado da eleição. Voar em aeronave particular não é crime, mala não é prova de irregularidade e acusação de adversário não substitui investigação. Mas foi Catan quem encontrou o fato, mostrou as imagens e formulou perguntas que o governo precisa responder. Qual era a finalidade da viagem? Quem pagou o voo? Tratava-se de agenda pública ou privada? Por que um segurança da Governadoria acompanhava o secretário? A pedra lançada pelo candidato pode não derrubar Riedel, mas já o obriga a levantar o escudo.

Esse é o primeiro serviço que uma candidatura minoritária presta à democracia. Não precisa vencer para ser relevante. Precisa fiscalizar, questionar, apresentar alternativa e impedir que o favorito atravesse a campanha como se estivesse participando de um desfile de aclamação. Quando os grandes deixam de ser confrontados, não apenas crescem: criam raízes, ocupam o terreno e passam a confundir sua permanência no poder com a própria ordem natural das coisas.

Mato Grosso do Sul é um Estado jovem, mas governado por estruturas que envelheceram sem abrir espaço proporcional para renovação. Riedel representa um paradoxo interessante. Tem formação técnica, linguagem moderna, boa capacidade administrativa e idade política inferior à do grupo que o produziu. Poderia simbolizar renovação. Entretanto, continua preso ao azambujismo que o descobriu, o conduziu ao governo e agora sustenta sua reeleição. Não se sabe ainda se construirá uma liderança própria ou se permanecerá como a face nova de uma engrenagem antiga. A presença de adversários como Catan é necessária justamente para cobrar essa resposta.

No cenário nacional, Augusto Cury começa a representar fenômeno semelhante. O escritor apareceu em terceiro lugar nas pesquisas presidenciais, oscilando entre 8% e 10%, depois de sair de patamares residuais. Está muito distante de Lula e Flávio Bolsonaro, os dois gigantes que concentram a disputa, mas carregam índices igualmente elevados de rejeição. Seu crescimento parece revelar menos uma adesão consolidada ao candidato que o cansaço de uma parcela do eleitorado obrigada, eleição após eleição, a escolher entre campos políticos que transformaram divergência em guerra permanente.

Cury ainda precisa demonstrar que possui mais que uma biografia conhecida, discurso de pacificação e milhões de leitores. Algumas propostas apresentadas por ele foram recebidas com desconfiança ou ironia, e sua falta de experiência política pode ser tanto uma novidade atraente quanto uma fragilidade séria. Catan também precisa mostrar que sabe fazer mais que oposição contundente e vídeos de grande repercussão. Ser Davi não constitui certificado automático de competência, coragem ou pureza. A história política brasileira está cheia de salvadores da pátria que começaram pequenos, prometeram enfrentar gigantes e, depois de eleitos, revelaram apetite ainda maior que o dos adversários que combatiam.

Fernando Collor de Mello continua sendo o exemplo obrigatório. Apareceu como jovem caçador de marajás, enfrentou estruturas tradicionais, transformou-se em fenômeno eleitoral e chegou à Presidência antes de o país descobrir que novidade e virtude não são sinônimos. Por isso, candidaturas alternativas devem ser examinadas com o mesmo rigor aplicado às favoritas. O eleitor não deve votar em alguém apenas porque é novo, pequeno ou perseguido pelo sistema. Mas também não deve descartá-lo simplesmente porque as pesquisas, os partidos e o dinheiro já organizaram o desfile dos vencedores.

A democracia precisa dos grandes para governar, dos pequenos para incomodar e do eleitor para impedir que uns ou outros se sintam ungidos. Riedel tem o direito de defender sua obra e buscar a reeleição. Catan tem o dever de questioná-la e apresentar alternativa. Lula e Flávio precisam explicar por que o país deveria permanecer preso à polarização que representam. Cury precisa provar que a pacificação que oferece contém um projeto de governo, e não apenas uma boa intenção embalada por sua popularidade literária.

Nem todo Davi derrota Golias. Nem toda pedra encontra a testa do gigante. Mas basta a presença de alguém disposto a apanhá-la para que o poder se lembre de que tamanho, dinheiro, televisão, máquina pública e favoritismo não tornam ninguém invulnerável. A democracia não exige que todo Davi vença. Exige apenas que nenhum Golias entre no campo acreditando que a vitória lhe pertence.

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