Valfrido Silva
Eduardo Riedel não subiu no trio elétrico estacionado diante do Bioparque Pantanal, no 7 de Setembro, apenas para cumprir tabela, acenar para a militância ou aparecer ao lado dos companheiros de coligação. Subiu para fazer uma aposta. E tratou de deixar claro que colocará nela todas as suas fichas. Prometeu trabalhar até 4 de outubro, mobilizar pessoas para eleger Flávio Bolsonaro e, consumada a vitória, participar diretamente de um novo projeto para o País. O entusiasmo seria absolutamente natural num cabo eleitoral. Em um governador que poderá acordar no dia seguinte obrigado a conviver por mais quatro anos com Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, entretanto, ele exige uma explicação um pouco mais cuidadosa.
Não porque Riedel não tenha o direito de escolher candidato a presidente. Tem, como qualquer cidadão. Também não se espera que esconda suas convicções atrás da neutralidade protocolar que alguns governantes só descobrem quando o resultado das urnas lhes recomenda prudência. A questão é outra: Riedel não entra nessa campanha apenas como eleitor, militante ou candidato à reeleição. Entra como chefe do Executivo de um Estado que depende de relações permanentes com a União, qualquer que seja o ocupante do Palácio do Planalto.
E a conjuntura nacional não autoriza certezas. Lula permanece à frente nos cenários de primeiro turno e aparece rigorosamente empatado com Flávio nas simulações de segundo. A eleição está aberta. Pode terminar com a vitória do candidato que Riedel abraçou no trio elétrico, mas também pode devolver ao governador o mesmo presidente contra o qual decidiu fazer campanha ostensiva. Nesse caso, Riedel poderá ganhar a reeleição em Mato Grosso do Sul e continuar governador de oposição em Brasília.
Há razões eleitorais evidentes para a aposta. O agronegócio é a praia de Riedel, não apenas pela formação, pela atividade empresarial e pela trajetória profissional, mas pela identidade política de seu governo. E uma parcela expressiva do setor rural adotou o bolsonarismo como extensão quase natural de sua visão de mundo. Meses antes da campanha, Riedel e Reinaldo Azambuja já haviam levado a Flávio Bolsonaro um documento com propostas do agro para integrar seu programa de governo. O apoio anunciado agora, portanto, não nasceu de uma explosão patriótica provocada pelo 7 de Setembro. Foi plantado, adubado e cultivado muito antes de subir ao palanque.
Também existe uma necessidade local. João Henrique Catan agora tenta disputar justamente o eleitorado conservador, apresentando-se como o candidato que enfrenta o sistema comandado por Azambuja e herdado por Riedel. Se o governador deixar qualquer espaço entre sua candidatura e a de Flávio, Catan poderá ocupá-lo. Ao se transformar em cabo eleitoral do filho de Jair Bolsonaro, Riedel tenta impedir que o adversário reivindique sozinho o voto mais radicalmente bolsonarista. É uma operação compreensível do ponto de vista eleitoral. O problema é que aquilo que protege o candidato pode aprisionar o governador.
Reinaldo Azambuja tem situação diferente. Depois de quase três décadas no PSDB, filiou-se ao PL, assumiu o comando estadual da legenda e converteu-se no mais novo bolsonarista da gema. Agora candidato ao Senado, pode abraçar Flávio, carregar Bolsonaro no peito e transformar o antipetismo em combustível eleitoral. Está no partido certo para isso e disputa um mandato novo. Se a aposta der errado, continuará tendo uma cadeira para buscar e uma campanha para explicar.
Riedel teve o cuidado de escolher o PP. Poderia permanecer no campo da centro-direita, apoiar Flávio sem vestir integralmente o figurino do bolsonarismo e conservar alguma margem de diálogo com o governo federal. Seu partido, afinal, conhece como poucos a arte de atravessar governos ideologicamente diferentes sem perder o caminho dos ministérios, dos fundos públicos e dos gabinetes onde se resolvem os interesses dos estados. No trio elétrico, porém, o governador pareceu dispensar essa saída de emergência.
Talvez não tivesse muita escapatória eleitoral. Foi escolhido por Azambuja, herdou grande parte de sua estrutura política e governa sustentado por uma aliança na qual o PL passou a ocupar espaço decisivo. Além disso, precisa conversar com uma base rural fortemente refratária a Lula e evitar que Catan cresça apresentando-o como um conservador envergonhado ou um bolsonarista por conveniência. A pressão explica o entusiasmo. Não o absolve das consequências.
Mato Grosso do Sul mantém com a União uma relação que vai muito além das diferenças partidárias. O Estado aderiu ao programa federal de renegociação de sua dívida de R$ 9,6 bilhões, obtendo condições capazes de aliviar o caixa estadual. Riedel também esteve com Lula para tratar de financiamento ao Rodar MS, um dos principais programas rodoviários de seu governo. Somem-se a isso obras de infraestrutura, segurança na fronteira, saúde, solução de conflitos indígenas, investimentos logísticos e a integração da Rota Bioceânica. Nenhuma dessas ações pertence pessoalmente a Lula nem deveria ser usada como instrumento de recompensa ou retaliação política. São obrigações republicanas da União e direitos de Mato Grosso do Sul. Mas seria ingenuidade imaginar que relações políticas, capacidade de diálogo e confiança institucional não pesam quando projetos precisam atravessar a burocracia de Brasília.
Riedel não deve apoio eleitoral a Lula por causa disso. Governo federal não faz favor quando investe nos estados, assim como governador não precisa retribuir recursos públicos com submissão política. O que se cobra é outra coisa: responsabilidade para não transformar uma preferência partidária numa declaração antecipada de guerra a um governo que pode permanecer no poder.
É possível que Riedel tenha informações melhores que as pesquisas, confie numa onda conservadora em Mato Grosso do Sul e acredite que Flávio acabará chegando ao Planalto. Também é possível que esteja apenas cumprindo o preço cobrado pelo agronegócio, pelo PL e pelo grupo político que o fez governador. Em qualquer hipótese, deveria explicar por que resolveu trocar a prudência institucional por um entusiasmo tão ostensivo numa disputa nacional ainda indefinida.
O eleitor merece saber se está diante de uma convicção, de uma estratégia para conter Catan, de uma obrigação com Azambuja ou de uma aposta calculada na derrota de Lula. Pode até ser tudo isso junto. Política raramente oferece motivações em estado puro. Além do mais, claro, Riedel tem todo o direito de colocar o próprio futuro político na mesa. O que seria interessante é se explicasse por que resolveu colocar o Estado na mesma aposta.
