Neno Razuk deixou a Assembleia Legislativa pela matemática tardia da Justiça Eleitoral e entrou no sistema prisional pela cronologia ainda mais tardia da Justiça Criminal. Parecia o fim — ou pelo menos uma considerável redução — da chamada bancada do jogo do bicho no Parlamento de Mato Grosso do Sul. Mas, como ensinava o finado Vicente Matheus, presidente do Corinthians e filósofo involuntário do futebol brasileiro, quem está na chuva é para se queimar. Mal Neno saiu de cena, o Tribunal Regional Eleitoral abriu caminho para que dois representantes políticos da família Name continuem tentando manter — e até ampliar — essa tradição na ALEMS. Na noite desta terça-feira, o TRE-MS deferiu os registros do deputado estadual Jamilson Name, candidato à reeleição pelo PP, e de Jerson Domingos, ex-presidente da Assembleia e do Tribunal de Contas, que pretende voltar à Casa pelo União Brasil.
Antes que algum advogado mais afoito saque a espada da toga, convém fazer a ressalva elementar: a decisão do TRE não transformou acusação em mentira, processo em invenção nem condenação em certificado de bons antecedentes. Também não declarou Jamilson e Jerson inocentes de tudo aquilo que lhes é atribuído nos desdobramentos da Operação Omertà. Apenas reconheceu que, nas condições jurídicas atuais, não existem impedimentos eleitorais suficientes para retirá-los da urna. É uma diferença fundamental. Registro de candidatura não é absolvição criminal, da mesma forma que denúncia não é condenação definitiva.
No caso de Jamilson Name, porém, já existe uma condenação em primeira instância. Em fevereiro de 2025, ele recebeu pena de oito anos de reclusão por organização criminosa e lavagem de dinheiro na ação derivada da Operação Arca de Noé, sexta fase da Omertà. Segundo a acusação, teria assumido o braço do grupo voltado ao jogo do bicho depois das prisões do pai e do irmão, em setembro de 2019. A sentença reconheceu função de liderança e aumentou a pena em um sexto. A defesa sustenta que não existem provas diretas contra o deputado, contesta a vinculação dos recursos à contravenção e lembra que o recurso ainda não foi julgado. Como não há condenação colegiada nem trânsito em julgado, a maioria do TRE decidiu permitir a candidatura. Foram cinco votos a um.
Jerson Domingos chega à urna em situação diferente. Não tem condenação, mas responde a processos derivados da Omertà. Numa das ações, é acusado de embaraçar investigação de organização criminosa. Em outra, originada na Operação Armagedon, responde por suposta participação em organização criminosa armada e tráfico de armas. A acusação do Ministério Público atribui a ele o papel de consigliere de Jamil Name, seu cunhado e pai de Jamilson. A defesa nega que Jerson tenha integrado qualquer organização criminosa e afirma não existir fato concreto capaz de justificar sua exclusão da disputa eleitoral. Também aqui o TRE entendeu, por maioria, que as acusações ainda não se enquadram nas hipóteses legais de inelegibilidade.
A Procuradoria Regional Eleitoral tentou abrir uma porteira jurídica diferente. Em vez de depender apenas da Lei da Ficha Limpa, invocou o dispositivo constitucional que proíbe partidos de utilizarem organizações paramilitares e um precedente do Tribunal Superior Eleitoral que estendeu essa vedação à interferência de grupos criminosos organizados nas eleições. Para a Procuradoria, provas suficientemente robustas poderiam impedir uma candidatura mesmo sem condenação definitiva. O juiz Fernando Nardon Nielsen concordou. Foi voto vencido nos dois julgamentos.
Jamilson e Jerson não compartilham apenas a convenção da federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, uma das bases da candidatura de Eduardo Riedel. Compartilham uma ligação familiar e política que atravessa décadas. Jamilson é filho de Jamil Name. Jerson, cunhado do patriarca, presidiu a Assembleia durante sete anos, exerceu cinco mandatos de deputado e depois foi parar no Tribunal de Contas, instituição que também chegou a comandar. Em 2009, quando presidia a ALEMS, um cambista do jogo do bicho foi flagrado pelo Fantástico circulando pela Casa com crachá de visitante emitido em nome do gabinete da Presidência. Jerson afirmou que desconhecia o caso e prometeu providências. O episódio, mesmo assim, entrou para o vasto álbum de fotografias da convivência histórica entre contravenção, poder econômico e política sul-mato-grossense.
A representação desses velhos grupos na Assembleia parecia ter sofrido um duro golpe com a queda de Neno Razuk, herdeiro de outra família historicamente associada à exploração do jogo do bicho. Condenado a mais de 15 anos de prisão por organização criminosa, roubo e exploração da contravenção, Neno continuou deputado e já circulava em campanha para a Câmara Federal enquanto recorria. Não foi a condenação que imediatamente o tirou do cargo. Foi uma retotalização dos votos da eleição de 2022, concluída mais de três anos depois, que transferiu a cadeira para João César Mattogrosso. Sem o mandato e a condição jurídica que até então o mantinha em liberdade, Neno fugiu, passou cerca de um mês foragido, foi preso na Bolívia e levado para Campo Grande.
A Operação Successione sustenta que o grupo Razuk tentou ocupar o espaço aberto pelo enfraquecimento dos Name depois da Omertà. Houve, portanto, disputa também no mundo da contravenção. Na política, porém, os sobrenomes sempre demonstraram extraordinária capacidade de sobrevivência. Cai um, permanece outro, volta um terceiro. Mudam os partidos, as federações, os discursos e os números nas urnas. A memória do Estado é que costuma permanecer estacionada.
É por isso que a expressão “bancada do jogo do bicho” não designa uma frente parlamentar formal, com estatuto, presidente e tempo reservado na tribuna. É o nome político de uma permanência histórica: famílias apontadas durante décadas em investigações sobre a contravenção que, simultaneamente, construíram representação, influência e relações dentro do poder público. Jamilson e Jerson têm direito à defesa. Têm também, depois da decisão do TRE, o direito de pedir votos. O eleitor, entretanto, conserva o direito igualmente democrático de conhecer a biografia completa de quem aparece no santinho.
O TRE deu sobrevida às candidaturas, não um atestado de inocência. Tampouco garantiu cadeira para ninguém. Apenas colocou novamente os nomes no volante eleitoral.
No jogo do bicho, o resultado depende do banqueiro.
Na democracia, pelo menos ainda se espera que dependa do eleitor.
