As forças do Alto parecem ter decidido colaborar para que Mato Grosso do Sul amplie informalmente sua bancada no Senado. Enquanto o eleitor sul-mato-grossense se prepara para mandar a Brasília seus dois novos representantes — com uma das vagas praticamente reservada ao bolsonarismo de Capitão Contar ou Reinaldo Azambuja —, São Paulo pode devolver à Câmara Alta uma velha conhecida nossa. Simone Tebet, lançada por Lula no maior colégio eleitoral do país como peça estratégica para conter o avanço da direita no Senado, entrou definitivamente na disputa pelas duas cadeiras paulistas. Se vencer, Mato Grosso do Sul terminará a eleição com três senadores oficiais e uma quarta representante por adoção geográfica: eleita em São Paulo, mas fabricada politicamente por estas bandas.
A providência divina, desta vez, resolveu trabalhar por meio de Ricardo Salles. O ex-ministro do Meio Ambiente recebeu R$ 3,1 milhões em recursos públicos, gastou R$ 1,76 milhão e chegou à última semana da campanha com 4% das intenções de voto antes de descobrir que não queria mais ser senador. Na segunda-feira, anunciou sua desistência e declarou apoio a Guilherme Derrite e André do Prado. O dinheiro ainda não utilizado deverá retornar aos cofres de origem. O que já foi regularmente gasto ficará como contribuição do contribuinte àquele momento sublime em que um candidato conclui que sua melhor proposta para o eleitor é retirar o próprio nome da urna.
A desistência melhora objetivamente a visibilidade de Simone numa disputa que já vinha embolada. Pesquisa RealTime Big Data divulgada nesta terça-feira coloca Guilherme Derrite, André do Prado e Simone Tebet tecnicamente empatados. Marina Silva também aparece no grupo competitivo nos levantamentos anteriores. São quatro candidaturas fortes para duas vagas, agora sem Salles atravessado no caminho, consumindo recursos públicos, tempo de televisão e uma parcela do eleitorado. A saída não entrega automaticamente seus votos a ninguém, mas reduz o congestionamento e transforma Simone, de vez, numa possibilidade concreta.
Naturalmente, Salles não desistiu para ajudá-la. Fez exatamente o contrário. Saiu declarando apoio aos dois adversários de direita e justificou a retirada como necessária para impedir que Simone e Marina sejam eleitas. A intenção é concentrar o voto conservador, fortalecer o palanque de Tarcísio de Freitas e ampliar no Senado a força política de Flávio Bolsonaro. Mas eleição não é transferência bancária. Eleitor não muda de candidatura porque o antigo escolhido entregou uma ordem de pagamento. Os 4% de Salles não pertencem a Salles; pertencem a pessoas que podem acompanhar sua orientação, escolher outro nome ou simplesmente guardar o segundo voto no bolso.
Há ainda uma dificuldade moral nessa transferência. Salles passou a pedir votos para André do Prado, o mesmo político sobre quem afirmou, em maio, não haver “a menor hipótese de alguém decente” manifestar apoio. Quatro meses depois, a decência foi reavaliada pelo instituto de pesquisa. Prado não passou por nenhum processo público de regeneração. Mudou apenas a conveniência de quem o julgava. O homem que antes não merecia o voto de gente decente tornou-se companheiro indispensável na cruzada destinada a impedir a eleição das candidatas apoiadas por Lula. A coerência, como tantas mercadorias da campanha, também entrou em liquidação na última semana.
Simone precisava dessa ajuda depois de quase comprometer a própria candidatura durante um debate. Ao defender que a classe política deveria assumir sua responsabilidade pelos problemas do país, afirmou que os políticos precisavam ter vergonha na cara, “roubar menos” e combater desperdícios e privilégios. Derrite agradeceu o presente e respondeu que político não deve roubar menos; não deve roubar nada. Simone pretendia condenar a corrupção e acabou parecendo propor uma meta fiscal para o roubo.
Mesmo assim a ex-ministra lulista sobreviveu. E aparece competitiva justamente porque sua candidatura não nasceu apenas de uma mudança de endereço eleitoral. Ela integra uma estratégia nacional de Lula para reduzir a vantagem que o bolsonarismo pode construir no Senado a partir de 2027. Com duas vagas em disputa por Estado, a direita organizou chapas fortes pelo país e passou a tratar a Câmara Alta como caminho para pressionar ministros do Supremo, pautar pedidos de impeachment e limitar um eventual novo governo petista. Lula respondeu lançando ou apoiando nomes conhecidos em colégios eleitorais importantes. Simone, ex-ministra do Planejamento, ex-senadora por Mato Grosso do Sul e terceira colocada na eleição presidencial de 2022, virou uma das principais peças dessa contenção em São Paulo.
Eis a ironia contrapontiana: o Mato Grosso do Sul do agro, majoritariamente conservador e bolsonarista, poderá eleger Capitão Contar ou Reinaldo Azambuja e, ao mesmo tempo, comemorar o retorno de Simone Tebet ao Senado como aliada de Lula. Um representante partirá daqui para reforçar Flávio Bolsonaro; outra poderá partir de São Paulo para ajudar a barrá-lo. Na contabilidade oficial, nada muda: cada Estado continuará com três cadeiras. Na contabilidade afetiva e política, porém, poderemos acompanhar quatro.
Salles gastou R$ 1,76 milhão para descobrir que seus 4% seriam mais úteis nas mãos de outros. Tentou transferi-los aos adversários de Simone e pode acabar ajudando a eleger justamente quem pretendia derrotar. Se isso acontecer, São Paulo ganhará uma senadora, Lula ganhará um voto importante contra o bolsonarismo e Mato Grosso do Sul poderá reivindicar a quarta cadeira sem ter depositado um único voto nela. Milagre eleitoral não costuma ser homologado pelo TSE, mas este já pode ser atribuído às forças do Alto — com uma ajudinha involuntária de Ricardo Salles.
contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do
