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segunda-feira, outubro 5, 2026

Lula, o “monstro” da política nacional

O bolsonarismo varreu o petismo do mapa, dominou o Congresso e chegou à frente na corrida presidencial. Ainda assim, o velho sobrevivente ergueu o megafone e convocou sua militância para a guerra final

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Valfrido Silva*

A fotografia de Luiz Inácio Lula da Silva depois da “derrota” no primeiro turno talvez explique melhor a política brasileira do que todas as urnas abertas na noite de domingo. Aos 80 anos, o presidente não aparece abatido, curvado ou procurando culpados. Está com o megafone na mão, o rosto crispado e o dedo em riste, chamando a militância para a guerra. Não se trata apenas de uma pose para animar companheiros desconsolados. É o retrato do maior sobrevivente da política nacional, o homem que viu quase tudo dar errado ao seu redor, perdeu batalhões, generais, territórios e fortalezas, mas permaneceu de pé no meio do campo devastado. O petismo perdeu. A esquerda perdeu. O governo perdeu. Lula, porém, ainda não.

Se a eleição terminasse na análise do mapa político, o bolsonarismo poderia começar a escolher as cortinas do Palácio do Planalto. Flávio Bolsonaro chegou à frente, com pouco mais de 47% dos votos, contra cerca de 45% de Lula. Venceu em 15 das 27 unidades da Federação, dominando integralmente o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste, além de avançar pelo Norte. Lula resistiu nos nove estados nordestinos e em apenas três do Norte. O Brasil produtivo, industrial, financeiro e agropecuário pintou-se majoritariamente com as cores da direita. Ao petista restou sua velha muralha nordestina, ainda sólida, mas menos inexpugnável que em eleições anteriores.

No Congresso, o resultado foi ainda mais devastador. O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara e alcançando o melhor desempenho de um único partido desde 1986. No Senado, a vitória adquiriu dimensão histórica: o partido elegeu 19 senadores e começará a próxima legislatura com 28 das 81 cadeiras. Sozinho, terá mais de um terço da Casa. O PT ficará com nove. Isso não significa que o PL governará o Senado sem precisar conversar com ninguém, mas significa que nenhuma conversa importante poderá ignorá-lo. Indicações para o Supremo Tribunal Federal, reformas constitucionais, CPIs, projetos econômicos e até eventuais pedidos de impeachment de ministros passarão por uma Casa submetida à gravidade do bolsonarismo.

São Paulo forneceu a fotografia mais impiedosa da derrota do campo governista. Tarcísio de Freitas atropelou Fernando Haddad, vencendo com aproximadamente 63% dos votos contra 36% do petista. Haddad não era um aventureiro improvisado: foi ministro, prefeito da capital, candidato à Presidência e uma das principais reservas técnicas e políticas do PT. Ainda assim, foi triturado no maior colégio eleitoral do país. No Senado, André do Prado e Guilherme Derrite venceram Simone Tebet e Marina Silva, duas ministras de Lula, duas mulheres de projeção nacional e duas apostas cuidadosamente escolhidas para oferecer à esquerda uma aparência mais ampla que a velha camisa vermelha.

A derrota de Simone tem peso simbólico adicional. Terceira colocada na eleição presidencial passada, ministra do Planejamento e dona de um discurso de centro capaz de dialogar com setores moderados, ela foi levada a São Paulo como uma espécie de antídoto contra a força bolsonarista. Marina, por sua vez, é um dos maiores símbolos ambientais do mundo e carrega uma biografia capaz de constranger qualquer adversário. Nenhuma das duas resistiu. O bolsonarismo não derrotou apenas o PT tradicional em São Paulo; implodiu também as pontes que Lula tentou construir para fora dele.

Portanto, não há como dourar a pílula. O primeiro turno foi uma vitória monumental da direita e uma rejeição brutal ao governo. Lula chegou ao segundo turno praticamente sozinho, carregado pelo próprio nome e por uma ligação afetiva com parte do eleitorado que partido algum conseguiu herdar. O PT não o empurrou até ali; foi arrastado por ele. Seus ministros não o fortaleceram; vários precisaram ser socorridos por sua imagem durante a campanha e, mesmo assim, sucumbiram. Seus aliados não construíram uma onda; sobreviveram onde conseguiram. Se o candidato governista se chamasse Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann ou qualquer outro nome disponível no estoque petista, provavelmente a eleição presidencial teria terminado no domingo.

Mas ele se chama Luiz Inácio Lula da Silva.

É aí que o entusiasmo bolsonarista precisa trocar a champanhe pela calculadora. A avalanche foi enorme, o mapa é favorável, o Congresso será hostil a Lula e Flávio Bolsonaro entrou no segundo turno à frente. Tudo isso é verdade. Também é verdade, porém, que o velho metalúrgico chegou vivo ao único tipo de disputa em que não precisa salvar seu partido, seus ministros nem seus aliados. No segundo turno, haverá apenas dois nomes na urna, duas histórias diante das câmeras e dois candidatos tentando convencer os eleitores que rejeitaram ambos no primeiro. Lula não precisará mais explicar a derrota de Haddad, Simone ou Marina. Precisará falar de Lula — e ninguém na política brasileira sabe falar de Lula melhor que ele próprio.

Sua frase depois da apuração foi a mais importante da noite: “Estamos na prorrogação e eu sou muito bom no mata-mata, no tête-à-tête.” Não era apenas fanfarronice de vestiário. Lula construiu a vida política em confrontos diretos. Enfrentou a ditadura, empresários, concorrentes dentro da esquerda, três derrotas presidenciais, o mensalão, o impeachment de Dilma, a prisão, a proibição de disputar uma eleição e a expectativa de que terminaria seus dias como personagem de um museu partidário. Saiu da cadeia, recuperou os direitos políticos, derrotou Jair Bolsonaro e voltou ao Palácio do Planalto. Pode ser acusado de muitas coisas, menos de desconhecer o caminho de volta quando todos já lhe fecharam a porta.

O problema para Flávio Bolsonaro é que agora deixará de disputar apenas contra o desgaste de um governo para disputar contra a mitologia de um homem. No primeiro turno, o eleitor escolhe partidos, campos ideológicos, alternativas e protestos. No segundo, escolhe também quem teme menos e quem considera mais preparado para comandar o país. Flávio carregará a força extraordinária do pai, o avanço da direita e uma bancada parlamentar que lhe oferece perspectiva de governabilidade. Carregará igualmente o sobrenome Bolsonaro, as contradições de sua trajetória e a obrigação de provar que não é apenas o número um de uma dinastia política comandada da prisão.

Lula, por sua vez, precisará explicar por que o país rejeitou tão profundamente seu governo e seus candidatos. Não bastará recorrer à memória afetiva, repetir que cuidou dos pobres ou apresentar o adversário como ameaça à democracia. O resultado das urnas mostrou que grande parte do Brasil já não responde automaticamente a essas palavras. O Nordeste ainda lhe oferece trincheira, mas não garante sozinho a vitória. Para virar o jogo, terá de avançar onde foi derrotado, recuperar eleitores de centro e transformar o medo de uma hegemonia bolsonarista sobre o Executivo, o Congresso e o Supremo num argumento eleitoral compreensível fora da bolha petista.

É justamente por isso que o megafone daquela fotografia importa. Ele não está ali para celebrar. Está chamando os sobreviventes, recolhendo os feridos e avisando que a batalha decisiva ainda não começou. O rosto não é o de um homem que desconhece o tamanho da derrota. É o de quem reconhece o desastre, mede a distância até o adversário e decide avançar mesmo assim. Aos 80 anos, depois de uma campanha extenuante e de assistir ao seu campo político ser varrido em quase todo o país, Lula ainda aparenta possuir mais disposição para a briga do que muito candidato com metade de sua idade.

Chamemos Lula de “monstro”, portanto, no sentido que o futebol atribui aos jogadores capazes de aparecer justamente quando o time inteiro desaparece. Não se trata de santificá-lo, absolver seus erros ou ignorar a mensagem arrasadora enviada pelas urnas. Trata-se de reconhecer uma anomalia política que atravessou meio século de história brasileira, sobreviveu aos próprios fracassos e chegou a mais um segundo turno quando muitos já preparavam seu obituário.

O bolsonarismo venceu o primeiro turno, tomou o Congresso, dominou São Paulo e deixou o petismo reduzido a poucas fortalezas. Tem todos os motivos para comemorar e nenhum para considerar o serviço concluído. Porque, debaixo dos escombros da esquerda brasileira, aquele velhinho levantou outra vez. Está com o megafone na mão, chamando sua gente para o mata-mata e lembrando aos adversários que já foi enterrado vivo muitas vezes.

O PT saiu das urnas muito menor. Lula, não. Lula ainda saiu grande o suficiente para assustar.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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