Valfrido Silva *
“Alienação.” A palavra aparece num dos primeiros diálogos de Faca de Dois Gumes, filme brasileiro de Murilo Salles baseado na obra de Fernando Sabino, e ficou martelando em minha cabeça desde que as urnas começaram a despejar sobre o país resultados que mapas coloridos, gráficos ideológicos e especialistas de televisão tentam explicar sem conseguir alcançar a essência do fenômeno. Alienação talvez seja a palavra que melhor defina o pleito de domingo. Não como insulto fácil ao eleitor, muito menos como diagnóstico arrogante de quem se julga dono da verdade, mas como consequência de um processo no qual milhões de brasileiros parecem ter terceirizado às redes sociais, aos influenciadores e aos algoritmos até a tarefa elementar de pensar.
Pode-se colorir o mapa do Brasil de vermelho, azul, verde ou amarelo. Pode-se dividir o Congresso entre direita, esquerda e centro, contar quantos policiais, pastores, agricultores, professores e celebridades ocuparão as cadeiras a partir de fevereiro. Nada disso será suficiente para explicar por que uma personagem polêmica como Isa Marcondes, a Cavala, conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados enquanto Geraldo Resende, médico, ex-secretário estadual de Saúde e parlamentar de sucessivos mandatos, ficou pelo caminho. Geraldo conhece o orçamento da União, os corredores ministeriais, a máquina pública e as necessidades sanitárias de Mato Grosso do Sul. Isa conhece a linguagem das redes, o gosto do escândalo, a força do bordão e a velocidade com que uma frase provocativa atravessa milhares de telas. O eleitor não comparou apenas dois currículos. Escolheu entre duas formas inteiramente diferentes de existir na política — e a que produz mais barulho venceu a que acumulou mais história.
O mesmo fenômeno atravessou o país. No Rio Grande do Sul, Manuela d’Ávila, ex-deputada federal, ex-deputada estadual, ex-vereadora e candidata a vice-presidente da República, foi derrotada na disputa pelo Senado por Marcel van Hattem e Sanderson, dois nomes identificados com a direita bolsonarista e com o enfrentamento permanente ao Supremo Tribunal Federal. Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva, duas ex-candidatas à Presidência da República, ministras de Estado e figuras reconhecidas internacionalmente, perderam as vagas para Guilherme Derrite e André do Prado. Não se trata de afirmar que currículo deva assegurar mandato vitalício ou que o eleitor esteja obrigado a reverenciar biografias. A democracia existe precisamente para derrubar medalhões. A pergunta é outra: em que momento a experiência deixou de ser examinada e passou a ser descartada antes mesmo de entrar na tela?
Nem é preciso chegar, ainda, ao resultado presidencial, no qual Flávio Bolsonaro, o Nantes, preposto político do pai presidiário, terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, o “monstro” da política brasileira. De um lado, o filho escolhido por Jair Bolsonaro para manter o sobrenome, o movimento e o projeto de poder vivos. Do outro, um presidente que saiu da cadeia, derrotou o próprio Bolsonaro, voltou ao Planalto e agora tenta sobreviver à mais poderosa onda conservadora desde a redemocratização. Entre ambos, menos de dois pontos percentuais e um país rachado não exatamente por programas de governo, mas por sentimentos de pertencimento. Muita gente já não vota naquilo que o candidato propõe. Vota contra aquilo que aprendeu a odiar.
É aí que a alienação deixa de ser um defeito individual e se revela produto industrial. O eleitor abre o telefone pela manhã e encontra uma sucessão de vídeos escolhidos não pela relevância, mas pela capacidade de mantê-lo conectado. Se demonstrou simpatia por uma ideia, receberá outras dez que confirmem sua simpatia. Se revelou raiva, será alimentado com indignações cada vez mais fortes. O algoritmo não deseja informar nem convencer; deseja reter. E nada retém mais que medo, ódio, escândalo, sexo, violência e a confortável sensação de que todos os fatos confirmam aquilo em que já acreditávamos.
Nesse ambiente, o político deixa de precisar de ideias e passa a necessitar de uma personagem. O currículo longo vira trololó; a experiência administrativa vira conversa de tecnocrata; o debate transforma-se em fábrica de cortes para redes sociais. Uma frase de quinze segundos, mesmo falsa, alcança mais gente que uma explicação honesta de cinco minutos. A política, que sempre teve algo de espetáculo, finalmente se submeteu à lógica do picadeiro: não vence necessariamente quem conhece o número, a lei ou o problema, mas quem domina melhor a entrada em cena, o bordão e a careta destinada a virar meme.
A faca, entretanto, possui dois gumes. As mesmas redes que alienam também romperam o monopólio dos partidos, das oligarquias, dos grandes veículos e dos candidatos com dinheiro para comprar horário, palanque e silêncio. Deram voz a quem jamais pisaria num estúdio de televisão, permitiram que denúncias escondidas furassem bloqueios e tornaram possível derrotar estruturas consideradas invencíveis. Isa Cavala talvez seja o exemplo mais próximo: sem a bênção do prefeito, sem a maioria dos vereadores e sem a estrutura tradicional que costumava definir os representantes de Dourados, construiu nas redes uma personagem capaz de chegar a Brasília. Seria incoerente lamentar apenas porque a abertura da porteira permitiu a passagem de alguém que desagrada ao velho sistema.
O outro gume aparece quando essa democratização da voz se converte em democratização da mentira, da grosseria e da ignorância orgulhosa. Quando todos podem falar, todos podem ser ouvidos; mas isso não significa que todos tenham alguma coisa a dizer. A abundância de informação não produziu necessariamente cidadãos mais informados. Produziu, muitas vezes, consumidores cercados por versões personalizadas da realidade, cada qual vivendo dentro de uma urna eletrônica particular, alimentada diariamente por conteúdos que confirmam suas certezas e eliminam qualquer dúvida.
Talvez por isso seja insuficiente perguntar o que estaria acontecendo na cabeça do eleitor brasileiro. Antes seria preciso perguntar quem está entrando nela, quantas vezes por dia, com que interesses e pagando quanto. O voto continua livre no instante em que o dedo toca a urna, mas pode chegar até ali conduzido durante meses por impulsos invisíveis, campanhas disfarçadas, influenciadores remunerados e máquinas que conhecem nossos medos melhor do que muitos candidatos conhecem seus programas.
No filme, o advogado interpretado por Paulo José acredita controlar todas as peças de seu plano. Movido pela traição, articula um crime que lhe parece perfeito, até que a paixão, a corrupção e acontecimentos imprevisíveis transformam sua inteligência numa armadilha contra ele próprio. A eleição brasileira carrega algo dessa tragédia. As redes que libertaram o eleitor das antigas estruturas podem aprisioná-lo em novas. A tecnologia que ampliou sua voz pode reduzir sua capacidade de escutar. A rebeldia que derruba os velhos donos da política pode colocar no lugar personagens ainda menos preparados.
A alienação, portanto, não explica tudo. Mas ajuda a compreender por que tantos currículos foram derrotados por personagens, tantos argumentos por bordões e tanta experiência por alguns segundos de vídeo. A faca está nas mãos do eleitor — e isso é a democracia. O problema é saber quem afiou a lâmina, quem ensinou o movimento e qual dos dois gumes começará a cortar primeiro.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
