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terça-feira, outubro 6, 2026

Zé Teixeira e o sonho que não envelheceu

Campeão de votos para a Assembleia, maior mecenas da política douradense pode transformar longevidade em consenso na sucessão municipal

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Valfrido Silva*

A poeira precisava baixar para que se pudesse melhor avaliar a estrondosa reeleição de Zé Teixeira, até porque não se pode desprezar os 54.080 votos que fizeram dele o deputado estadual mais votado de Mato Grosso do Sul. Mesmo assim sua fotografia apareceu tão logo as urnas fecharam, ao lado da fenomenal Isa Cavala Marcondes, formando a dobradinha que melhor funcionou nesta eleição. Ele, acostumado desde sempre a cuidar de invernadas, pediu votos para sua Cavala preferida; ela retribuiu pedindo votos ao padrinho e protetor político. O resultado foi um estouro de boiada eleitoral: Zé Teixeira chegou ao nono mandato consecutivo e Isa atravessou a porteira do Planalto Central para herdar o gabinete de Geraldo Resende. Mas a votação expressiva, por si só, ainda era pouco diante do que ela pode ter ressuscitado.

A história começa muito antes da eleição de domingo, durante a administração de seu brother Humberto Teixeira, passa por uma antológica entrevista ao jornal O Progresso e desemboca numa montanha de votos que talvez tenha despertado um sonho adormecido. É nos museus da política que se encontram as peças capazes de explicar aquilo que os releases escondem, as fotografias não mostram e os resultados eleitorais apenas insinuam. Às vezes, uma declaração esquecida há mais de três décadas diz mais sobre o futuro do que todas as manifestações cuidadosamente preparadas para o presente.

Na entrevista, concedida quando ainda iniciava sua longeva caminhada na Assembleia Legislativa, Zé Teixeira falava do irmão Humberto, então prefeito de Dourados, e elogiava sua administração. Humberto governou o município entre 1993 e 1996, deixou marcas na habitação popular e ocupou aquela cadeira com o estilo de quem sabia que a família Teixeira não chegara a Dourados apenas para comprar e vender gado. No meio da conversa, Zé Teixeira confessou duas invejas boas do irmão. Uma era pilotar avião. A outra, mais política e talvez mais persistente, era tornar-se prefeito de Dourados.

A primeira vontade ficou no sonho: Zé Teixeira não se tornou piloto de avião. A segunda permaneceu guardada durante décadas, talvez no mesmo cofre em que, segundo o folclore político douradense, repousam os famosos “papa-amarelos”: notas promissórias simbólicas — ou nem tanto — assinadas pelos candidatos cuja trajetória ele ajudou a construir. Maior mecenas da política local, o deputado não distribui apoio como quem oferece cafezinho. Investe, exige fidelidade e preserva os comprovantes. Eleitos ou derrotados, os beneficiários sabem que sair da linha pode levar o velho padrinho a abrir o cofre e apresentar a fatura.

Sua longevidade política, apesar de alguns altos e baixos — como a ameaça de transferir o domicílio eleitoral para Caarapó depois de uma votação frustrante na terra de seu Marcelino — ainda lhe permite sonhar com a Prefeitura. Em 2023, após oito mandatos consecutivos, ele voltou a admitir publicamente que gostaria de governar Dourados. A candidatura não decolou. Ele permaneceu na Assembleia, ameaçou encerrar a carreira parlamentar, reconsiderou, trocou mais uma vez a aposentadoria pela urna e acaba de sair dela maior do que entrou: foi o campeão estadual de votos e conquistou o nono mandato, com a saúde “tinindo” de boa como faz questão de repetir.

O prefeito Marçal Filho não precisa se apoquentar, pelo menos por enquanto. Ninguém está afirmando que Zé Teixeira será candidato em 2028. Muito menos que um homem de 86 anos, ao assumir o novo mandato, queira trocar a segurança da cadeira legislativa por uma campanha municipal desgastante, sujeita a debates, caminhadas, cobranças de bairro e à ingrata obrigação de administrar buraco de rua, posto de saúde, folha de pagamento e vereador insatisfeito. Mas a política não se alimenta apenas das candidaturas anunciadas. Alimenta-se também das vontades antigas, das circunstâncias novas e, sobretudo, daquilo que uma montanha de votos permite imaginar.

Zé Teixeira, por enquanto, apenas saiu das urnas estimulado a continuar sonhando. Os 54.080 votos não renovaram somente seu mandato; renovaram seu prazo de validade política, até porque, como dizia o velho Ulysses Guimarães, o poder é o melhor elixir da longevidade. Ele poderia ter encerrado a carreira como um dos deputados mais longevos da história estadual, respeitado pelos aliados, temido pelos adversários e lembrado como o homem que transformou relações municipais, pecuária e fidelidade eleitoral numa máquina resistente ao tempo. Preferiu disputar outra vez. Talvez porque ainda considere cedo para aposentar o chapéu de boiadeiro. Talvez porque os velhos sonhos sejam justamente os últimos a aceitar aposentadoria.

A hipótese torna-se mais interessante quando se observa o tabuleiro montado pelas urnas para a sucessão municipal. Rodolfo Nogueira, o Gordinho do Bolsonaro, foi reeleito deputado federal e agora pode se imaginar puxador de votos e, quem sabe, de tapetes. Ao lado dele está Gianni Nogueira, vice-prefeita e deputada estadual eleita com a maior votação em Dourados. Pela esquerda, Tiago Botelho e Gleice Jane medem o caminho até o gabinete que já pertenceu a Laerte Tetila. Isa Cavala, agora deputada federal, continuará rondando a cidade com seu megafone, imunidade e emendas. A largada ainda está distante, mas a pista já começa a ficar congestionada.

É justamente nesse cenário que surge a palavra capaz de transformar uma lembrança antiga em possibilidade política: consenso. Diante de uma disputa que se anuncia das mais acirradas, com aliados e adversários ensaiando candidaturas dois anos antes da hora, Zé Teixeira talvez seja o único nome com tamanho, história e autoridade para obrigar os demais a, pelo menos, sentarem-se à mesa. Não seria apenas mais uma candidatura. Poderia ser apresentada como homenagem a um homem que atravessou nove eleições para a Assembleia, ajudou a eleger prefeitos, vereadores e deputados, bancou projetos, guardou promissórias políticas e permaneceu de pé enquanto gerações inteiras entravam e saíam de cena.

Naturalmente, a construção de um consenso exigiria que muitos guardassem a própria vaidade no bolso. O poder municipal é pequeno demais para acomodar tantos projetos pessoais e grande demais para ser entregue sem disputa. Cada um dos pretendentes acredita possuir votos, estrutura, padrinhos e legitimidade suficientes para chegar à Prefeitura. “Seu Zé” possui algo diferente: a possibilidade de apresentar sua candidatura não como começo de carreira, mas como coroamento. Aos 86 anos, não precisaria prometer que governaria para preparar o próximo degrau. Ser prefeito seria o último degrau.

Também possui aquilo que os demais ainda tentam construir: capilaridade regional, experiência acumulada, relações com prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias, patrimônio político próprio e um eleitorado que acaba de provar que continua atendendo ao seu chamado. Tem ainda a vantagem de não precisar anunciar coisa alguma agora. Pode continuar cuidando das invernadas, distribuindo emendas, pedindo obras, visitando municípios e dizendo que seu compromisso é exclusivamente com o nono mandato. Na política, os projetos mais perigosos são justamente aqueles que engordam silenciosamente no pasto e só aparecem quando a porteira já está aberta.

Pode ser que o sonho de ser prefeito tenha ficado definitivamente no passado, que Zé Teixeira considere suficiente ter visto o irmão Humberto governar Dourados, o sobrinho tentar herdar o projeto e a família permanecer influente na vida pública municipal. Talvez queira apenas completar o mandato, ampliar o próprio recorde e seguir repetindo que está com a saúde tinindo. Tudo isso é possível. Mas também é possível que, ao olhar a montanha de votos empilhados diante dele, o velho pecuarista tenha voltado a enxergar aquela Prefeitura avistada pela primeira vez há mais de três décadas.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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