Valfrido Silva
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, ensina o velho ditado. Ladrão que apoia quem chamou de ladrão talvez conquiste um ministério, uma secretaria especial, uma embaixada, alguns quilômetros de asfalto até a porteira da fazenda ou, no mínimo, a paz de espírito necessária para envelhecer contemplando o Planalto goiano. A sabedoria popular ainda não atualizou o provérbio para as novas modalidades da política brasileira, mas Ronaldo Caiado acaba de oferecer material suficiente para uma nova edição. No primeiro turno, ao mirar Flávio Bolsonaro, foi categórico: tanto faz roubar com a mão esquerda ou com a direita; quem rouba é ladrão. No segundo, anunciou apoio ao homem que havia colocado no banco dos réus de sua própria retórica. Aparentemente, a urna possui poderes que nem os tribunais reivindicam: absolve sem julgar, apaga antecedentes verbais e transforma denúncia em palanque.
É possível que Caiado tenha recebido alguma explicação tão convincente que ainda não chegou ao conhecimento do restante do país. Talvez lhe tenham demonstrado que rachadinha não é roubo, mas uma forma doméstica de economia solidária, na qual servidores repartem salários para fortalecer a família — sobretudo a família do chefe. Como dinheiro fracionado raramente deixa impressão digital na consciência, quem sabe o ex-governador tenha concluído que metade de alguma coisa não constitui coisa alguma. Seria temerário imaginar a metade das rachadinhas de um eventual governo do Nantes chegando discretamente às fazendas goianas. Isso pertence à caricatura, não aos fatos. Assim como seria leviano supor alguma parceria futura com Daniel Vorcaro, personagem que Caiado utilizou durante a campanha para açoitar o adversário. Mas, diante da velocidade da conversão, a sátira termina parecendo menos absurda que a explicação política oferecida ao público.
Caiado afirma que seu apoio decorre de convicção. Eis uma palavra que merece cuidados quando atravessa um segundo turno. Convicção, em política, deveria ser aquilo que resiste à derrota, à conveniência e ao telefonema de quem se classificou para a final. No Brasil, porém, costuma ser justamente o contrário: convicção é o nome elegante dado à mudança de lado quando o lado anterior já não oferece futuro. O primeiro turno serve para cada candidato dizer o que pensa; o segundo, para provar que não pensava exatamente aquilo que disse. Na primeira etapa, o adversário é ladrão. Na seguinte, torna-se companheiro de caminhada. Mais alguns dias e poderá virar estadista. Se ganhar, a biografia será reescrita antes mesmo da posse.
Apoiar Flávio contra Lula é uma decisão politicamente explicável. Caiado pertence à direita, combate o petismo há décadas, defende pautas próximas às do bolsonarismo e sabe que sua sobrevivência nacional depende da reorganização desse campo. Não é necessário procurar envelopes em porteiras nem malas em pistas clandestinas para compreender a escolha. O problema não está no voto. Está no caminho moral percorrido até ele. Caiado não disse apenas que discordava de Flávio, que o considerava despreparado ou que preferia outro projeto. Usou a palavra mais pesada disponível no mercado eleitoral: ladrão. Agora pede voto para o mesmo personagem sem explicar em qual cartório registrou a inocência, quem arquivou a acusação ou em que momento a mão direita deixou de roubar e passou a apertar a sua.
Esse talvez seja o retrato mais acabado da cultura política brasileira: roubar deixou de ser pecado absoluto e virou infração partidária. O ladrão é sempre o outro. Quando pertence ao nosso lado, passa a ser perseguido, incompreendido, vítima do sistema, alvo da imprensa, refém do Supremo ou produto de uma investigação politicamente orientada. O mensalão foi justificado como necessidade de governabilidade. O petrolão ganhou a moldura de financiamento de um projeto de poder. A Lava Jato começou como cruzada moral e terminou contaminada por messianismo judicial, ambições políticas e ilegalidades que permitiram aos acusados trocar o banco dos réus pelo púlpito dos injustiçados. As rachadinhas foram rebaixadas a assunto familiar. E a transferência de patrimônio público para grupos privados, quando cercada de pareceres, leilões e consultorias, recebe o nome asséptico de desestatização, mesmo quando o Estado entrega o filé, assume o osso e ainda paga a sobremesa.
Cada grupo inventou um dicionário para lavar o próprio pecado. Quando a esquerda desvia, chama de projeto político. Quando a direita é apanhada, denuncia perseguição. Quando o Centrão cobra, chama de governabilidade. Quando o mercado avança sobre o patrimônio público, chama de eficiência. Quando o aliado recebe, é emenda parlamentar; quando o adversário recebe, é compra de apoio. Quando o amigo emprega parentes, valoriza a família; quando o inimigo faz o mesmo, pratica nepotismo. A corrupção brasileira não desapareceu. Apenas se especializou em semântica. Hoje, antes de perguntar quanto foi roubado, exige-se saber quem roubou, de qual partido, com qual mão e contra qual inimigo.
Nesse ambiente, a indignação também passou a ter prazo de validade. Dura enquanto rende votos, curtidas e minutos no horário eleitoral. Caiado chamou Flávio de ladrão quando precisava tomar-lhe eleitores. Agora o apoia porque precisa impedir Lula de permanecer no poder e conservar algum lugar na reorganização da direita. A acusação não foi retirada; foi apenas guardada no mesmo armário onde repousam os princípios utilizados durante as prévias. Caso Flávio vença, talvez Caiado seja apresentado como homem de grandeza, capaz de superar divergências pelo bem do Brasil. Caso perca, poderá dizer que cumpriu seu dever ideológico. Em nenhuma das hipóteses precisará responder à pergunta elementar: o candidato deixou de ser ladrão ou roubar deixou de ser impedimento?
O mais inquietante não é a incoerência de um político. O Brasil sobreviveria a ela como tem sobrevivido há séculos. O que assusta é a naturalidade com que o eleitorado passou a aceitar a moral de ocasião. A corrupção já não provoca rompimento; provoca torcida. Não se examina o ato, examina-se a camisa. A mesma multidão que grita “ladrão” contra o adversário encontra justificativas filosóficas, jurídicas e até bíblicas para defender o aliado. A honestidade deixou de ser princípio e virou arma branca: serve para ferir o inimigo, nunca para cortar a própria carne.
Talvez seja essa a maior herança do mensalão, do petrolão, das rachadinhas, das malas, dos fundos, dos bancos e das privatizações entre amigos. Não a ideia de que todos roubam, porque isso seria uma injustiça com muita gente honesta que ainda existe na vida pública. A herança mais corrosiva é outra: a crença de que o roubo pode ser tolerado desde que impeça o adversário de roubar. Passamos da indignação ética à contabilidade tribal. Já não se escolhe entre o honesto e o desonesto, mas entre o ladrão considerado nosso e aquele que pertence ao outro lado.
Ronaldo Caiado não precisou provar a inocência de Flávio Bolsonaro para apoiá-lo. Bastou descobrir que o “ladrão” do primeiro turno poderia ser útil no segundo. E assim a política brasileira fecha mais um de seus círculos perfeitos: acusa-se por convicção, absolve-se por conveniência e sobe-se ao palanque em nome da pátria. O velho ditado, portanto, precisa ser corrigido. No Brasil, ladrão que rouba ladrão não tem cem anos de perdão. Tem três semanas de campanha, um discurso contra o comunismo e um lugar reservado no palanque.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
