29.2 C
Dourados
quinta-feira, outubro 8, 2026

Datafolha confirma virada, dá quatro pontos a Flávio e põe Lula contra o relógio

Senador aparece com 49% das intenções de voto, contra 45% do presidente; nos votos válidos, placar é de 52% a 48% a 17 dias do segundo turno

- Publicidade -

Valfrido Silva *

A primeira pesquisa Datafolha realizada depois das urnas confirma que a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno não foi apenas um soluço da apuração nem um desarranjo momentâneo provocado pela abstenção. O senador do PL aparece agora com 49% das intenções de voto, contra 45% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Brancos e nulos somam 5% e apenas 1% dos entrevistados permanece indeciso. Quando se consideram somente os votos válidos, aqueles que efetivamente definem a eleição, o placar é de 52% a 48% para Flávio.

A diferença de quatro pontos coloca os candidatos no limite do empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Matematicamente, Flávio pode ter entre 47% e 51%, enquanto Lula pode oscilar entre 43% e 47%. Politicamente, porém, o retrato é bem menos confortável para o petista. Pela primeira vez nesta campanha, um Datafolha coloca o filho de Jair Bolsonaro numericamente à frente de Lula numa simulação de segundo turno — e justamente na primeira fotografia tirada depois de o eleitor ter ido às urnas.

Mais revelador que o placar isolado é o tamanho da mudança ocorrida em apenas uma semana. No levantamento divulgado em 1º de outubro, Lula aparecia com 48% e Flávio, com 45%. A vantagem petista era de três pontos. Agora, Flávio tem 49% e Lula, 45%: vantagem bolsonarista de quatro pontos. A distância entre os dois deslocou-se sete pontos na direção do candidato do PL. Lula perdeu três pontos, Flávio ganhou quatro e a pesquisa capturou o mesmo movimento que surpreendeu institutos, campanhas e analistas no domingo.

Nas urnas do primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. A pesquisa transforma essa vantagem de 1,87 ponto em quatro pontos percentuais nos válidos. Não é uma sentença eleitoral, mas é a confirmação de que o segundo turno começa exatamente onde terminou o primeiro: com Flávio na frente, embalado pela onda conservadora que ampliou a presença da direita no Congresso e com a maior parte dos candidatos derrotados já caminhando para seu palanque.

Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros nomes da direita anunciaram apoio ao candidato do PL. Nesta quinta-feira, Augusto Cury, terceiro colocado no primeiro turno, acertou também sua adesão a Flávio. O presidente, em contrapartida, ainda procura construir uma frente ampla que ultrapasse os limites tradicionais do PT e recupere o eleitor moderado, especialmente no Sudeste. O problema é que, com apenas 1% de indecisos, a disputa já não consiste apenas em conquistar quem ainda não escolheu. Lula precisará convencer eleitores que escolheram Flávio a mudar de lado ou mobilizar milhões de brasileiros que não compareceram no primeiro turno.

A abstenção recorde de 21,08%, correspondente a 33,4 milhões de eleitores, tornou-se a principal reserva de votos do presidente. Lula possui desempenho melhor justamente entre segmentos que historicamente faltam mais, como os eleitores de menor renda e escolaridade. Trazer essa população de volta às urnas tornou-se tão importante quanto enfrentar Flávio nos debates. Não basta converter votos; será preciso converter ausência em presença.

O Datafolha ouviu 2.520 eleitores presencialmente, com margem de erro de dois pontos e nível de confiança de 95%. O levantamento, contratado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-02949/2026. Seus números convergem com os do PoderData/Aya, divulgado também nesta quinta-feira, que apontou Flávio com os mesmos 49% e Lula com 44%. Dois institutos, utilizando metodologias diferentes, captaram o mesmo sentido da corrente.

Ainda faltam 17 dias para o segundo turno, tempo suficiente para debates, erros, denúncias, alianças, fatos inesperados e mudanças de humor. Lula continua sendo o político mais experiente e eleitoralmente resistente da história recente do país. Já virou eleições, ressuscitou politicamente depois da prisão e conhece como poucos a linguagem do confronto direto. Foi ele próprio quem disse, depois do primeiro turno, que a eleição entrara na prorrogação e que era bom no mata-mata.

O Datafolha, entretanto, mostra que Lula entrou nessa prorrogação perdendo. Para virar, precisará atacar, correr riscos e encontrar uma campanha que até agora ele próprio classificou como a mais desorganizada de suas sete disputas presidenciais. Flávio, ao contrário, pode administrar a vantagem, nacionalizar a onda conservadora e tentar evitar o erro fatal de quem começa a comemorar antes de o juiz apitar.

A eleição não foi para o saco. Mas o saco já está aberto, e Lula aparece com uma perna dentro. O velho monstro da política nacional ainda tem força para escapar. Desta vez, porém, terá de fazê-lo correndo contra o relógio, contra a matemática e contra uma onda bolsonarista que o Datafolha acaba de confirmar que não morreu na praia do primeiro turno.

contrapontoMS-IA

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-