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sexta-feira, outubro 9, 2026

Getúlio, JK, FHC ou Lula: quem merece o topo do pódio?

Às vésperas do segundo turno, a memória da CAND convida a comparar os legados dos presidentes que transformaram o Brasil

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Valfrido Silva*

O Brasil volta às urnas em 25 de outubro para escolher entre Lula e Nantes, representantes dos dois polos que disputam o poder e, cada qual à sua maneira, reivindicam a receita para o futuro do país. Antes de decidir quem deve governar, porém, vale uma pergunta: quem, entre os que já governaram, deixou uma transformação digna de ser lembrada pelas próximas gerações? Se perguntarmos a um douradense, a resposta talvez esteja na ponta da língua: Getúlio Vargas. Afinal, foi o “finado” Getúlio que criou, em 1943, a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, a CAND, fazendo da distribuição de terras e da colonização uma política de Estado capaz de mudar o destino desta parte do velho Mato Grosso. A reflexão interessa ainda mais porque um dos candidatos de agora, Lula, também está na briga pela primeira posição nesse pódio — embora, em tempos de polarização, até reconhecer o legado de um presidente possa render uma briga de família.

Essa memória aparece nas homenagens ao antigo presidente e encontra outra expressão no Monumento ao Colono, a conhecida “Mão do Braz”, implantado pelo prefeito Braz Melo na entrada de Dourados. A mão homenageia os colonizadores, o apelido consagrou o prefeito e a história que ela ajuda a contar remete à transformação impulsionada pela CAND. O monumento continua acenando, enquanto muita gente passa por ele sem perguntar quem chegou, de onde veio e o que tornou possível aquela chegada. Há quem conheça melhor o apelido da obra do que o capítulo da história que ela representa. Coisas da província, onde a memória também costuma ganhar nome de político.

Mas há controvérsias, naturalmente. A colonização não ocorreu sobre um território vazio, e seus efeitos sobre os povos indígenas integram essa história. A CAND também teve dificuldades e conflitos, como mostram estudos sobre seus colonos. Reconhecer isso não exige apagar sua importância para Dourados, assim como reconhecer sua importância não autoriza apagar quem sofreu as consequências da ocupação. O passado comporta essas duas verdades. Quem costuma ter dificuldade para acomodá-las é o presente, sempre tão interessado em escolher uma metade da história e despachar a outra para o arquivo morto.

A discussão ganha atualidade porque o Brasil volta às urnas em 25 de outubro, e um dos dois candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva, está justamente nessa disputa pelo pódio histórico que reúne Getúlio, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e outros nomes. Não existe medalha oficial nem classificação definitiva. Existe uma comparação possível entre legados. E existe, sobretudo, a dificuldade de fazê-la num país em que reconhecer uma realização do adversário parece exigir a entrega da carteirinha partidária. Lula disputa o segundo turno com Flávio Bolsonaro; seu lugar na história, porém, depende de uma avaliação que vai muito além desse confronto.

Getúlio tem peso nessa conversa pelas mudanças econômicas, sociais e institucionais associadas a seus governos. Carrega também a ditadura do Estado Novo, a censura e a repressão. O tamanho de uma obra não apaga o autoritarismo de seu autor. Da mesma forma, o autoritarismo não faz desaparecer as transformações realizadas. Avaliar um governante exige suportar esse desconforto: a biografia inteira raramente cabe no discurso dos admiradores ou no dos adversários. Quando cabe perfeitamente num dos dois, convém conferir se não arrancaram algumas páginas.

Juscelino deixou Brasília e um projeto de desenvolvimento que ampliou as ambições nacionais. Fernando Henrique tem lugar na discussão pela estabilização econômica, mas aí é preciso puxar uma cadeira para Itamar Franco: o Plano Real nasceu em seu governo, com FHC na Fazenda e uma equipe de economistas trabalhando em sua elaboração. A moeda que protegeu o salário da corrosão inflacionária não pode ter sua certidão de nascimento reescrita conforme a conveniência dos herdeiros. Também nesse pódio, a fotografia precisa comportar mais gente do que o candidato a dono exclusivo da obra gostaria.

Lula apresenta um argumento forte pelos avanços sociais de seus primeiros governos. A redução da pobreza e da desigualdade, o crescimento da renda do trabalho e a expansão das políticas de transferência de renda marcaram aquele período. Houve continuidade de políticas anteriores, condições econômicas e uma construção coletiva; nenhuma transformação dessa escala sai pronta da cabeça de um único homem. Ainda assim, governar é escolher prioridades, e trazer os mais pobres para o centro da agenda constitui uma escolha relevante. Reconhecer esse legado tampouco oferece imunidade aos erros, às contradições e à cobrança sobre seus governos.

É por isso que a disputa pela primeira posição merece mais do que aplausos ou vaias. O critério deve ser o país que ficou depois: suas instituições, as condições de vida de sua população e a capacidade de sustentar os avanços. Um estadista precisa enxergar além da próxima eleição. E o eleitor precisa conseguir enxergar além da própria antipatia. Pode rejeitar Lula e reconhecer suas realizações; pode votar nele e cobrar seus erros. Essa liberdade de julgamento faz falta numa campanha em que tanta gente parece terceirizar a própria cabeça ao palanque.

A urna não resolverá definitivamente quem foi o maior presidente do Brasil. Resolverá quem terá a responsabilidade de governá-lo nos próximos quatro anos. Conhecer os legados ajuda a comparar capacidades, cobrar projetos e perceber a diferença entre uma transformação duradoura e uma promessa bem ensaiada. Na entrada de Dourados, a “Mão do Braz” continuará lembrando os colonos e um projeto que mudou destinos. Diante da urna, caberá ao eleitor decidir que futuro merece o movimento da sua mão. O pódio pode continuar em discussão. O voto não pode dispensar a reflexão.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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