09/04/2010 – 19:04
Foto: Anita Tetslaff
Realmente, uma obra inimaginável até pouco tempo atrás.
Obras? Isto é um detalhe. Uma consequência. Ou melhor, uma característica do médico que dá uma mão-de-obra danada aos engenheiros que com ele trabalham e que cortam um dobrado para cumprir os prazos por ele pactuados com a população.
No dia em que assinou a ordem de serviço para o início das obras da Perimetral Norte – o contorno rodoviário que vai desafogar o tráfego pesado do centro da cidade -, uma das mais antigas reivindicações da população e da classe política douradense, André Puccinelli disse que sua maior obra como governador de Mato Grosso do Sul é a união da classe política. Isso, para ele, é o que tem possibilitado recolocar o Estado nos trilhos. Ou melhor, como dita o slogan de sua administração, “no rumo do desenvolvimento”.
A pregação sobre a união da classe política começou assim que chegou ao aeroporto e foi repetida no discurso no local onde as obras da Perimetral foram iniciadas, na avenida Guaicurus. Guaicurus, aliás, cuja duplicação também foi “arrancada” do governador, no mesmo evento, por um grupo de universitários que o recepcionou com faixas e cartazes.
Por que no exato momento em que desembarcou em Dourados o PTB formalizava em Campo Grande apoio ao seu projeto de reeleição ou por que alguém que desceu do avião com ele trazia a informação de que a próxima adesão “vai quebrar as pernas” de Zeca do PT, numa alusão à possibilidade de que também o PDT acabe apoiando sua recandidatura, a verdade é que André Puccinelli desembarcou demonstrando uma serenidade incrível. Nem parecia aquele André que ameaça estuprar ministro em praça pública ou que manda sua polícia atirar para matar em bandido que a ameace.
De tão zen que estava o governador até atropelou a história, ao ser questionado sobre qual dos presidenciáveis terá seu apoio. Olhando para as poucas nuvens, num dia de “céu de brigadeiro”, citou a frase famosa de Magalhães Pinto que melhor define a dinâmica da política, lembrando o acordo que possibilitou a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, depois do fracasso das “Diretas-já”. “Se juntou todo mundo para derrotar a ditadura, o Magalhães Pinto, o Juscelino Kubitschek, o Carlos Lacerda, o Ulysses Guimarães, o Maluf e o Tancredo…”. Na verdade, em 1985, Magalhães Pinto, árduo defensor dos banqueiros e dos milicos, já estava doente e fora da política, Carlos Lacerda e JK mortos, enquanto que Maluf foi exatamente o adversário de Tancredo naquela eleição indireta.
Como obreiro reconhecido, e respeitado até pelos adversários como mestre na arte da política, André aproveitou a viagem a Dourados para matar dois coelhos com uma cajadada só, diante de tantos “pais” da Perimetral Norte e da lengalenga da candidatura de seu vice-governador ao senado: “O Murilo será o engenheiro-chefe da Perimetral”. Com os repórteres insistindo sobre as chances do vice, foi direto: “se um engenheiro já chegou ao governo do Estado, por que não vai chegar ao Senado?”. Tanto nas entrevistas como no discurso, o governador só se referiu a Zauith como “meu futuro senador”.
Além do deputado Geraldo Resende e do prefeito Valdecir, que disputam os louros da vitória da Perimetral, que é uma obra estadual, estavam no tablado sob a velha tenda da administração Tetila, vários deputados estaduais e todos saíram de lá com um naquinho da obra, graças a habilidade de Puccinelli. Quietinho, num canto do palanque, sem ser lembrado, assistia a tudo o ex-presidente da 4ª. Subseção da OAB, Sérgio Henrique Pereira Martins de Araújo, que à época em que presidia o Conselhão Pró-Dourados, com o prefeito às turras com o governador, foi quem conduziu as negociações para que a obra saísse do papel.
