02/10/2010 – 17:10
Deitado agora pouco aqui na rede, curtindo o canto do sabiá, toca o telefone. É uma candidata a secretária do lar cadastrada para começar a trabalhar semana que vem, depois de dois meses segurando o pau da bandeira dos candidatos. Com o sugestivo nome de Socorro (só faltou ter como sobrenome “Ajuda eu”), pergunta se sei de alguém que está comprando voto, pois quer vender o dela. Digo-lhe que isso é crime, que condeno esta prática e que meu telefone provavelmente está grampeado, pelo quê ela poderá ter problemas com a dona justa. Assustada, Socorro desconversa com a promessa de começar a trabalhar na segunda-feira.
Hoje de manhã saí para dar uma volta e sentir o clima de pré-eleição. Minha primeira parada não podia ser outra: a churrasqueira do açougueiro Antonio, ali da Simental, onde meu amigo Archimedes Lemes Ferrinho assa uma costela para aperitivar mais tarde. Conversa vai, conversa vem, chega uma antiga companheira de noitadas, há tempos casada com um delegado de polícia. Ferrinho estranha o adesivo no carro dela de um desses paraquedistas da região, candidato a deputado federal. “Ele é o único que garante uma promoção para o meu marido”, disse a não tão jovem senhora. “E pra estadual?”, quer saber Ferrinho, passando-lhe uma taboa com algumas fatias da costela ainda mal passada. “Ah é Londres, estamos agora morando em Fátima e lá ele manda”. E, encerrando a conversa, anunciou voto em Zeca do PT, com um bordão mais ouvido nestes últimos tempos: “é tudo ladrão mesmo”.
Trago estes dois episódios para a reflexão dos internautas nestas poucas horas que nos separam de um dos pleitos mais sem graça dos últimos tempos. Que uma empregada doméstica ponha o voto à venda, vá lá. Deve estar numa precisão danada e, como todo mundo sempre compra, por que não ela também? Cinquentinha daqui, cinquentinha dali; seis candidatos,vai fazendo a conta. Que ela venda os seis votos, pelo menos duas vezes (sim, voto é o tipo da mercadoria que se vende mas que não se dá a garantia da entrega) já é melhor que limpar chão ou esfregar a barriga no fogão durante um mês. Isto, depois de dois meses de generosos trocados como cabo-eleitoral, sem contar um tijolo para o muro que estava caído havia tempo, a telha do barraco que se foi no último vendaval, alguns sacos de cimento e por aí vai. Mas daí uma senhora bem formada, de família bem aquinhoada e, mais, casada com um delegado de polícia, bem que podia dar um bom exemplo de cidadania. Oxente, mulher! Quer vender o voto, que venda, mas que pelo menos tenha dignidade e decência de não sair por alardeando.
Se não chover muito vou sair mais tarde, como faço em toda véspera de eleição, para dar uma circulada lá pelas bandas do Cachoeirinha, onde se assiste ao mais degradante espetáculo de compra e venda de votos de Dourados. Ali é tradição. É o sol se pôr e os moradores saem com suas cadeiras de fio para a frente das casas, formando numerosas rodas de tereré, titulo de eleitor à mão, à espera de quem dá mais, pelo voto. Este é o povo que costuma clamar por justiça e por cadeia para os ladrões e corruptos da política brasileira. Da douradense, principalmente, nestes últimos tempos.
