19/12/2010 – 17:12
Vivaldo da Silva Melo (*)
Na esperada entrevista do ex-prefeito de Dourados, Ari Artuzi, na semana passada, ao radialista Antonio Coca, “nenhuma novidade” para os que acompanharam a trama política que levou à sua queda. Uso a expressão, contudo, em relação ao velho homem, corrompido, conforme nos lembra as Escrituras. Ou seja, se todos ou quase todos criticam o político/homem Artuzi, é preciso lembrar que ele não é diferente de todos nós em relação à postura requerida por Deus em relação ao cristão que comete alguma ilicitude. Artuzi, sendo cristão confesso/nominal, deveria ter aproveitado os dias de cárcere para ler um Salmo bíblico, o 51, e no mínimo o texto que lhe dá pano de fundo, 2 Samuel 12, onde o Rei Davi é confrontado por um profeta depois de um ato pecaminoso.
Talvez tenha faltado ao ex-prefeito, nesses dias de pós furacão, um profeta como Natã, que o confrontasse não com uma parábola, pois ele não entenderia, mas de forma objetiva e clara. Mas, antes que outros males se manifestem em sua vida, quem sabe alguém se disponha a essa abordagem. Davi, mesmo sendo um homem segundo o coração de Deus, relutou, anos, em assumir sua culpa por um adultério envolto numa trama diabólica, visando tirar a vida do marido traído, Urias, súdito do famoso rei. Essa demora, contudo, custou-lhe o desmoronamento do lar, com o estupro de uma filha e a morte de dois filhos, um morto pelo próprio irmão.
Os episódios trágicos do Velho Testamento bíblico são ilustrações oportunas de modelos vivenciais que se repetem, ao longo da história humana. Servem-nos de exemplo. E embora se perpetuem aqui e acolá, dando força a tese salomônica de que “não há nada de novo debaixo do sol”, podem ser evitados. Daí, caso as denúncias contra Ari Artuzi sejam verdadeiras, a pertinência desta leitura, afinal ele não seria o único a relutar em admitir uma culpa. Não seria o único a buscar justificativas para os eventuais erros, até lembrando a própria fraqueza humana. Crucificá-lo, portanto, não seria justo, até pela convicção que se tem, neste país, que as marcas reveladas pela Operação Uragano não são exclusivas da política douradense. Ao contrário – e infelizmente – são constitutivas de nossa cultura política. Pelo que se lê e pelo que se apura nesta esfera da vida, que Agostinho taxou de “maligna”, talvez poucos não se comportem como Ari Artuzi, fazendo o que não deve e não fazendo o que deve ser feito.
Como o assunto é explosivo e os bastidores da política são vedados aos mortais por conta de uma infinidade de interesses, inclusive a subvenção daqueles que poderiam revelá-los, pensemos apenas na situação de Ari Artuzi, que não teria sido “esperto o suficiente” conforme sugere o diabólico rito da política em voga. Se a vida do Rei Davi serve de exemplo para o ex-prefeito douradense e se Deus pode intervir nesta e outras situações, uma única ação desencadearia a sua restauração diante daquele a quem diz temer: o arrependimento. Perante Deus isto seria crucial para uma nova página em sua história. Essa é a atitude requerida de todos que usurpam o ideal do justo governar. Contudo, precisamos ser honestos: é preciso coragem para esse gesto. O próprio Davi não teria assumido, publicamente, seus erros, se não tivesse a compreensão de que Deus executaria juízo e que isto seria pior do que qualquer punição humana. Ari e todos os políticos precisam se lembrar disto!
(*) Jornalista e pastor presbieteriano.
