26/05/2011 – 17:05
Foto: Anita Tetslaff
O democrata Murilo Zauith e sua vice, petista, Dinaci Ranzi: por enquanto só alegria e muito trabalho; reeleição, só ano que vem.
Esperei cem dias, como ele não voltou para um cafezinho ao som da saracura, o que é de se compreender, diante de tantos outros sons de outros bichos bem mais estranhos nesta sua nova rotina, fui lá filar de sua rubiácea. Cheguei bem cedinho. Sua faz-de-tudo Andréia Goiaba já o esperava do lado de fora ao volante do jipinho preto de molas super reforçadas para suportar a rotina diária cruzando de um lado para outro esta que até poucos dias certamente era a cidade mais esburacada do Brasil. Ele já havia acordado, mas, como de costume, ao lado de sua Cecília, ainda no quarto, lia os jornais locais e, claro, o blog preferido dele e da patroa. Ao descer deu de cara comigo e Goiaba, na cozinha, já avançando sobre o café e alguns brioches. Passou direto, deu um oi, de longe, e foi até a garagem conferir alguns documentos deixados em outro carro. Pensei, estraguei o dia do prefeito. Que nada, ele voltou, sentou-se numa cadeira na varanda e começamos a prosear. Os primeiros compromissos oficiais do dia foram para o beleléu diante do intruso que ali chegou com a desculpa de falar com a primeira-dama sobre questões que nada têm a ver com a prefeitura.
Depois desses cem dias em que mais deu duro em sua vida Murilo Zauith parece determinado e muito confiante em mudar o jeito de tocar as coisas na prefeitura mais encrencada do Mato Grosso do Sul. Antes que começasse a falar de seus projetos fui metendo o bedelho, reclamando de meus próprios buracos, aqui na baixada do Laranja Doce, mas, tranquilizando-o de que não será por isso castigado, muito menos pelos intermináveis problemas da saúde pública ou pela ziquizira que é a questão educacional. Só não pode deixar uns e outros meterem a mão nas tetas sempre apetitosas da barrosa. Mensalinho pra vereador, nem pensar, muito menos o famigerado retorno aos deputados mal-acostumados. Ou seja, não pode deixar roubar. Zauith, que não é dado a obviedades nem a conversa mole, pula esta parte, e como conheço bem a fera, nem insisto, na certeza de que não só vai ser assim como quem se atrever a falar destas coisas com ele vai cair, e cair bonito, do cavalo.
Paulista nascido nas lindes das Minas Gerais, o engenheiro Murilo também não é de passar recibo, e para mostrar que com ele não existe coisíssima nenhuma desse negócio de pasmaceira, começou a debulhar seus projetos. Como, para ele, mais que para ninguém, o tempo ruge, como diria o impagável bicheiro Giovani Improtas, de Zé Wilker, numa novela global, disse que vai mudar, e logo, a cara da cidade. Literalmente. Começando pela principal artéria (alas), a Avenida Marcelino Pires, que terá mais uma pista de rolamento em cada uma das mãos, com faixa à esquerda exclusiva para ônibus articulados, com os pontos de passageiros, supermodernos, nos canteiros centrais. Ah, esse negócio de terminal de transbordo está com os dias contados, com a entrada em vigor dos cartões magnéticos. Com os dias contados também estão os famigerados redondos, coisa de corrutela, segundo o prefeito, bem como o calçadão da Nelson de Araújo, muito romântico, muito bonitinho, fruto da melhor das boas intenções do prefeito Luiz Antonio, mas que não colou. O fim da buraqueira no asfalto é questão de honra, e de dias, uns noventa, no máximo, para ninguém mais precisar se preocupar em arrebentar amortecedores. Mas não é só o centro que vai mudar. Murilo tem andado muito pela periferia. O asfalto do Cachoeirinha, por exemplo, bairro dos mais emblemáticos de Dourados, sai, segundo ele, com ou sem ajuda do governo federal ou das emendas dos parlamentares dos retornos.
Administrativamente falando, a estranheza é geral com o ritmo imprimido por Murilo Zauith. Mas é o seu jeito empresarial de tocar as coisas, que sempre deu certo, não o político. “Estou fazendo enfrentamentos que ninguém teve coragem de fazer, vou lá, converso com os professores, agora vou conversar com os médicos, e assim será com todos os setores administrativos; tem que funcionar e funcionar bem”. Engana-se, também, quem pensa que vai emprenhá-lo pelos ouvidos. Murilo sabe o que quer e como quer. Claro que tem consciência de que não pode fazer tudo sozinho, esperando contar sempre – e providencialmente – com a mão estendida do governador André Puccinelli, com quem diz ter aprendido muito, principalmente a economizar, cortando gastos desnecessários, ao máximo, para fazer investimentos e não precisar ficar por aí de pires na mão.
Quanto à maior queixa, principalmente de quem não conhece ou não se habituou ao jeitão Murilo de ser e de tocar as coisas, aquilo que parece ser indiferença, ou um certo desdém, um aviso: quando ele começa a olhar para cima ou para os lados, repetindo o mais característico de seus gestos, o de bater com os dedos das mãos, os da esquerda nos da direita, pode esquecer, é sinal de que a prosa não vai render.
Com tanta coisa para fazer em tão pouco tempo, como fica o projeto da reeleição? Ele diz que não tem tempo para discutir política este ano. Seu governo dando certo, como ele acredita que dará, entende que tudo se dará naturalmente. “Dourados tem que saber o que quer. Ou larga mão”. Mas, no fundo, no fundo, ele tem como favas contadas mais quatro anos de mandato, para, aí, sim, no macro da coisa, quebrar paradigmas. É para isto que ele acredita ter vindo.
