20.7 C
Dourados
segunda-feira, junho 29, 2026

Geraldo volta a apontar o dedo para os “mercadores do voto”

A crítica do deputado aos chamados "mercadores do voto" vai além da campanha eleitoral e expõe um fenômeno antigo: a indústria política que prospera a cada eleição, enquanto Dourados continua exportando votos e importando candidatos

- Publicidade -

Valfrido Silva

A figura do mercador atravessa os séculos. Tornou-se símbolo desde que Cristo expulsou do templo aqueles que haviam transformado a fé em comércio. Dois mil anos depois, o deputado federal e candidato à reeleição Geraldo Resende resolveu ressuscitar a expressão para definir um personagem que, segundo ele, também prospera em outro templo: o da política. São os “mercadores do voto”, um fenômeno que, na sua avaliação, não se restringe a Dourados, mas se espalha pelo país.

Depois da polêmica declaração de que “os eleitores de Dourados têm o dedo podre na hora de votar”, Geraldo voltou a mirar naqueles que fazem da política um negócio. Sem entrar nos detalhes do que, dependendo da interpretação, poderia soar como uma grave denúncia, deixou claro que se referia aos cabos eleitorais, coordenadores de campanha e operadores políticos que, nesta fase do processo eleitoral, já saem de casa munidos de suas conhecidas “tabelas”, onde os valores variam conforme o cargo em disputa, de deputado estadual a governador.

A nova crítica foi feita durante um encontro que Geraldo definiu como uma reunião entre amigos de longa data, alguns deles companheiros de mais de meio século, ocasião em que apresentou oficialmente sua filha, Bárbara Resende, como companheira de chapa. Ele disputará mais um mandato de deputado federal; ela tentará uma vaga na Assembleia Legislativa.

A dobradinha provocou comentários no meio político. Há quem considere a estratégia um tiro no pé, por entender que uma candidatura pode acabar disputando espaço com a outra. Geraldo rejeita essa avaliação. Sustenta que Bárbara possui identidade política própria, construída como advogada atuante na defesa do terceiro setor e também pela experiência adquirida como assessora parlamentar em Brasília. Soma-se a isso, segundo ele, o fato de ter crescido acompanhando sua trajetória política, iniciada com dois mandatos de vereador, seguida por um de deputado estadual, seis de deputado federal e duas passagens pela Secretaria de Estado de Saúde.

É justamente aí que entra a lógica dos chamados “mercadores do voto”. Segundo o deputado, eles não trabalham com combos. Preferem candidaturas isoladas porque cada campanha representa uma negociação diferente. Há uma tabela para deputado estadual, outra para deputado federal, outra para senador, outra para governador. Não existe desconto para quem pede voto casado. Daí sua avaliação de que parte desses operadores tende a virar-lhe as costas, já que uma dobradinha familiar dificultaria esse tipo de intermediação e exigiria maior fidelidade do eleitor.

A expressão utilizada pelo deputado não deixa de ser curiosa justamente porque ajuda a explicar um velho fenômeno da política brasileira. Os mercadores de hoje raramente disputam mandato. Preferem atuar nos bastidores. São os eternos coordenadores, articuladores e operadores que, conforme sopra o vento, mudam de candidato, de partido e até de discurso com a mesma facilidade com que trocam de camisa. Não há fidelidade, ideologia ou bairrismo. Há mercado.

É nesse ambiente que desembarcam, eleição após eleição, os velhos paraquedistas, quase sempre vindos de Campo Grande e de outras regiões do Estado, carregando estruturas financeiras muito superiores às dos candidatos locais. Antes mesmo de colocarem os pés em Dourados, já encontram quem lhes abra portas, apresente lideranças, organize reuniões e, principalmente, coloque sobre a mesa as famosas tabelas de prestação de serviços políticos. É quando muitos desses mercadores costumam “arrumar a vida”. Às favas o bairrismo. Às favas o idealismo. Aliás, idealismo… o que é isso mesmo? O resultado é conhecido. A cada eleição, Dourados assiste a uma parte expressiva de seus votos embarcar nas malas dos paraquedistas, enfraquecendo justamente aqueles que, bem ou mal, têm endereço, história e compromisso político com a cidade.

Desta vez, o sempre polêmico parlamentar não recorreu a expressões como “cérebro pouco arejado” ou “escolhas perversas”, utilizadas anteriormente ao comentar o comportamento do eleitor douradense. Limitou-se a dizer que está preparado para enfrentar novamente a resistência daqueles que, em sua avaliação, transformaram a política num grande balcão de negócios.

A expressão “dedo podre”, que provocou forte repercussão em Dourados e acabou contribuindo para a transferência de seu domicílio eleitoral para Campo Grande, nasceu da frustração acumulada após a derrota para Délia Razuk na disputa pela Prefeitura, em 2016, e, posteriormente, pela perda temporária de sua cadeira na Câmara dos Deputados. O revés acabaria sendo parcialmente compensado pelo convite para comandar a Secretaria de Estado de Saúde no segundo governo Reinaldo Azambuja, período marcado pelo enfrentamento da Covid-19. Geraldo costuma apresentar essa atuação como uma de suas principais credenciais para retornar à Câmara Federal, lembrando, inclusive, que, pela importância de sua missão como médico naquele momento de pandemia, preferiu permanecer à frente da pasta em vez de assumir como suplente quando Tereza Cristina deixou o mandato para integrar o governo Jair Bolsonaro.

Agora, a aposta é diferente. Pela primeira vez, Geraldo divide o palanque com a filha e transforma uma sucessão familiar em estratégia eleitoral. Até por isso, acredita que a dobradinha nasce fortalecida por um legado político construído ao longo de décadas. Quanto aos mercadores do voto, esses provavelmente continuarão fazendo o que fazem em todas as eleições: seguindo não a bússola das convicções, mas a direção para onde aponta o melhor negócio.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-